Habilidade de macacos-pregos em caça é repassada por gerações há 600 anos

Primatas que vivem no Piauí utilizam pedras e varetas para quebrar nozes e caçar pequenos animais há pelo menos seis séculos, mostra estudo feito por brasileiros e britânicos

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postado em 12/07/2016 06:00 / atualizado em 12/07/2016 08:07

Tiago Falótico/Divulgação

 
Por definição, a arqueologia é uma ciência que investiga o passado a partir de vestígios culturais humanos. Agora, um grupo de pesquisadores brasileiros e ingleses utilizou esse conceito para reconstituir um hábito de primatas não humanos: os macacos-pregos. Para tentar descobrir há quanto tempo esses animais utilizam ferramentas de pedra, eles fizeram escavações no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) e dataram o material encontrado. Os cientistas constataram que, surpreendentemente, a população da espécie nessa localidade do Nordeste lança mão de pedras e varetas há pelo menos 600 anos. Até agora, a evidência mais antiga, da Tailândia, datava de apenas 50 anos.

“Isso significa que essa população de macaco-prego mantém esse comportamento há pelo menos 100 gerações. É uma tradição do grupo”, explica um dos autores do trabalho, o primatólogo do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Tiago Falótico, que estuda o uso de ferramentas nesses animais há uma década. De acordo com ele, a habilidade, bastante complexa, não é inata, mas transmitida socialmente, e tem origem no tipo de hábitat em que o animal vive e nas pressões ambientais. Curiosamente, os macacos da Serra da Capivara são os únicos do planeta a utilizarem, além de pedras, varetas. Eles fabricam a ferramenta para desentocar lagartos e retirar mel. “Esses macacos-pregos têm o kit de ferramentas mais diverso do mundo”, conta.

Organizados, os animais depositam as pedras com as quais quebram nozes na base ou nos galhos dos cajueiros, depois de usá-los. A pesquisa também mostrou que eles não utilizam qualquer pedra, mas escolhem as mais indicadas para o trabalho que pretendem realizar. Se querem fabricar um martelo, optam pelo quartzito, rocha composta principalmente de quartzo. Já quando vão produzir uma bigorna, preferem o arenito.

No total, os pesquisadores escavaram 69 pedras a uma profundidade de 0,7m em um local perto dos cajueiros onde os macacos-pregos costumam usar suas ferramentas. Para distinguir as pedras utilitárias daquelas comuns, os arqueólogos guiaram-se pelo tamanho e formato dos objetos, assim como pelo desgaste na superfície, um indicativo de que foram usadas de maneira funcional.

As pressões ambientais também não mudaram a ponto de obrigá-los a desenvolver novas tecnologias. Mas o pesquisador alerta: mesmo se tratando de um parque nacional, a Serra da Capivara sofre ação depredatória humana. “Esse grupo de macacos-pregos é único. Se eles desaparecerem, não existe outro igual”, diz. Segundo Falótico, já se observa um isolamento dos macacos dessa região do Nordeste, o que coloca em risco a diversidade genética e comportamental dos macacos-pregos.

 

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