Especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce da demência

Pacientes que não sabem que têm a doença correm risco duas vezes maior de protagonizar atividades impróprias, como dirigir e cuidar das próprias finanças, indica estudo norte-americano

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postado em 03/06/2016 09:12

Valdo Virgo/CB/DA Press
A senha da conta insiste em escapar da cabeça sempre em frente ao caixa eletrônico, o remédio das 8h ainda está na cartela à meia-noite e a rua que dá acesso à casa, vira e mexe, some do itinerário. São coisas da velhice, justifica o senso comum. Nem sempre. Especialistas alertam que esses “probleminhas” podem se tratar, na verdade, de sinais da demência, que tem o Alzheimer como principal doença. Por isso, essa tendência de amenizá-los, além de atrasar o tratamento, pode deixar o paciente em perigo. Um estudo da Escola de Medicina da Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, mostra que pessoas com demência ainda não diagnosticada correm risco quase duas vezes maior de se envolver em atividades impróprias, como cozinhar e gerenciar as próprias finanças.

“Essa é uma questão importante e, talvez, parte da razão de a demência ser subdiagnosticada. No envelhecimento normal, a perda de memória, apesar de frustrante, não deve afetar a vida de uma pessoa de forma significativa. Na demência, ela torna-se perceptível para outras pessoas e afeta atividades, como ser capaz de dirigir e gerenciar os medicamentos”, analisa Halima Amjad, pesquisadora da Divisão de Medicina Geriátrica e Gerontologia da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e líder do estudo, detalhado na edição deste mês do Journal of the American Geriatrics Society.

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Amjad e equipe acompanharam 7.609 pessoas inscritas no National Health and Aging Trends Study, um estudo da universidade norte-americana iniciado em 2011 baseado em informações de beneficiários do sistema de saúde com mais de 65 anos. Os participantes foram divididos pelos cientistas em quatro grupos: com demência diagnosticada; com provável demência, mas não descoberta (apresentaram um desempenho abaixo do limiar em testes cognitivos e/ou entrevistas); como tendo possível demência; ou sem demência.

Todos os voluntários participaram de testes cognitivos regulares e responderam a questionários sobre atividades e condições de vida que são potencialmente perigosas em caso de demência. As entrevistas também abordaram se necessidades básicas desses idosos estavam sendo atendidas, como a frequência e a qualidade da alimentação e do banho, e o uso de roupas limpas. Os resultados mostraram que aqueles com demência não identificada eram significativamente mais propensos a tomar parte em atividades perigosas, se comparados aos com o problema formalmente descoberto. Por exemplo, 28% das pessoas com a doença não identificada dirigiam, contra 17% dos já pacientes formais.

Da mesma forma, 12% das pessoas com a demência descoberta lidavam com as próprias finanças, contra 29% dos participantes que ainda não haviam recebido o aval médico. Com relação ao preparo de refeições quentes, os números encontrados foram de 17% e 42%, respectivamente. Em se tratando da gestão dos próprios medicamentos, as estatísticas foram 22% e 50%. “Essa questão do diagnóstico tardio acontece também no Brasil. Até médicos dizem que a perda da memória e outras condutas do tipo são ‘coisa da idade’. A pessoa volta para casa achando que está tudo bem e só se percebe o problema quando ele piorou muito. Aí, já foram perdidos dois, três, cinco anos”, diz Elizabeth Piovezan, diretora-presidente do Instituto Alzheimer Brasil.

Diálogo franco
Amjad também acredita que há uma necessidade de um maior diálogo entre profissionais de saúde, paciente e familiares. Segundo ela, há casos em que o médico descobre a doença, inicia o uso de medicamentos, mas não comunica claramente aos demais envolvidos as razões do tratamento prescrito. “De um lado, os profissionais podem sentir negação ou minimização dos problemas por parte das famílias e evitar um diálogo franco. Mas, por outro lado, podem não se sentir confortáveis fazendo um diagnóstico firme da demência. Trata-se de um diagnóstico clínico, ou seja, usamos a história e as pistas de teste para chegar à conclusão. Não há nenhum exame para nos dizer claramente, como um de sangue ou de imagem”, complementa.

Piovezan ressalta que a questão do tempo é essencial em se tratando do enfrentamento ao Alzheimer e a outras demências. Usados depois que esse tipo de doença está mais avançado, os medicamentos disponíveis não fazem tanto efeito na amenização dos sintomas, diz a especialista em gerontologia. Além disso, quanto antes for detectada a doença, mais prazo os familiares têm para planejar as mudanças na rotina. “O ideal é que o próprio paciente participe dessas decisões. Afinal, trata-se do futuro dele”, defende. “É um caso em que não se pode aprender com os erros. Se o diagnóstico for tardio, as pessoas vão sendo atropeladas pelas necessidades e pelas urgências.”

Estudos sugerem que cerca da metade das pessoas com demência não teve a complicação diagnosticada. A estimativa é de que o problema acometa de 6% a 8% das pessoas com mais de 65 anos. Conforme o Manual Merck de Informação Médica, a incidência vai aumentando com o passar do tempo. O Alzheimer e complicações do tipo estão presente em 30% das pessoas com mais de 85 anos. No caso dos centenários, a estimativa sobe para 50%. A demência caracteriza-se pela diminuição lenta e progressiva da função mental, afetando a memória, o juízo, o pensamento e a capacidade para aprender.
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