"Encontrei a minha direção", diz Sir James Fraser ao ganhar Nobel

O cientista admitiu à reportagem que tinha abandonado a ideia de ser laureado com o Nobel

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postado em 06/10/2016 07:34

Scott Olson/AFP

Às 7h25 de ontem, 40 minutos após a Academia Real das Ciências da Suécia anunciar os ganhadores do Nobel de Química, o escocês Sir James Fraser Stoddart, 74 anos, atendeu à ligação do Correio Braziliense em sua casa, na cidade de Evanston, a 30km de Chicago. O cientista que passou a infância em uma fazenda na Escócia e ocupava o tempo fazendo quebra-cabeças (ao reconhecer formas e analisar como elas poderiam se unir) admitiu à reportagem que tinha abandonado a ideia de ser laureado com o Nobel. Durante 10 minutos, Stoddart — dono de um título de Cavaleiro Celibatário britânico conferido pela rainha Elizabeth II em 2006 — falou sobre os desafios e as potencialidades de sua pesquisa. O cientista, que desenvolveu o rotaxano, embrião do motor molecular, disse que se moveu pelos conselhos que um professor lhe dera assim que terminou o primeiro grau: “O que quer que você comece, encontre um grande problema”. “Encontrei a minha direção”, comemorou.

O senhor esperava ser agraciado com o Nobel de Química?
Eu recebi a notícia apenas cerca de uma hora atrás, por meio de um telefonema de Estocolmo. Eu me dei conta do que era graças ao fato de que o interlocutor falava um inglês com sotaque sueco. Aconteceu! Se eu achava que isso fosse ocorrer? Houve muita especulação durante muitos anos. Até o ponto em que imaginei que isso nunca ocorreria. Então, eu me esqueci disso. Eu nunca senti que isso ocorreria. Eu estou contentíssimo.

Quando o senhor começou as pesquisas e quais foram os maiores desafios?
Eu comecei as pesquisas há 50 anos. Vim para essa área apenas na década de 1980. O principal desafio foi descobrir como manter unidas peças das moléculas. Nós descobrimos como encaixar e manter as peças coesas por meio das chamadas interações doadores-receptores. Fomos capazes de criar moléculas mecanicamente enganchadas, os catenanos. Pouco depois, e muito rapidamente, desenvolvemos o rotaxano, um componente molecular entreligado com um ou mais anéis moleculares. Isso nos levou a fabricar dispositivos e sistemas de eletrônica molecular.

O senhor poderia explicar o que é o rotaxano e falar sobre a revolução produzida pelas máquinas moleculares?
É mais um reconhecimento de uma nova ligação em química. As ligações químicas foram descritas pela primeira vez na década de 1930. A descoberta de que essas ligações podiam interagir foi agraciada pelo Comitê Nobel em 1987, com o reconhecimento do trabalho de Donald Cram, Jean-Marie Lehn e Charles Pedersen. Depois disso, todos os químicos se articularam para fazer novas ligações, uma espécie de envolvimento físico entre as partes componentes das moléculas. Então, nos anos 1990, foi possível multiplicar duas, três, quatro, cinco vezes essas ligações.

Mas como essas máquinas moleculares podem tornar melhor a vida das pessoas?
Elas podem ser aplicadas no contexto de materiais que podem ser usados em dispositivos de memória e em sistemas de entrega (em nanomedicina). Você pode usar nanopartículas para armazenar drogas em máquinas moleculares, onde esses medicamentos podem ser congelados, encapsulados, direcionados até locais específicos e liberados. Essa é uma ciência fundamental bastante prematura e haverá grandes revoluções ao longo das próximas décadas.

Muitos jovens sonham com um Nobel. Que conselhos o senhor daria aos estudantes?
O que quer que façam, gostem do que fazem. Procurem fazê-lo muito bem. Quando eu concluía o primeiro grau, o meu professor me disse algo: “O que quer que você comece, encontre um grande problema”. Eu não tinha ideia sobre o que ele estava falando. Aquilo martelava em meus ouvidos: “Encontre um grande problema”. E então eu encontrei a minha direção.

Quais são os seus projetos agora que é um laureado?
Eu apenas quero continuar a fazer pesquisa com jovens entre 18 e 28 anos. É uma experiência maravilhosa, diariamente, trabalhar com pessoas de forma ativa, como fazia 45 anos atrás. Eu trabalho em meu laboratório com pesquisadores de diferentes partes do mundo. A mensagem que eu gostaria de deixar é que a ciência é uma busca global. Minha equipe tem, provavelmente, 40 diferentes nacionalidades. Nós somos um time.
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