Kosterlitz fala sobre exercício "divertido" que rendeu Nobel de Física

Trio derruba a tese de que existem apenas os estados líquido, sólido e gasoso. Segundo eles, os átomos se comportam de forma inesperada em condições extremas. O trabalho laureado poderá trazer avanços em áreas como a computação quântica

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postado em 05/10/2016 08:06

Finland OUT / AFP / Lehtikuva / Roni Rekomaa

“Estou tendo dificuldades para lidar com isso. No momento em que recebi a notícia, estava num estacionamento subterrâneo, aqui em Helsinque, onde cumpro o período sabático. Mas a notícia é maravilhosa!” O escocês John Michael Kosterlitz, 74 anos, almoçava quando atendeu à ligação do Correio Braziliense, às 13h45 de ontem (7h45 em Brasília). Durante 12 minutos, o professor da Universidade de Brown, em Providence, nos Estados Unidos, e, agora, Nobel de Física falou sobre a honraria mais cobiçada do mundo científico, admitiu o alto nível de incerteza de seus estudos, ofereceu conselhos aos jovens que se enveredam pelas pesquisas e mostrou um humor aguçado ao revelar como vê o futuro. Kosterlitz dedica o período sabático a lecionar como professor visitante na Universidade Aalto, em Espoo, a 16km de Helsinque. Jonathan Kosterlitz, filho de John, foi quem informou à reportagem o telefone do pai na Finlândia. Estava em êxtase. “Eu estou tão orgulhoso por meu pai. Eu não tinha nem ideia de que o nome dele era considerado pelo Comitê Nobel. Ele merece muito”, disse, antes de conseguir falar com o pai.


Além de Kosterlitz, os escoceses David J. Thouless, 82 anos, e o inglês Frederick Duncan Michael Haldane, 65, utilizaram métodos de matemática avançada para estudar e descobrir fases ou estados incomuns da matéria, como supercondutores, superfluidos e películas magnéticas finas. Mais de quatro décadas depois do início das pesquisas, a Academia Real das Ciências da Suécia decidiu agraciar o trio com o Nobel de Física. Graças ao trabalho pioneiro, há uma caça por novas e exóticas fases da matéria. O trio implodiu a crença de que matéria somente existiria nos estados líquido, sólido e gasoso. Quando ela é submetida a condições extremas, como a temperaturas muito baixas (a 273 graus centígrados abaixo de zero) ou a ambientes planos e bidimensionais, os físicos detectaram que os átomos passaram a se comportar de modo estranho.

O senhor sonhava em receber o Nobel de Física? Qual é o significado pessoal dessa honraria?
Eu sonhava com isso, mas tudo parecia, por assim dizer, irrealista. Por ter sido um sonho, estou tendo dificuldades em lidar com a notícia. O Nobel representa o reconhecimento químico do trabalho no qual eu estive envolvido. Bem, é algo bem surpreendente.

Quais foram os principais obstáculos enfrentados pelo senhor durante a pesquisa?
A coisa difícil é que nós não fizemos absolutamente nada. O meu primeiro problema foi me convencer do que o meu laboratório tinha feito. Eu apenas fiquei surpreso por tudo ter funcionado. É óbvio que, algumas vezes, a abordagem de um ponto de vista com fortes evidências foi uma vantagem, pois era algo que fugia da sabedoria convencional (risos). Eu comecei a pesquisa em 1972 e, dois anos depois, ela foi publicada.

O senhor poderia explicar as suas descobertas e o potencial que representam para transformar o dia a dia das pessoas?
Eu não vejo como os meus estudos podem se converter em aplicações de tecnologia. Vamos colocar dessa forma: na mecânica estatística, qualquer coisa que possa ocorrer vai ocorrer. Era uma questão de tempo compreender que alguma coisa ocorreria. Partir de nossa forte perseverança foi ago útil. Pelo menos, eu não estava na posição de dizer “Eu não tenho ideias preconcebidas” porque eu não sabia de nada.

Como, então, foi possível provar que o senhor estava no rumo certo?
É claro que fiz as aferições com cálculos matemáticos. Todas as nossas ideias fizeram sentido. Então, pareceu um modo possível de se fazer as coisas. É tudo. Eu não tinha ideia do que poderia ser feito ou não ser feito. Como eu não sabia o que não poderia ser feito, eu tinha algo em meu benefício.

Eu gostaria de insistir na pergunta sobre como o seu estudo tende a ser usado no futuro...
Eu não conheço nenhum aparato tecnológico no qual o meu estudo possa ser usado. Talvez possa ser usado, talvez não. Mas, de qualquer forma, ajuda a explicar algumas coisas que ocorrem na vida das pessoas.
Muitos jovens cientistas sonham em alcançar o topo. Que conselhos daria a eles?
Eu hesitaria em dar qualquer conselho porque fazer um trabalho importante é uma questão de como você olha para ele. Você não sabe que o estudo será importante até que você o desenvolva. Eu estou muito satisfeito pelo fato de meu trabalho ter se tornado importante, ainda que não tenha aplicações. Quando nós fizemos as pesquisas, elas pareciam apenas um exercício divertido. Não pareciam algo particularmente importante. Eu diria aos seus leitores que, mesmo que vocês sintam que não entendem nada, isso não é muito ruim porque, algumas vezes, é útil ser ignorante quando você testa um novo problema.

Quais os seus planos agora que ganhou o Nobel?
Meus planos? Meus planos no momento são terminar o almoço. Eu estou no período sabático em Helsinque. Então, meus planos são retornar ao escritório e, depois, talvez, sair à noite e ficar bêbado.

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