Além de não cumprirem função, antibactericidas podem causar doenças

Estudos com animais e células humanas mostram que esses produtos podem não matar bactérias e causar alterações hormonais que levam a obesidade, cânceres e outras doenças

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postado em 09/10/2016 06:00 / atualizado em 09/10/2016 01:01

Anunciados como superprotetores da pele humana, os sabonetes antibacterianos estão na mira dos órgãos regulatórios. Se, nas propagandas, eles prometem 99,9% de eficácia contra micróbios, pesquisas indicam que, na verdade, podem representar um risco à saúde. No mês passado, o Food and Drugs Administration (FDA), dos EUA, proibiu a venda de sabões líquidos e em barra que contêm as substâncias triclosan e triclocarban. Agora, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda a necessidade de revisar, no Brasil, a regulamentação de produtos que têm esses agentes químicos na composição.

A decisão do FDA, que incluiu outras 17 substâncias encontradas em diversos antissépticos, foi justificada, em primeiro lugar, pela falta de comprovação de que eles são mais eficazes que o sabão comum (Leia mais nesta página). Contudo, o órgão também citou 70 estudos e consensos de associações médicas que sugerem ou evidenciam a ação maléfica dos agentes químicos em animais e células humanas, afirmando que, por ora, os riscos se sobrepõem aos benefícios.

Boa parte desses trabalhos se foca no triclosan, originalmente desenvolvido para profissionais de saúde em hospitais e em salas de cirurgia desinfetarem as mãos. Em número menor, mas também expressivo, artigos indicam que o triclocarban tem potencial igualmente maléfico. Esses compostos fazem parte de um grupo conhecido como disruptores endócrinos — substâncias que, em contato com o organismo, alteram a produção e o funcionamento dos hormônios. O alarme sobre esse tipo de agente químico soou há relativamente pouco tempo, e a maior parte dos estudos começou a ser produzida no fim dos anos de 1990.

 

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O curto tempo de pesquisas, porém, foi suficiente para comprovar os prejuízos à saúde de alguns deles, que chegaram a ser proibidos em diversos países. É o caso do bisfenol A, banido do Brasil em 2012. Esse composto é utilizado na produção de plásticos e está presente em mamadeiras, garrafas plásticas, CDs/DVDs e eletrodomésticos, entre outros. As evidências de que afetam a glândula tireoide se somaram às suspeitas de que ele pode alterar o desenvolvimento fetal e favorecer o surgimento de diversos tipos de cânceres, convencendo agências regulatórias a abolir o composto.

Fortes evidências
No caso dos sabonetes com antibióticos, a literatura científica é extensa: em animais e em estudos in vitro, houve evidências de alteração da regulação hormonal, com implicações sobre fertilidade, obesidade, hipotireoidismo, aumento/diminuição de produção da testosterona, câncer de ovário, mama e fígado, além de piora da asma alérgica, entre outros. Na edição de julho/agosto da revista Environmental International, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco (EUA) fizeram uma revisão de 81 trabalhos que investigaram a ação tóxica do triclosan sobre o desenvolvimento fetal e o trato reprodutivo, concluindo que há provas suficientes de que a substância é prejudicial a animais. Por outro lado, as evidências sobre os malefícios a humanos ainda são “inadequadas”, significando, de acordo com a equipe, que o composto é “possivelmente tóxico”.

A endocrinologista Cristiane Moulin, membro e titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), reforça que, por enquanto, as constatações de que o triclosan é um disruptor endócrino perigoso se referem a animais e células humanas cultivadas in vitro. “Ainda não temos estudos comprovando que vão causar efeitos em humanos. Para isso, são necessárias mais pesquisas”, diz. Contudo, ela recomenda que se tente minimizar a exposição a esses produtos. “A grande preocupação é que os disruptores, como um todo, possam ser a causa do aumento das doenças crônicas não transmissíveis, como o câncer”, destaca. “Para algumas faixas da população, eles podem ser ainda mais perigosos, como as crianças e as grávidas. Um estudo feito com jacarés, por exemplo, mostrou que filhotes das fêmeas expostas a esse tipo de substância desenvolveram, mais tarde, câncer vaginal”, conta.

Banimento
O endocrinologista Flavio Cadegiani, especialista pela Sbem e membro da Endocrine Society, acredita que, embora as principais evidências estejam associadas a animais, elas são suficientes para recomendar o banimento dos sabonetes antibacterianos compostos por triclosan e triclocarban. “Não se sabe se os sabonetes matam realmente 99,9% das bactérias, mas descobrimos que, ao menos nossos hormônios, eles matam muito bem”, diz. O médico, que fez uma análise de publicações recentes sobre a associação desses agentes com problemas endócrinos, encontrou trabalhos que, inclusive, sugerem uma ligação com obesidade. “O triclosan está quase 70% mais presente e concentrado em obesos do que em pessoas magras”, afirma, lembrando que essas substâncias não são produzidas naturalmente pelo organismo.

 

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