Cientistas desenvolvem pomada para feridas de difícil cicatrização

Produto desenvolvido na Universidade Federal de Viçosa tem efeito mais rápido que o de substâncias tradicionais e, por ser natural, apresenta baixo risco de alergia. Pacientes com psoríase, diabetes e queimaduras estão entre os beneficiados

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postado em 03/09/2016 08:05


Belo Horizonte — Depois de 17 anos de pesquisa, cientistas da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, concluíram o desenvolvimento de um remédio para feridas de difícil cicatrização, como as provocadas por psoríase, queimaduras, escaras e dermatites. Pacientes com diabetes também estão entre os beneficiados, pois a ação da pomada pode evitar complicações nas feridas dos pés que levam a amputações. Um composto obtido do urucum é o responsável pelos efeitos positivos. “O passo mais curto para se chegar a uma inovação dentro da universidade é aproveitar o conhecimento popular”,  diz o professor titular do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV Paulo César Stringheta, que, com Aloísio José dos Reis, descobriram o potencial curativo dessa substância natural.

Essa história começou em 1999, quando Aloísio, ao manipular o urucum com as mãos machucadas, percebeu o efeito cicatrizante do produto. Ele, então, procurou o professor universitário para relatar o acontecido. Paulo, que trabalhava há muito tempo com extrato da planta, ficou instigado com a história e ambos se debruçaram nas sementes para obter o extrato bioativo natural. No início dessa trajetória, a dupla deparou-se com outro indício de que estava no caminho certo. Aloísio era dono de uma oficina mecânica e um de seus funcionários se queimou em um escapamento de veículo. Eles usaram o extrato de urucum para tratar o ferimento e verificaram que, além de cessar a dor, a substância agilizou a cicatrização.

Os primeiros testes em animais, em 2004, foram realizados com o extrato puro de urucum, e os resultados, comparados com os das duas pomadas de cicatrização mais utilizadas. “Para nossa surpresa, constatamos, por meio de vários exames de bioquímica e também o exame visual, que a cicatrização era igual ou mais rápida que as dos fármacos. Foi aí que acendeu a luzinha de que estávamos diante de um produto com eficácia”, conta Stringheta.

Além disso, segundo o pesquisador, testes específicos mostraram que não houve alteração na bioquímica do sangue dos animais. Essa constatação era importante para descartar o risco de alergia, mesmo o urucum sendo o corante natural mais utilizado pela indústria alimentícia.  Stringheta explica que o extrato de urucum é extraído à base de álcool, que, na sequência, é todo evaporado; ou seja, não é utilizado solvente orgânico nesse processo.

Ele e Aloísio deram início aos testes com humanos. “Isso foi no fim de 2005, início de 2006, e os resultados eram tão impressionantes que as pessoas começaram a nos procurar solicitando a pomada”, relembra. Uma das beneficiadas foi Dalva Maria Martins, 50 anos, que mora em Viçosa. Em 2010, a aposentada foi submetida a uma cirurgia para tirar calos dos pés, mas só depois do procedimento, em razão de a ferida não cicatrizar, descobriu que tinha diabetes.

“Nessa época e nos dois anos seguintes, eu não tinha condições de andar por causa das feridas. Passei pela cirurgia sem o médico me pedir nenhum exame. Quando fiz o hemograma, veio o diagnóstico de diabetes. Emagreci 30 quilos ao descobrir que era diabética e não tinha cuidado da minha saúde”, conta Dalva. Nesse período, ela usou “pomada cara, pomada barata, antibiótico” e passou por vários médicos. Até que teve contato com Stringheta e recebeu a pomada de urucum. “Em dois meses, eu estava andando. Cicatrizaram todos os meus dedos. Minha situação estava tão crítica que o prognóstico era de que eu amputaria meus pés. Hoje, não tenho nada,  minhas unhas estão nascendo e posso ir à pedicure”, comemora.

Preocupação mundial


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 400 milhões de diabéticos no planeta. Desses, 16 milhões estão no Brasil, que registra 55 mil casos de amputação anualmente em pacientes com lesões causadas pela doença metabólica. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), as amputações atingem cerca de 50% dos pacientes que são internados devido a ulcerações. Stringheta conta que conheceu pessoas que não podiam sair de casa e que, graças à pomada à base de urucum, essa realidade foi transformada.

“Eram feridas difíceis até de olhar. Pensar que um ativo natural conseguiria atacar uma lesão que torna a vida difícil é uma recompensa enorme. São pessoas que me ligam para contar que, depois de dois anos em casa, estão indo à missa. Como pesquisador, é uma satisfação ver o produto desenvolvido na bancada de uma farmácia. A ciência vale a pena, a gente sempre chega a algum lugar”, garante.

O produto foi patenteado em 2006. Como a pomada à base de urucum não é classificada como fármaco, ou seja, não tem dosagem preestabelecida, não precisa de receituário médico. O produto foi registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como dermocosmético e não tem contraindicação. Outro grande diferencial é a origem natural — diferentemente das pomadas indicadas para cicatrização disponíveis no mercado, a de urucum não contém corticoide. A expectativa é de que a pomada chegue às farmácias de todo o Brasil até o fim do ano.

 

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