publicidade

Pesquisadores brasileiros criam exame molecular que reduz de oito para quatro horas o diagnóstico da gripe A

Os insumos do método nacional são mais baratos 60% do que os importados e mais eficientes na identificação do vírus, segundo a Fiocruz

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

postado em 26/06/2010 08:56

Silvia Pacheco

Há cerca de um ano, em junho de 2009, Júlio Cardia, de 26 anos, chegava de Buenos Aires com fortes dores no corpo, tosse e febre alta. O jovem sabia que uma certa doença nova, conhecida como gripe suína, poderia se transformar em uma epidemia mundial. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, o relações públicas procurou imediatamente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), onde relatou sua situação. “Me encaminharam para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran), unidade de referência no tratamento da doença no Distrito Federal), onde fizeram a triagem e tiraram meu sangue para o exame”, conta Cardia.

O jovem foi mandado para casa e ficou de quarentena, tomando o medicamento contra a gripe. “Mesmo assim não tinha certeza se estava mesmo com a gripe A”, disse. Cardia conta que a demora em receber o diagnóstico atrapalhava sua vida. “Na época fazia uma pós-graduação cara e estava perdendo aulas. Se tivesse logo o diagnóstico poderia negociar com o meu professor o conteúdo”, reclama. Depois de ter completado quatro dias, desde que fez o exame, Júlio resolveu ligar no Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) para saber do resultado e soube que estava contaminado pelo vírus influenza A.

A demora no diagnóstico da doença era comum, já que os reagentes biomoleculares que detectam o vírus H1N1 eram importados. Na época, há uma ano, o mundo sofria uma epidemia da gripe e os países produtores desses reagentes não conseguiam suprir a alta demanda. Agora, o Brasil tem a capacidade de produzir esses insumos com o desenvolvimento do Kit Nacional para Diagnóstico da Influeza H1N1. Dessa forma, o país se torna independente do mercado internacional e pode fazer um acompanhamento epidemiológico mais eficiente sobre a situação da gripe. O kit reduz o tempo do diagnóstico de oito para quatro horas.

O teste brasileiro foi desenvolvido por um consórcio entre o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do Laboratório de Bio-Manguinhos e do Instituto Carlos Chagas. Segundo Mário Moreira, vice-diretor do Instituto Carlos Chagas, o kit é mais eficiente e mais barato do que o importado e se trata de uma novidade em termos de avanço científico e tecnológico. “As tecnologias desenvolvidas pelos institutos diminuem as etapas do exame para a detecção do vírus H1N1. Isso reduz o tempo da análise pela metade, passando de oito para quatro horas.”

Os kits importados chegavam ao Brasil separados e eram montados e organizados pelos laboratórios brasileiros. “Os insumos vinham separados, de diferentes países. Os laboratórios montavam um a um. Agora, sem a necessidade desse procedimento, diminuirá o risco de falha humana e desperdício de insumos”, explica o vice-diretor do Instituto Carlos Chagas.

Rede de combate
O kit brasileiro reúne em apenas um produto (que contém dois tubos) os reagentes biomoleculares utilizados para a detecção do vírus. O teste será distribuído aos três laboratórios de referência da gripe H1N1, em seis estados — a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro (Fiocruz/RJ); o Instituto Evandro Chagas, no Pará (IEC/PA); o Instituto Adolf Lutz, em São Paulo e três Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) no Distrito Federal, no Paraná e na Bahia.

Segundo Moreira, a Fiocruz será a responsável por entregar os insumos necessários para os exames, os equipamentos utilizados, assim como prestará assistência técnica, além de fornecer treinamento de pessoal. “É uma solução integrada que dará origem a uma rede em prol da saúde”, diz Moreira. Dessa forma, os laboratórios vão utilizar os mesmos equipamentos e reagentes. “Isso permite que seja feita uma comparação melhor entre eles, para avaliarmos se estão dando certo ou não. Além disso, está garantido o fornecimento de insumos necessários para o diagnóstico, diferente do que ocorreu no ano passado”, conclui o gestor.

De acordo com o secretário de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães, o teste brasileiro é cerca de 60% mais barato que os insumos importados. “O material em outros países custa entre R$ 120 e R$ 150, enquanto o nacional custa R$ 45”, disse. Além disso, o desenvolvimento dessa tecnologia de diagnóstico molecular poderá ser útil para detectar outras doenças importantes no Brasil, com a dengue, a Aids, a hepatite C, a tuberculose e as meningites. “Assim que o projeto-piloto, representado pelo kit do H1N1, for consolidado, montaremos uma rede de diagnósticos nacional voltados também para outras doenças”, informa o secretário.

Teste de precisão comprovada

Luís Oliveira/Divulgação
Kit diagnóstico nacional localiza vírus da gripe A e de outras doenças, como dengue, malária e tuberculose


A metodologia utilizada no exame é a PCR Real Time quantitativo. Diversas instituições de pesquisas e laboratórios estudam novos diagnósticos usando essa metodologia que detecta rapidamente o genoma de qualquer vírus, bactéria ou parasita que esteja no organismo. No caso dos vírus, sua identificação se dá pelo seu RNA viral no sangue, ou em qualquer célula. Portanto, o PCR vai direto no vírus e não nos anticorpos, como ocorre com os exames tradicionais.

Marco Krieger, pesquisador titular da Fiocruz e diretor de Inovação e Tecnologia do IBMP, explica que são utilizados três alvos para o diagnóstico do H1N1, os quais os pesquisadores conhecem bem sua sequência genética. O primeiro é uma sequência específica para o H1N1; outro é uma sequência da gripe comum, a Influeza; e o terceiro é um alvo molecular de um gene humano, que garante que o material foi coletado corretamente.

O diagnóstico é dado de acordo com esses três resultados. “Precisamos ter um controle positivo do terceiro alvo, para provar que o material é humano. Se tivermos positivo para o Influenza, é a gripe comum, sazonal. Porém, se o resultado for positivo para o Influenza A, o H1N1, é a gripe pandêmica”, explica Krieger.

Síndrome
A gripe H1N1 ocorre em vários níveis diferentes. Há pessoas que são contaminadas e nem percebem; em outros casos, a doença pode evoluir para a síndrome aguda respiratória grave, uma infecção que leva à morte se não for tratada rapidamente. Segundo médicos, pacientes com esse quadro são internados rapidamente e necessitam de um diagnóstico imediato. Nesse momento será utilizado o kit. “A confirmação do H1N1 não interfere no tratamento, a não ser que a pessoa esteja na fase aguda da doença, determinada por exames clínicos”, disse Humberto Almeida, clínico geral.

Durante a primeira onda da pandemia, entre abril e dezembro de 2009, foram realizados 73.121 testes. No mesmo período, registrou-se 46.100 casos graves da gripe H1N1 e 2.051 mortes. Este ano são 609, com 74 óbitos. Mesmo assim, a expectativa do governo é de que caia o número de casos graves e mortes pela doença. “Tivemos 84 milhões de pessoas vacinadas, o que diminuirá o número de casos. Além disso, com este novo kit de diagnóstico estamos preparados para o inverno”, comemora Guimarães. Segundo o secretário, os laboratórios têm condições de produzir 80 mil testes por mês.


Mutação perigosa

# Origem
A doença é causada por um vírus que normalmente afeta apenas os porcos, o H1N1

# Mutação
O H1N1 sofreu uma mutação – como pode ocorrer com qualquer vírus – e pode ser transmitido de pessoa para pessoa. Antes ele era transmitido apenas do porco para o ser humano

# Transmissão
Pelo ar ou pelo contato com objetos, pessoas ou superfícies contaminadas

# Sintomas
Febre acima de 38ºC
Tosse e dificuldade respiratória
Diarreia
Dor de garganta
Dor de cabeça
Dores musculares e nas articulações
Detalhe importante: a febre passa e depois volta de forma repentina, após alguns dias.

# Prevenção
Evitar locais com aglomeração de pessoas
Fazer frequente higienização das mãos com água e sabão ou álcool gel a 71%
Lavar as mãos após tossir ou espirrar
Não dividir objetos de uso pessoal

publicidade

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.

publicidade