Uma rua estreita, com o asfalto ainda novo, leva à construção simples, parte de alvenaria, parte de madeira, onde as duas crianças brincam com os primos e vizinhos. Na casa, com o quintal de terra batida, cravada no meio da Estrutural — cidade que cresceu espremida entre um lixão e a rodovia que lhe dá o nome —, mora Maicon Carvalho de Almeida, 26 anos, reciclador e pai dos dois pequenos que se distraem na porta de casa, Maicon Douglas, 8 anos, e Carolaine Jamile, 6. As crianças dividem o tempo entre a diversão e os estudos, na escola perto de casa. Enquanto isso, não muito longe dali, o pai tenta retirar do lixo o sustento da família.
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| Maicon, 26 anos, com Maicon Douglas, 8, e Carolaine Jamile, 6: trabalhando com reciclagem de lixo, ele faz de tudo para que os filhos possam só brincar |
Mesmo com menos de 30 anos, a saúde de Maicon Carvalho já não é das melhores, culpa da alimentação ruim que teve na infância e do trabalho precoce. Desde os 8 anos, o reciclador já trabalhava como gente grande. Hoje, luta para que os filhos não sigam o mesmo caminho e tenham sua saúde prejudicada desde cedo. A milhares de quilômetros de uma das cidades mais pobres do Distrito Federal, pesquisadores da Universidade de Pittsbugh, nos Estados Unidos (EUA), comprovaram o que o pai brasiliense aprendeu na prática: situações de vulnerabilidade, como fome e trabalho infantil, deixam marcas na saúde das crianças que permanecem durante a vida toda.
Segundo o estudo norte-americano, crianças que não têm condições mínimas para crescer e se desenvolver plenamente, especialmente nos primeiros anos de vida, têm chances muito maiores de desenvolver no futuro problemas cardíacos, envelhecimento precoce e inflamações. “As razões são muitas e vão desde a exposição a toxinas e uma dieta mais pobre de nutrientes até aspectos ambientais, como menos oportunidade de se exercitarem fisicamente por morarem em bairros inseguros”, conta Karen Matthews, uma das responsáveis pelo estudo, em entrevista ao Correio.
A pesquisa conduzida por Karen avaliou a saúde de 200 adolescentes. Os que vieram de lares mais pobres e foram mais expostos à violência doméstica ou à desestruturação familiar apresentaram artérias mais endurecidas, pressão cardíaca mais alta e tiveram mais momentos de raiva e hostilidade do que os que cresceram em condições mais próximas das ideais. “Isso acontece porque são crianças mais expostas ao estresse, já que suas vidas são imprevisíveis. Além disso, essas famílias têm menos recursos para tratar o estresse”, explica a pesquisadora americana.
Karen conta que essas crianças também têm uma postura diferente quando pensam na vida que levarão quando crescerem. “Elas são menos otimistas sobre seu futuro — o que, de certa forma, mostra um realismo diante da vida — e experimentam muito cedo emoções e situações negativas”, conta a especialista. “Todos esses fatores contribuem para eles serem menos saudáveis na vida adulta”, conclui.
Em nome dos filhosMesmo sem conhecer a pesquisa americana, Maicon Carvalho tenta minimizar os riscos para a saúde de seus filhos. “Enquanto eu puder, farei de tudo para eles não terem que trabalhar e poderem estudar. A comida não chega a faltar, mas tenho que lutar muito pra isso”, conta o reciclador. “Se quando eu era criança fosse assim, talvez hoje eu não tivesse alguns problemas de saúde”, conta o pai, que reclama das dores constantes, principalmente na coluna.
Para a presidenta do departamento científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Virgínia Weffort, além do problema da falta de comida, toda a população, inclusive a mais pobre, também sofre com os efeitos da alimentação incorreta. “Muitas vezes, não se trata de quantidade, e sim de qualidade. Em todas as classes sociais existe o hábito de comer alimentos ricos em gordura e açúcares e pobres em vitaminas e nutrientes. O resultado é um atraso, por vezes irreversível, no desenvolvimento dessas crianças”, conta a médica.
Os preços e a publicidade de alimentos pouco saudáveis acabam atraindo os pequenos. “Uma criança pobre, que ganha R$ 2 do pai para comprar um lanche, em geral vai utilizá-los para comprar um biscoito e um refrigerante. Dificilmente ela vai comprar uma fruta, que, aliás, muitas vezes é até mais cara”, exemplifica Virgínia. “Não bastasse o fato de se alimentarem pouco, elas se alimentam mal. Isso se reflete no baixo crescimento e desenvolvimento intelectual mais lento, mais riscos de ateriosclerose, diabetes e problemas cardíacos”, enumera.
Além da falta de alimentação adequada, o abuso sexual, a violência doméstica e o trabalho infantil são algumas entre as tantas violações aos direitos das crianças que fragilizam a saúde dos pequenos — tanto no presente quanto no futuro. “Os primeiros três anos de vida são quando a criança se torna mais vulnerável, mas por toda a infância esse tipo de violação é altamente prejudicial”, conta Mário Volpi, coordenador de relações institucionais do Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef) no Brasil.
Nesses casos, o dano também é permanente. “Esse tipo de situação gera na criança sentimentos negativos — como a culpa — e problemas de autoestima e autoimagem, que levam ao baixo rendimento escolar e dificuldades no relacionamento com outras pessoas, por exemplo”, aponta Volpi. “Da mesma forma, se a criança for mantida protegida dessas experiências, ela terá chances muito maiores de se tornar independente, autônoma, ter sucesso nos estudos e, no futuro, lidar melhor com situações de perigo.”
O bombeiro hidráulico Nadir Alves Moreira, 49 anos, demorou mais de quatro décadas para sentir os efeitos de uma infância cheia de adversidades. Nascido na zona rural de Cavalcanti (GO), com 10 irmãos, ele nem se lembra quando começou a trabalhar. “Desde que me entendo por gente eu já trabalho, mas, com 12 anos, passei a fazer isso como gente grande”, relembra Nadir, que hoje mantém cuidados constantes com a hipertensão recém-descoberta.
Assim como Maicon Carvalho, ele também acredita que se tivesse aproveitado melhor a infância, talvez sua saúde hoje fosse melhor. “Infelizmente, não deu. Com muitos irmãos e morando na roça, tive que começar a trabalhar muito cedo”, justifica. “Agora, o jeito é cuidar dos meus filhos, que ainda são pequenos. No caso deles, ainda dá tempo de prevenir”, completa o pai, enquanto leva os espoletas Ana Carolina, 10 anos, e Marcos, 8, ao posto de saúde para um consulta de rotina.
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