Pesquisadores encontram meio para combater a alimentação precária

Grupo de pesquisadores da USP, da Universidade Federal do Ceará e do Centro de Saúde Global da Virgínia, nos EUA, descobre que é possível combater os efeitos da alimentação precária com a suplementação de acetato de zinco e injeções subcutâneas de glutamina

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postado em 05/11/2010 08:00 / atualizado em 04/11/2010 23:39

Rebeca Ramos

Kléber Lima/CB/D.A Press
Pesquisadores encontraram dois importantes aliados contra os efeitos da desnutrição. Após estudos, foi constatado que a suplementação com acetato de zinco e injeções de glutamina protegem contra os problemas causados pela falta de nutrientes no organismo. Em teste de laboratório, as substâncias aumentaram a camada CA1 do hipocampo, importante região do cérebro que concentra inúmeras funções, entre as quais as de natureza cognitiva, principalmente as relacionadas ao aprendizado.

Realizados por um grupo de estudo multidisciplinar formado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFCE) e do Centro de Saúde Global da Virgínia (EUA), os testes foram conduzidos em ratos. Segundo o coordenador da pesquisa, o professor da USP Antônio Coppi, os resultados podem ser aplicados aos seres humanos.

Arquivo pessoal
Os filhotes de camundongo, desnutridos ainda no período pós-natal, receberam, por 12 dias, injeções subcutâneas de glutamina. Já as mães ingeriam o acetato de zinco adicionado à água. Coppi conta que a glutamina é um aminoácido que entra na constituição do sistema imunológico, conferindo resistência ao organismo e atuando na renovação celular. “Já o acetato de zinco age no metabolismo de várias enzimas, sintetizando lipídios, proteínas, carboidratos e as reações metabólicas”, explica. De acordo com ele, o experimento simula a situação de mulheres com muitos filhos sem condição de alimentá-los. “Essas crianças, mal alimentadas, apresentam deficiências de aprendizado, como a dislexia”, contextualiza.

A partir do experimento, os ratos foram submetidos a testes funcionais, comportamentais e bioquímicos, nos quais os cérebros desses animais foram analisados por meio da estereologia, ciência que analisa o órgão em três dimensões para a contagem das células. O resultado mostrou o aumento da camada CA1 do hipocampo. “Esse fenômeno pode ter ocorrido pelo aumento do número de células”, acredita Coppi. O professor diz que, entre as várias regiões do hipocampo, uma das mais importantes é a CA1, pois é nessa região que se processam as informações cognitivas e onde há a consolidação da memória.

Outra hipótese levantada pelos pesquisadores foi a de que seres desnutridos têm problemas cognitivos pela diminuição dessa camada. “A falta de proteína na dieta pode levar à morte dos neurônios e, portanto, à atrofia da camada”, acredita Coppi. Foi percebido também que os filhotes apresentaram maior quantidade de zinco no cérebro. Vale lembrar que esses camundongos só tiveram acesso ao zinco pelo leite da mãe.
A nutricionista Carolina Araújo explica que as células do sistema nervoso consomem não só a energia dos carboidratos, mas também a de alguns aminoácidos, como a glutamina. Ela ressalta que a glutamina pode ser encontrada em produtos lácteos, proteínas animais, sementes, grãos e legumes, como o milho, a batata e o brócolis. Segundo ela, o organismo de uma pessoa desnutrida primeiramente esgota seus estoques de energia e depois utiliza o tecido muscular como fonte de energia para manter as necessidades fisiológicas normais. “Por isso, é comum as pessoas com esse deficit serem magras, fracas e com tantos problemas cognitivos”, acredita.

Em relação ao acetato de zinco, Carolina conta que ele é encontrado no fígado e no pâncreas e é indispensável no processo de síntese de algumas enzimas. “Os açúcares e as proteínas são absorvidos em maior ou menor grau, dependendo do zinco, e ele ainda exerce uma ação benéfica na hipófise”, acrescenta. De acordo com ela, a carência de zinco está intimamente relacionada com atraso do crescimento, falhas de memória, cansaço e perda de peso. “Mesmo sendo benéfico, é preciso ter cuidado, pois o excesso do mineral pode causar debilidade no sistema imunológico e dos níveis do bom colesterol”, alerta. Segundo ela, o abacate, o abacaxi, a ameixa e a banana são ricos no mineral.

Na escola
A professora do ensino fundamental Renata Ávila explica que os problemas causados pela desnutrição são claramente percebidos nas escolas. Ela, que já lecionou em colégios particulares e agora dá aula em uma instituição pública, diz ter presenciado situações deploráveis nos dois lugares; contudo, naqueles com renda mais baixa, a ocorrência é, evidentemente, maior. “Tenho alunos que não conseguem se concentrar, prestar atenção nas aulas, sem contar as reclamações de dores de cabeça e de estômago”, conta. Atualmente, na turma ministrada por ela, Renata conta que um aluno, em particular, a preocupa. “Ele vai para a aula em estado crítico. A higiene é precária e o aproveitamento dele é péssimo”, diz.

Segundo a professora, responsável por uma das turmas do 3º ano da escola, a maior parte dos alunos é repetente. Renata ressalta que essa situação deve-se, entre outros fatores, à falta de alimentação adequada, uma vez que boa parte das crianças ficam ansiosas e perguntam sempre pela hora da merenda. “O lanche escolar é, para muitos, a única refeição do dia”, diz. Citando ainda o aluno de 9 anos, Renata conta que ele vem de uma família muito pobre e sofre com problemas sérios de aprendizado. “Ele não consegue aproveitar quase nada. Ele pede, repetidamente, para eu ajudá-lo com as lições, porém, mesmo assim, não consegue absorver os ensinamentos. Isso é triste”, lamenta.

Desigualdade
A última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008-2009), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 55.970 domicílios de todo o país, mostrou que nos últimos anos, a ocorrência de desnutrição caiu. De acordo com o POF, uma a cada três crianças, entre 5 e 9 anos, está acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que varia de acordo com a idade e altura.

Comparando-se dados do Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef) de 1974/75, do POF 2002/03 e da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989, o deficit caiu de 29,3% para 7,2% entre meninos, e de 26,7% para 6,3% nas meninas. Destaque para a área rural da Região Norte, que apresentou redução de desnutrição de 16% entre os meninos e de 13,5% entre as meninas. No entanto, o problema de crescimento é maior em famílias com renda mais baixa. Foi ressaltado na pesquisa o excesso de peso e a obesidade em crianças a partir dos 5 anos, independentemente da classe socioeconômica.

Entrevista Marcelo Saad

O que é dor anterior no joelho e o que causa?
Dor Anterior no Joelho (DAJ), também conhecida por Síndrome da Dor Femoropatelar ou Disfunção Femoropatelar, é uma dor de difusa localizada no joelho, causada por alterações biomecânicas ou estruturais no membro inferior (que incluem alterações de alinhamento no membro inferior, fraqueza muscular, desequilíbrios musculares, encurtamentos, etc...). Diversos fatores podem estar envolvidos/relacionados à DAJ, porém a literatura científica mundial ainda é muito controversa quanto as causas da DAJ. É uma “desordem musculo-esquelética” em que muitos fatores podem estar envolvidos, e ela (DAJ) tem seus sintomas exacerbados em atividades que levam a flexão do joelho e consequentemente aumento o estress na articulação femoropatelar, atividades como caminhar, correr, agachar, subir e descer escadas, ou seja, praticamente todas as atividades do dia-a-dia, e muitas vezes estes indivíduos deixam/evitam fazer a atividade por causa da dor. Ela atinge adultos jovens fisicamente ativos, principalmente mulheres, e chega até 25% dos diagnósticos dos pacientes com problemas de joelho em clínicas ortopédicas de reabilitação.

Como foi a pesquisa?
Bom minha pesquisa foi realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), especificamente no Laboratório de Análise da Postura e do Movimento Humano (LAPOMH), sob orientação da Profa. Dra. Débora Bevilaqua Grossi. E, no meu trabalho específico de mestrado, avaliamos as atividades específicas de subir e descer escadas, que são 2 das mais dolorosas atividades para este tipo de paciente e que também são atividades utilizadas nos processos de reabilitação destes pacientes. Utilizamos para a pesquisa uma escada simples de 3 degraus, onde no primeiro degrau estava localizada uma plataforma de força, que é um equipamento que avalia a estabilidade/equilíbrio do indivíduo ao subir ou descer o degrau e que também nos fornece dados sobre o quanto o indivíduo está descarregando peso sobre o membro inferior que está sobre ele, nos dando idéia então do “controle postural/equilíbrio” e da sobrecarga no membro inferior do indivíduo durante as atividades. Utilizamos também um equipamento de eletromiografia de superfície (EMG), que são pequenos eletrodos colocados sobre grupos musculares específicos e que nos fornecem informações sobre a atividade/ativação muscular dos músculos que nos interessam, no nosso caso, os músculos estabilizadores da patela e do quadril.

Qual a conclusão?
Os resultados da pesquisa nos mostraram que indivíduos com DAJ, quando comparados à indivíduos normais, apresentam maior oscilação na realização das atividades, descarregam o peso com menor intensidade na perna, até mesmo como forma de evitar / exacerbar o quadro de dor, e também apresentam uma menor atividade da musculatura estabilizadora da patela/joelho, ou seja, a musculatura é menos ativa nestes indivíduos.

Como é feita a reabilitação atualmente?
A reabilitação destes indivíduos inclui alívio de dor, exercícios de fortalecimento muscular, inclusive de músculos estabilizadores do quadril, alongamentos e treinos funcionais (onde se incluem as atividades se subir e descer escadas).

De uma forma prática, qual é a sua sugestão para uma nova reabilitação?
Atualmente quando se faz o treinamento funcional específico de subir ou descer escadas não se especificava a melhor maneira de realizá-los, assim, os resultados de nosso estudo mostraram que existem diferenças específicas nestas duas atividades quanto ao nível da ativação muscular, controle postural/equilíbrio e sobrecarga no membro inferior. Logo, objetivamos durante o treino funcional específico de subir e descer escadas, iniciarmos pela atividade se subida que é uma atividade que é menos dolorosa para estes pacientes, apresenta maior oscilação durante sua realização, ou seja, é mais instável e envolve uma maior ativação da musculatura. Assim seu treinamento poderia trazer benefícios de estabilidade e fortalecimento/controle muscular até o avanço no tratamento, para então começarmos atividades de descida, que é a atividade menos tolerada por pacientes com DAJ, envolve uma menor ativação da musculatura para este tipo de paciente, exige mais do complexo articular do joelho e leva o paciente a descarregar mais peso no membro acometido. Concomitante à isto, é de fundamental importância fortalecer a musculatura estabilizadora da cintura pélvica, pois sabemos que a fraqueza dessa musculatura pode resultar em quadros dolorosos no joelho como a DAJ.
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