Bactéria Yersinia pestis foi responsável por peste negra, diz estudo

Análise ajuda a entender como evoluem patógenos nocivos ao homem

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postado em 03/09/2016 08:00

State Collection of AnthropologyPalaeoanatomy Munich/Divulgação


Antes que a peste negra cobrisse a Europa com seu manto devastador, uma epidemia ainda mais letal enterrou dois terços da população do continente. Em todo o mundo, estima-se que 50 milhões de pessoas — 15% dos habitantes à época — foram mortas na praga de Justiniano, que conseguiu fazer o que os mais poderosos exércitos jamais lograram: abalar o Império Bizantino. Os dois eventos, separados por oito séculos, foram causados pela mesma bactéria, segundo um estudo publicado na revista Molecular Biology and Evolution, da Universidade de Oxford. Graças a esqueletos do século 6 d.C. escavados há 50 anos na Alemanha, cientistas confirmaram que o patógeno por trás dessas tragédias foi o micro-organismo Yersinia pestis.

Estudos anteriores haviam sugerido que um mesmo micro-organismo seria o responsável pelas duas epidemias, mas só agora foi possível confirmar essa teoria. Para tanto, os pesquisadores fizeram análises do material genético extraído de esqueletos escavados há meio século na cidade alemã de Munique. “Quando há DNA de um patógeno em um osso, conseguimos recuperá-lo e sequenciá-lo. Essas sequências são comparadas com outros genomas antigos, tratados com os mesmos critérios de qualidade, e com genomas modernos, para encontrarmos diferenças entre eles. Assim, quando em dois lugares diferentes o DNA do patógeno é idêntico, você pode confirmar que se trata do mesmo micro-organismo”, explica Andreas Rott, do Departamento de Antropologia e Genoma Humano da Universidade de Munique e um dos autores do trabalho.

Dessa forma, os cientistas alemães fizeram o primeiro sequenciamento de ampla cobertura da bactéria responsável pela praga de Justiniano, que recebeu esse nome por causa do imperador bizantino da época — morto, assim como milhares de seus súditos, em decorrência da infecção. Embora o material já tivesse sido avaliado anteriormente, só agora a tecnologia permitiu uma análise mais fiel do DNA. Por exemplo, na primeira vez em que o genoma foi sequenciado, foram identificadas 19 mutações, agora corrigidas. Por sua vez, na atual investigação, os cientistas detectaram 30 variantes genéticas na cepa da Yersinia pestis. Três delas estão localizadas em genes críticos para determinar a virulência da praga. De acordo com os pesquisadores, a quantidade de mutações indica que a cepa é muito mais diversa do que imaginado anteriormente.

“Nossa pesquisa confirma que a praga de Justiniano alcançou regiões muito mais distantes do que o documentado pela história”, disse, em nota, Michael Feldman, coautor do estudo, referindo-se ao local onde os esqueletos foram escavados. “Ela também fornece novas ideias sobre a história evolutiva da Yersinia pestis, ilustrando o potencial de reconstruções de antigos genomas para ampliar nossa compreensão sobre a evolução dos patógenos e os eventos históricos. Nossa reanálise de bancos de dados anteriores destacam a importância de seguirmos critérios estritos para evitar erros na reconstrução do genoma de patógenos antigos”, afirmou.

Seleção natural

Segundo Andreas Rott, é importante estudar antigas doenças patógenas para compreender melhor as mudanças evolutivas, a adaptação e o impacto da peste na saúde humana. “Estudá-las nos ajuda a entender a história e a biologia da doença, à medida que isso nos permite ver as alterações e estratégias adaptativas pelas quais a bactéria passou no curso da história. Esses materiais oferecem a oportunidade de investigar a evolução dessa bactéria em uma escala bastante precisa, caso encontremos mais amostras de diferentes períodos”, diz.

Embora a peste tenha dizimado dois terços da população mundial, Rott afirma que ainda não se sabe se ela, de certa forma, promoveu uma seleção natural na humanidade. “É difícil dizer até que ponto uma epidemia pode ser comparada a um evento evolutivo como a seleção natural porque, em primeiro lugar, ela é muito rápida para permitir adaptações e, em segundo, não sabemos ainda quais fatores ou adaptações são responsáveis pela sobrevivência humana a uma doença”, afirma. De acordo com o cientista,  provavelmente, essa questão será alvo de estudos futuros da equipe, que pretende investigar não só a evolução do patógeno, como a do hospedeiro — no caso, o homem.

 

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