Pesquisadora resgata peças artísticas dos séculos 19 e 20 em cemitérios

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postado em 02/08/2016 06:00

Anjos chorando, santos em martírio, tochas, retratos e caveiras são algumas figuras que povoam cemitérios de cidades antigas. Esculturas feitas de mármore, granito e bronze refletem a história de um passado em que túmulos eram adornados com luxo e requinte. Para contar um pouco dessa tradição no Brasil, a pesquisadora Luiza Fabiana Neitzke de Carvalho resgatou, em sua pesquisa de doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, monumentos dos cemitérios São José I e II em Porto Alegre. A intenção é fazer com que o local desperte o interesse das pessoas e seja visitado pela sua riqueza cultural.

“A arte funerária é muito importante para uma cidade porque ela é fruto do período em que os cemitérios eram um dos principais locais de exposição dos artistas. As pessoas precisam conhecer o passado do local em que vivem para melhor compreender a situação atual. Os cemitérios são importantes locais de fonte histórica para esse entendimento”, defende Luiza Carvalho. Fora do país, a visitação de cemitérios como ponto turístico é mais comum (Veja quadro). Em Paris, por exemplo, o famoso Père-Lachais guarda celebridades como Jim Morrison e Edit Piaf, além de abrigar uma vasta coleção de arte e esconder artistas que dedicaram a vida a criar esculturas e monumentos em homenagens aos mortos.

O trabalho nos cemitérios gaúchos reflete a história no fim do século 19 e início do 20, quando Porto Alegre era uma cidade de imigrantes que vinham de toda a parte da Europa. Cada gentio que chegava às terras tupiniquins carregava as próprias cultura e religião. Conforme a crença, havia um local para enterrar os mortos. Os cemitérios São José I e II surgiram para atender a comunidade de alemães católicos. Têm peças de artistas como Miguel Friederichs, João Grüne-wald e integrantes da família Weingärtner, expoente da história da arte acadêmica gaúcha.

No século 20, as lápides eram, em sua maioria, de mármore e tinham esculturas de anjos, carpideiras e santos. No início desse período, as chamadas virtudes teologais — figuras femininas que carregam objetos que simbolizam fé, esperança e justiça — ganharam destaque. Na década de 1930, materiais como granito e bronze davam forma a pietás, representação da Virgem Maria segurando o cadáver de Jesus no colo. Nessa mesma época, foi tendência a representação de pessoas fardadas ou do próprio morto. Também eram comuns esculturas que retratavam o gaúcho.

Na década de 1960, os túmulos começaram a ficar cada vez mais simples, até as mudanças chegarem às atuais placas de granito branco grafadas com o nome do falecido. Nos cemitérios, a produção artística em granito, também chamado de pedra grês, caracteriza principalmente os túmulos menores. Os artistas, porém, preferiam o mármore pela durabilidade e por ser considerado nobre, além de esteticamente bonito. Quanto melhor a qualidade — como a do mármore branco e o de Carrara —, mais caro.

Distinção social


“O túmulo servia como uma forma de distinção social, somente os mais abastados podiam se dar o luxo de mandar esculpir peças em mármore. Muitas obras eram importadas da Alemanha pela marmoraria Casa Aloys, uma empresa de imigrante germânico que ficou famosa por fornecer esculturas para todo o estado do Rio Grande do Sul”, conta a pesquisadora Luiza Carvalho. A marmoraria funcionou de 1884 a 1960.

Na década de 1990, os cemitérios passaram a ser administrados por uma empresa de crematórios, que não renovou os contratos de arrendamento das unidades tumulares. “Muitos túmulos foram esquecidos pelas famílias e estão em situação de abandono. Com a chegada do crematório, até túmulos perpétuos, mas que não estavam pagando as taxas de manutenção, foram desocupados”, lamenta a pesquisadora.

Luiza Carvalho aponta problemas na preservação dos cemitérios. Primeiro, falta a manutenção dos túmulos. “A maioria está abandonada e poucos fizeram um inventário sobre as peças de arte que estão nos jazigos”, diz. Há a questão do vandalismo e da deterioração. Muitos jazigos foram roubados devido ao valor de seus materiais. São levadas peças de mármore e bronze principalmente.” A pesquisadora conseguiu que o Ministério Público do Rio Grande do Sul bloqueasse a retirada de jazigos pelo crematório, que busca mais espaços.

 

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