Via Láctea está invisível para dois terços dos brasileiros

O uso excessivo de luzes artificiais muito dispersivas impede a maioria da população mundial de contemplar as estrelas

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postado em 11/06/2016 08:00

Dan Duriscoe/Divulgação


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muitas vezes desperto e abro as janelas, pálido de espanto.” Um dos versos mais famosos de Olavo Bilac romantiza a observação do céu, um costume praticado mundialmente e desde tempos antigos, mas que tem se tornado cada vez mais difícil devido ao excesso de luz artificial, especialmente a do tipo que, além de iluminar casas e ruas, dissipa-se para cima, atrapalhando a visão do céu noturno.

Em um estudo publicado na edição desta semana da revista especializada Science Advances, um grupo de astrônomos italianos mediu esse brilho luminescente. O trabalho concluiu que mais de 80% da população global vive sob poluição luminosa, sendo que um terço da humanidade já não consegue mais admirar a Via Láctea durante a noite. O Brasil está no grupo dos países mais prejudicados, com apenas 1% da população vivendo sob um firmamento “cristalino”.

Os autores, na verdade, deram continuidade a um estudo realizado por outros cientistas italianos, mas resolveram tornar a pesquisa mais ampla. O objetivo inicial era fazer um atlas periodicamente, iniciando em 2001, mas algumas dificuldades técnicas apareceram, especialmente falta de dados. O obstáculo foi removido com a ajuda de novas tecnologias, como Suomi NPP, um satélite de alta resolução.

“Nossos principais avanços foram obtidos por esse recurso, além de uma técnica de computação que analisou a propagação da luz na atmosfera e fez medições do brilho terrestre em todo o mundo, principalmente na Europa e nos EUA”, conta ao Correio Fabio Falchi, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Poluição Light (ISTIL) da Itália.


"Temos várias medidas que podem ser tomadas, como lâmpadas que iluminam a rua e não o céu, e outras que não dispersam a luz. Seu uso ajuda a manter o ambiente iluminado, o que é necessário para a sociedade, mas não bloqueia o céu”

Helio Jaques Rocha, astrônomo e diretor do Observatório do Valongo, na UFRJ


Os dados impressionaram os investigadores. Segundo eles, 99% dos EUA e da Europa vivem sob um céu poluído. O país mais prejudicado pelas luzes artificiais, contudo, é Cingapura, onde os moradores nunca viram a noite “verdadeira”, já que o céu é encoberto pelo crepúsculo artificial. “Essa população vive sob um céu tão brilhante artificialmente que o olho pode não se adaptar totalmente ao escuro de uma visão noturna”, destacou o autor.

Outras nações em que grande parte da população também sofrem com um alto nível de poluição luminosa são: Kuwait (98%), Qatar (97%), Emirados Árabes Unidos (93%), Arábia Saudita (83%), Coreia do Sul (66%), Israel (61%), Argentina (58%), Líbia (53%) e Trinidad e Tobago (50%). “Todos esses países têm mais de metade dos seus habitantes vivendo sob céus extremamente brilhantes”, detalha Falchi.

Brasil

Sobre o Brasil, o especialista ressalta: “É uma das populações mais afetadas pela poluição luminosa, com apenas 1% morando sob condições de céu cristalinas, dois terços incapazes de ver a Via Láctea a partir de onde moram e um terço exposto a um brilho extremo à noite na luz do céu”.

Helio Jaques Rocha, astrônomo e diretor do Observatório do Valongo, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a poluição luminosa é um problema recorrente enfrentado pelos astrônomos durante suas observações, mas que os níveis de poluição mostrados no estudo foram maiores do que o esperado. “Eu não tinha ideia da quantidade do planeta que enfrenta esse problema. Aqui, no Rio de Janeiro, sofremos com isso, e acredito que os dados altos do Brasil sejam justificados pela grande parte da população concentrada no Sudeste, onde temos uma grande quantidade de luzes artificiais, justamente por ser mais povoada. É difícil conseguirmos um lugar em que possamos observar o céu limpo, o que prejudica nossas pesquisas”, explica o especialista que não participou do estudo.

A poluição, afirma Rocha, também pode provocar mais problemas além da dificuldade de observação do céu. “Existem consequências para a biologia. Sabemos que vários organismos funcionam por meio do ciclo de luz e escuridão, e desequilíbrios nele podem provocar prejuízos. Há, por exemplo, o caso de animais que caçam durante a noite e podem sofrer alterações em sua rotina”, aponta.

Os autores do trabalho acreditam que os dados mostrados na pesquisa podem auxiliar investigadores de diversas áreas de pesquisa. “Esse é um problema com consequências negativas em vários campos, incluindo os da saúde humana e da cultura. Um dos objetivos do atlas é ajudar os pesquisadores em todas as áreas. Além disso, esperamos que esse atlas possa ajudar a aumentar a consciência do problema para o povo e para os políticos, a fim de agir”, frisou Falchi.

 

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