Cientistas descobrem que anticorpos causadores do lúpus conseguem frear HIV

A descoberta pode ajudar na criação de terapias preventivas

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postado em 30/07/2016 08:00

 

 

Os anticorpos têm a função de proteger o organismo humano de micro-organismos e enfermidades. Essa habilidade faz com que eles sejam usados como base na criação de vacinas. Um dos motivos para que, até hoje, uma fórmula de proteção contra o HIV não tenha sido criada é a dificuldade de encontrar um anticorpo que consiga combatê-lo. A resposta, segundo pesquisadores dos Estados Unidos, pode estar em estruturas do tipo que desencadeiam o lúpus, doença autoimune que compromete os tecidos do corpo.

Como ponto de partida, a equipe usou informações obtidas em um estudo no qual foram observadas as reações do sistema de defesa de uma pessoa infectada com HIV e que tinha lúpus. O vírus da Aids, nesse paciente, estava sob controle. Os pesquisadores suspeitaram que os anticorpos que atacaram o corpo do indivíduo e desencadearam a doença autoimune, chamados anticorpos amplamente neutralizantes, também foram os responsáveis pela contenção do vírus.

Curiosos com o achado, os estudiosos realizaram uma segunda etapa de pesquisa, cujos resultados foram divulgados na última edição da revista Science Immunology. Eles analisaram 100 pessoas infectadas pelo HIV e perceberam que, com o passar do tempo, metade criou anticorpos capazes de neutralizar o vírus; a outra metade, não. As alterações imunológicas observadas no grupo com reações imunológicas mais potentes eram semelhantes às notadas no estudo anterior.

“O grupo que mostrou controle do vírus apresentava anticorpos neutralizantes e padrões de outras células imunes que se assemelhavam àqueles presentes no paciente com a doença autoimune”, explicou, ao Correio, Barton Haynes, diretor do Instituto de Vacina Humana da Universidade Duke e um dos autores do estudo. Segundo os cientistas, os anticorpos amplamente neutralizantes conseguem driblar uma manobra usada pelo vírus da Aids para permanecer no organismo infectado. “Em essência, o HIV se esconde em locais em que o sistema imune deveria agir, mas ele fica semelhante aos nossos tecidos, criando um ambiente em que permanece protegido”, explicou Anthony Moody, também participante da pesquisa.

A descoberta da nova função desses anticorpos pode ajudar no desenvolvimento de uma vacina contra a Aids, ressalta Haynes. “Esse trabalho nos dá o início de uma compreensão dos mecanismos imunes que controlam o desenvolvimento de anticorpos amplamente neutralizantes, que é um dos principais objetivos de uma vacina bem-sucedida para o HIV, um obstáculo que tem estado presente desde que começamos esse trabalho, há 30 anos”, detalhou.

Cuidados

Para Norma Rubini, vice-presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) e professora de imunologia do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisa norte-americana traz dados importantes ao explorar um tema visitado por outros pesquisadores do HIV. “Esses anticorpos neutralizantes têm sido objeto de estudo de vários trabalhos como uma estratégia de prevenção. Sabíamos que eles podem atuar no corpo de pessoas infectadas, mas não em todas, e essa ação geralmente ocorre a longo prazo”, explicou.

A especialista, porém, defende que a estratégia de uso dos anticorpos neutralizantes seja analisada de forma cuidadosa. “Pacientes com uma grande resposta imunológica mostraram essa reação porque o vírus estava descontrolado no organismo, em grande quantidade. Uma vacina que induza essa resposta ampla do sistema imune pode fazer com que os anticorpos atinjam substâncias que não estejam relacionadas com a doença, e isso pode provocar desequilíbrio. É o que pode ocorrer em pessoas com doença autoimune que precisam ser tratadas com imunossupressores”, alertou.

Para Rubini, uma possível estratégia de defesa que poderia surgir com base na descoberta divulgada nesta semana seria a criação de uma vacina para a imunização passiva, voltada a pessoas mais suscetíveis à infecção pelo vírus da Aids. “Essa é uma estratégia em que se enquadra a vacina antitetânica, por exemplo, que é aplicada quando a pessoa se expõe ao causador da doença. Existem estudos experimentais que usam esse tipo de anticorpos como base de projetos de vacinas para o HIV”, detalhou a especialista.

 

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