Diretor-geral do Impa recebe um dos maiores prêmios científicos da França

Prestes a receber uma das maiores láureas científicas da França, o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) vê na honraria mais uma evidência do reconhecimento internacional que a ciência produzida no país tem merecido

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postado em 08/06/2016 06:00 / atualizado em 08/06/2016 08:02

Leonardo Pessanha/Impa


A matemática brasileira atingiu, nos últimos anos, um reconhecimento internacional inédito. Depois de Artur Ávila ganhar a Medalha Fields, maior prêmio internacional dessa área do conhecimento, em agosto de 2014, outro especialista do país é agraciado com uma importante honraria. Hoje, Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), receberá, durante cerimônia em Paris, o Grande Prêmio Científico Louis D., principal láurea científica da França, oferecida pelo Institut de France, que congrega cinco academias do país.

Na página oficial do instituto, Viana é apresentado como alguém que “sempre foi um ótimo professor de matemática, o que indica que ele sempre amou essa disciplina”. Em entrevista ao Correio, o carioca confirma a paixão. “Eu sempre gostei de matemática. Tive a sorte de ter bons professores e de ser uma daquelas crianças cujo gosto pela matemática, que acredito estar presente na grande maioria das crianças, foi preservado e cultivado na escola”, diz o criador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e crítico da forma como a disciplina é ensinada no país.

Ao longo da carreira, ele se dedicou a um tipo de estudo que, num primeiro momento, pode provocar caretas e franzir testas: teoria geométrica dos sistemas dinâmicos, que envolve equações diferenciais, probabilidade e outras fórmulas da geometria. O que o leitor provavelmente não imagina é o alcance da aplicação desses conhecimentos, especialmente numa época em que a ciência brasileira recebe cada vez menos recursos para se desenvolver. Viana explica: “Foi usando ideias de sistemas dinâmicos que a Nasa (agência espacial dos Estados Unidos) conseguiu enviar uma sonda para estudar o cometa Halley, no início dos anos 1980, apesar de graves cortes no seu orçamento.”

Foi o trabalho de aperfeiçoamento das fórmulas de sistemas dinâmicos que levou o brasileiro ao reconhecimento pela instituição francesa. A honraria será dividida com o parceiro François Labourie, da Universidade de Nice, na França. Juntos, os pesquisadores receberão 450 mil euros, valor que equivale quase à metade do prêmio Nobel. Parte desse valor, que corresponde a R$ 800 mil, será utilizado para financiar o intercâmbio entre estudantes brasileiros e franceses, com prioridade para jovens pesquisadores.

Na perspectiva de Viana, os cientistas brasileiros têm sido mais reconhecidos no cenário internacional, tendo ganhado prêmios importantes. Na área da matemática, uma prova dessa reputação foi a conquista do direito de sediar o Congresso Internacional de Matemáticos, que é organizado a cada quatro anos desde o final do século 19 e acontecerá, pela primeira vez, em um país do Hemisfério sul. O encontro, previsto para reunir mais de 5 mil matemáticos no Rio de Janeiro, está marcado para 2018. “O fato de que ganhamos a competição para organizá-lo diz muito sobre a reputação da matemática brasileira no exterior, e o sucesso da organização contribuirá para aumentar ainda mais essa reputação”, ressalta.

O que o senhor destacaria como sendo mais importante napesquisa que lhe rendeu o Grande Prêmio Louis D.?


A pesquisa na área de sistemas dinâmicos é o estudo matemático dos fenômenos naturais e artificiais que evoluem com o tempo, buscando entender como evoluem, prever essa evolução e, na medida do possível, controlá-la. Há inúmeras aplicações práticas, embora essa não seja nossa principal motivação. Creio que o aspecto mais importante do nosso trabalho tem a ver com a criação de ferramentas teóricas que podem ser usadas em tais aplicações práticas.

Como o senhor explicaria para um leigo a importância do seu estudo?


Suponha que você vai enviar um foguete espacial e tem orçamento limitado para comprar o caríssimo combustível. Você vai querer calcular muito bem a melhor trajetória, aquela que consome menos energia, para que o lançamento caiba no seu bolso. Suponha que você vai fazer uma obra que inviabiliza algumas ruas da cidade. Você vai querer estudar os efeitos dessa obra e determinar que alternativas de fluxo de trânsito podem ser criadas, antes de provocar engarrafamentos permanentes. Suponha que você vai intervir num ambiente ecológico em que há diversas espécies animais e vegetais em interação. Você vai querer avaliar o impacto de sua intervenção, antes de que ela aconteça, para não correr o risco de provocar uma catástrofe ambiental. Tudo isso pode ser feito usando as ideias de sistemas dinâmicos: você analisa o sistema em questão, escreve as respectivas equações, resolve essas equações (muitas vezes com uso de computadores) e, dessa forma, tem uma ideia de como esses sistemas evoluirão, dependendo do tipo de intervenção. Por exemplo, foi usando ideias de sistemas dinâmicos que a Nasa conseguiu enviar uma sonda para estudar o cometa Halley, no início dos anos 1980, apesar de graves cortes no seu orçamento.

Há outros exemplos de aplicação que estão no dia a dia das pessoas?


Por exemplo, na previsão do tempo. A maior parte das pessoas não tem noção de como a previsão do tempo melhorou nas últimas décadas. Quando eu era criança, era comum brincarmos que, se a previsão do tempo diz que vai fazer sol, é melhor sair com guarda-chuva. Isso já não é mais assim; as previsões atuais são muito boas. O que aconteceu nesse meio tempo? Enormes avanços na área de sistemas dinâmicos, que nos fizeram entender como sistemas meteorológicos evoluem. Também houve avanços tecnológicos, com melhor coleta de dados e computadores mais potentes, mas não tenho dúvida de que os avanços na teoria foram ainda mais espetaculares e determinantes.

Qual foi sua principal inspiração para o estudo da matemática?
Por que decidiu aprofundar o conhecimento sobre sistemas  dinâmicos?


Eu sempre gostei de matemática. Tive a sorte de ter bons professores e de ser uma daquelas crianças cujo gosto pela matemática, que acredito estar presente na grande maioria das crianças, foi preservado e cultivado na escola. A opção por fazer pesquisa em sistemas dinâmicos veio no fim da graduação e foi confirmada quando decidi fazer o doutorado no Impa, instituição que sempre foi muito forte nessa área.

O senhor é um crítico do modelo de ensino da matemática no Brasil. Quais são suas perspectivas de mudança desse quadro? O que faria os estudantes serem mais abertos à aprendizagem da disciplina?

 

O problema da educação e, em particular, do ensino de matemática é o maior problema do Brasil, o mais importante. A educação é o caminho para a cidadania, para o sucesso pessoal e profissional, para o desenvolvimento nacional. E a matemática é particularmente importante e, ao mesmo tempo, particularmente negligenciada no nosso país. A saída dessa situação implica numa tomada de consciência e uma real opção estratégica por priorizar a educação, como foi feito, com enorme sucesso, em países como Noruega, Cingapura e Coreia do Sul, entre outros. O caso do Brasil é particularmente complicado devido à dimensão continental. Considero a definição de uma Base Nacional Comum Curricular um primeiro passo muito positivo. Mas há muito a fazer. A formação do professor é um aspecto absolutamente crítico, e a situação brasileira nesse aspecto é muito ruim. Paralelamente, outro aspecto crítico é a valorização da carreira do professor. O caminho para tornar a aprendizagem da matemática atraente para os alunos passa pelo professor. E não é razoável esperar bom desempenho dos professores num sistema que não incentiva, não premia e efetivamente desencoraja o bom desempenho. Finalmente, nosso modelo atual de textos didáticos chegou claramente ao limite.

A fusão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o Ministério das Comunicações atrapalha a prática científica no Brasil? De que forma?


Trata-se de duas áreas importantes de atuação do governo federal, mas que, efetivamente, têm muito pouco em comum, com culturas e práticas radicalmente distintas. Nesse sentido, a fusão é artificial e não contribui para nenhuma das duas áreas. Em pouco mais de 30 anos de existência, o MCTI teve um papel maior no desenvolvimento nacional. Não é à toa que, nesse período, o Brasil entrou no clube das seis maiores economias mundiais, sendo um dos 15 países com maior produção científica e, no campo da matemática, tendo sido alçado ao Grupo IV da União Matemática Internacional. O ministério, seus institutos de pesquisa e suas agências, com destaque para o CNPq e a Finep, tiveram muito a ver com esses sucessos. Em poucas palavras, esse é um time que está ganhando: não deve ser mexido.

 

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