Obesidade na juventude ameaça mais o fígado, aponta estudo

O excesso de peso no fim da adolescência aumenta em 64% o risco de complicações hepáticas na meia-idade, indica estudo de instituto sueco feito com 44.248 voluntários. Segundo especialistas, os estragos provocados são equivalentes aos do excesso de álcool

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postado em 17/06/2016 06:05

Após investigar quase 45 mil indivíduos ao longo de duas décadas, pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, concluíram que o sobrepeso no fim da adolescência é um fator de risco significativo para o diagnóstico de doenças graves no fígado na meia-idade. Os resultados, publicados hoje no Journal of Hepatology, mostram que o excesso de peso na juventude funciona como um marcador para o desenvolvimento de doenças hepáticas que progridem silenciosamente no decorrer dos anos e podem se tornar potencialmente fatais.

Em adultos, a obesidade é associada ao risco aumentado de morte e hospitalizações causadas por complicações no fígado, sobretudo doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) e câncer. Pacientes muito acima do peso também têm pior prognóstico de esteatose hepática, hepatites B e C e doença hepática alcoólica. Para entender melhor essa relação, Hannes Hagström, principal autor do estudo, investigou registros de 44.248 suecos recrutados para o serviço militar no fim da adolescência, entre 1969 e 1970.

Desses, quase 3 mil (6,6%) estavam acima do peso, com índice de massa corporal (IMC) superior a 25. A obesidade — determinada pelo IMC acima de 30 — afetava 352 (0,8%) dos militares. Após quase 20 anos, 393 homens foram diagnosticados com doença hepática grave, dos quais 352 eram obesos. Segundo os cientistas, o sobrepeso e a obesidade aumentaram em 64% o risco para doenças no fígado, ou seja, cada kg/m² a mais no IMC representava 5% a mais de chances de surgimento de DHGNA e cirrose.

“É possível que esse risco aumentado seja causado por uma exposição mais longa ao excesso de peso, em comparação com o excesso de peso ou a obesidade adquiridos mais tarde na vida. Essa suposição pode ter implicações no tratamento de pacientes com DHGNA”, cogita o autor. Suposição considerada credível por Cristiane Moulin, endocrinologista especializada em obesidade pela Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, muitos estudos apontam que a obesidade na adolescência é um fator predisponente para a persistência do problema na vida adulta. “O que esse estudo mostra é que o que fazemos na infância e na adolescência tem um impacto importante na vida adulta. Por isso, políticas de combate ao excesso de peso devem ser efetivadas”, diz Moulin, que é membro da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade (Abeso).

Pior para os homens

Raymundo Paraná, coordenador do Núcleo de Hepatologia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que a doença hepática causada pelo excesso de peso é parecida com a provocada pelo álcool, inclusive com relação ao longo tempo de instalação. “É importante mostrar que não precisa ser obeso, basta ter sobrepeso”, alerta o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). Homens, explica o médico, parecem ser especialmente suscetíveis ao mal por possuírem um padrão de obesidade concentrado no abdômen.

“A gordura central causa perturbações metabólicas e inflamatórias, atraindo os macrófagos que produzem fatores químicos como respostas a infecções e inflamações. Esse processo é continuado e gera danos ao organismo”, detalha Paraná. Além disso, a gordura central gera resistência à insulina, fazendo com que o indivíduo produza a substância em maior quantidade. O hormônio, no entanto, tem dificuldade para agir. “A insulina é a chave e a célula, a fechadura. Essa combinação permite que a glicose entre. Acontece que, em pessoas com resistência, a insulina é uma chave truncada. Não funciona”, diz o especialista.

Como resposta, o corpo produz mais insulina, o que gera um círculo vicioso: mais depósitos de gordura no pescoço e no abdômen, que produz mais o hormônio. “Além disso, essa gordura secreta toxinas pró-inflamatórias que enviam ácidos graxos livres ao fígado, mas muito acima da capacidade que ele aguenta processar. Então, por não conseguir exportar esse excesso, ele guarda”, diz Paraná.

Esse reservatório, completa o médico, é o que gera a esteatose hepática, o acúmulo de gordura nas células do fígado, uma complicação assintomática que acomete quase todo indivíduo acima do peso e 100% dos obesos. “Nem todos adoecem: até 15% dos obesos ficam doentes e, por enquanto, não existem marcadores específicos para avaliar quem têm risco. Por isso, o melhor é alertar todos que têm problemas com o peso, e desde jovens. Esse estudo é interessante por isso”, avalia Paraná. A endocrinologista Cristiane Moulin completa que, se repetida hoje, a pesquisa sueca poderia oferecer resultados piores. “Ao contrário de 1970, os jovens de agora são mais sedentários e se alimentam pior, e isso também deve ser levado em consideração”.

 

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