Jardins são usados na arquitetura como soluções sustentáveis em construções

Cortinas verdes, estruturas tomadas por plantas ao redor de edifícios, são cada vez mais usadas na arquitetura para tornar as construções sustentáveis

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postado em 29/06/2016 06:00 / atualizado em 29/06/2016 07:06

Arquivo Pessoal

 

“Sem compreender as necessidades de uma cidade e, principalmente, sem compreender as funções das áreas verdes, o paisagista não poderá realizar jardins”, disse Burle Marx, paisagista que deixou sua marca em diversas cidades do mundo, incluindo Brasília. A frase do mestre ganha novo sentindo em um mundo que necessita, cada vez mais, de soluções sustentáveis. Assim, os jardins deixam de ocupar apenas as praças, os canteiros entre avenidas ou a frente dos prédios, para, literalmente, invadir as construções.

O primeiro movimento nesse sentido foram os telhados verdes, uma forma de tornar o topo dos edifícios um ambiente natural, com diversas espécies vegetais. Agora, as plantas começam, literalmente, a subir pelas paredes dos prédios. As chamadas cortinas verdes são uma solução arquitetônica que, além de oferecer um visual agradável, controla a incidência solar e diminui o uso de um dos maiores vilões das edificações sustentáveis: o ar-condicionado.

Segundo especialistas do assunto, qualquer edificação pode receber uma cortina verde, desde que haja um bom planejamento. “Ela pode ser aplicada diretamente sobre a construção, como nas casas antigas, em que as plantas crescem grudadas na parede. Porém, eu prefiro que a construção receba suportes que ficam paralelos às paredes, como forma de guiar o crescimento da planta. Essa técnica previne danos na construção e permite uma manutenção mais fácil”, afirma Minéia Scherer, que pesquisou o tema durante doutorado na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Marta Romero, professora à frente do Laboratório de Sustentabilidade Aplicado à Arquitetura e ao Urbanismo da Universidade de Brasília (LaSUS), aponta outra vantagem de quando as cortinas verdes crescem em estruturas separadas da edificação: “Um suporte que não está grudado na construção, mas está paralelo a ele, permite a criação de um bolsão de ar entre o edifício e a vegetação. Este espaço funciona como um isolamento térmico”.

Ainda pouco usadas no Brasil, as cortinas verdes começam a surgir em projetos ao redor do mundo. Um dos prédios mais icônicos que utiliza a solução sustentável é o da Escola das Artes de Cingapura, criação do escritório WHOA que promove a integração da estrutura do edifício, formado por três blocos, com vastas colunas de verde que garantem sombra permanente nas salas e corredores. Além de arejar, dizem os autores do projeto, as plantas ajudam a abafar o barulho do tráfego de automóveis.

Cuidados


Na avaliação de Marta Romero, as cortinas verdes são uma solução inteligente para diminuir o impacto da luz solar sobre as construções atuais que casa muito bem com as necessidades brasileiras. “Vivemos um momento em que prédios de escritório possuem uma grande superfície de vidros espelhados. Esse tipo de construção não condiz com o clima quente do país. Os jardins verticais são uma boa proposta para sanar o problema da alta incidência solar sobre os vidros espelhados que intensificam o calor”, analisa.

Scherer também acredita que esses jardins são uma promissora tendência, que pode perfeitamente ser implementada no Brasil, mas ressalta que sua aplicação pede uma série de cuidados. “A implantação das cortinas verdes ou de outro sistema de jardim vertical requer estudos específicos para cada caso. O ideal é que isso aconteça na fase de projeto do edifício, uma vez que, para uma adaptação posterior, as limitações podem ser grandes e prejudicar o sucesso da proposta”, diz.

Segundo a pesquisadora, é necessário prever espaços suficientes para o plantio e para as espécies se desenvolverem de forma satisfatória. Em grandes floreiras, por exemplo, deve-se considerar o peso extra para a estrutura, a correta impermeabilização e a drenagem para o excesso de água. “Também é preciso pensar no tipo de suporte que servirá de apoio e em um sistema de irrigação satisfatório, dependendo de cada condição de clima.”

Outro cuidado diz respeito à escolha das plantas. “As espécies de vegetação que comporão a cortina verde são um item de grande importância, uma vez que uma decisão errada pode prejudicar a estética e a eficiência do sistema. Isso depende principalmente das condições de clima e da situação de aplicação, se será a pleno sol, meia sombra ou sombra total durante o dia. Esses fatores vão determinar as opções mais adequadas”, explica.

Para o Brasil

Em sua tese de doutorado, Scherer se dedicou também a pesquisar espécies de plantas existentes no Brasil que podem ser incorporadas em projetos arquitetônicos desse tipo. “Minha pesquisa foi composta de três etapas: um apanhado teórico sobre o tema, um acompanhamento de um experimento de campo com algumas espécies nativas e, por fim, a realização de simulações computacionais para a verificação da eficiência energética, ou seja, o modo como elas conseguem ‘resfriar as construções”, conta.

Como o trabalho foi desenvolvido no Rio Grande do Sul, a especialista utilizou como base quatro tipos de vegetação trepadeira de clima subtropical: a glicínia, a trombeta-chinesa, a jasmim-leite e a madressilva-creme. “A glicínia foi a que teve melhor desempenho para o Sul do Brasil, de clima subtropical. Dessa forma, pode-se concluir que as trepadeiras apropriadas dependerão de cada região”, observa.

Com uma pesquisa parecida, o biólogo e estudante de arquitetura da UnB Pedro Dias buscou no cerrado espécies de trepadeiras que podem compor cortinas verdes em Brasília. “Minha primeira formação foi em biologia e, agora, estou terminando o curso de arquitetura, área na qual sempre me interessei pelos sistemas sustentáveis, que buscam o conforto térmico e a otimização dos recursos naturais, em especial as paredes verdes. Atualmente, a maioria das paredes verdes que a gente encontra é feita com vegetação exótica, de fora do país. Não existe preocupação por usar espécies do nosso cerrado”, aponta Dias.

 

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