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Sem conseguir absorver carbono, florestas produzem menos madeira e biomassa

Estudo que contou com a participação de brasileiros comprova também mostram que preservação traz retorno financeiro

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postado em 14/10/2016 13:21

Paloma Oliveto

Projeto IFFSC/Divulgação

O desflorestamento tem um custo muito mais alto para o planeta do que o imaginado. Um novo levantamento global, elaborado por pesquisadores do mundo todo, incluindo o Brasil, mostra que, a cada 10% de espécies de árvores perdidas, há uma perda de 2% a 3% na produtividade da floresta — a taxa de biomassa gerada pelo ecossistema. A associação já havia sido sugerida teoricamente, mas agora, pela primeira vez, ela é comprovada por meio de um trabalho minucioso, que contou com a participação de 90 instituições. No total, os cientistas analisaram inventários de mais de 700 mil parcelas permanentes (áreas florestais demarcadas e periodicamente remedidas), de 44 países, referentes aos últimos 20 anos. Entraram no estudo mais de 30 milhões de árvores de 8.737 espécies.

“O grupo descobriu um efeito positivo e globalmente consistente que a diversidade de espécies arbóreas nas florestas exerce sobre a sua produtividade”, explica Alexander Christian Vibrans, um dos autores do artigo e professor da Faculdade Regional de Blumenau. Esse achado vale para qualquer região e ecossistema do mundo. Quanto maior o número de espécies florestais, maior a produtividade em madeira, em biomassa e na fixação do carbono no solo. “Por outro lado, foi comprovada a regra de que a perda de biodiversidade, causada por desmatamento, por degradação ou pelas mudanças climáticas, resulta em uma diminuição significativa da produtividade florestal”, completa Vibrans, também coordenador da equipe do Inventário Florístico-Florestal de Santa Catarina (IFFSC).

A consequência disso é dramática para o planeta como um todo. “Não é só uma questão filosófica, de preservação da natureza”, diz o pesquisador de Blumenau. “Uma floresta produtiva sequestra o dióxido de carbono da atmosfera e o estoca no solo”, lembra o engenheiro florestal Daniel Piotto, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e também coautor do artigo, publicado na revista especializada Science.

Esse processo tem uma importância fundamental na regulação do clima: quanto mais CO2 circulando livremente, maior o rombo no buraco de ozônio e, consequentemente, mais quente fica o planeta. Além disso, florestas ricas em diversidade também retêm mais água de chuva e a liberam continuamente para os cursos d’água e reservatórios subterrâneos, protegem a estrutura e a fertilidade dos solos e garantem recursos para a fauna e a flora, entre outros benefícios.

Custo-benefício
Os pesquisadores também estimaram que a produtividade florestal gera cerca de US$ 490 bilhões por ano, considerando apenas os insumos comerciáveis desses ecossistemas. “Esse valor representa mais do que o dobro do custo total necessário para conservar de forma eficaz todos os ecossistemas terrestres. Isso quer dizer que os benefícios da proteção da biodiversidade são muito maiores que os custos de medidas efetivas de proteção de todas as florestas somariam, se elas fossem realmente tomadas”, explica Vibrans.

Na avaliação de Daniel Piotto, o levantamento deixa duas importantes lições para a formulação de políticas públicas: “A primeira é que o custo-benefício de investir na conservação é muito alto. A outra é sobre a importância da diversificação das espécies. O aumento de duas para quatro espécies já significa um salto muito grande na produtividade”, observa. “Nesses tempos de mudanças climáticas, diversificar vai garantir mais produtividade e maior resiliência”, ressalta.

A perda de diversidade das florestas, acrescenta Vibrans, também ameaça as pessoas que vivem no meio rural e dependem diretamente dos recursos florestais. “Perda de produtividade florestal resulta em perda de renda e bem-estar dessas populações. Portanto, é imprescindível tomarmos medidas urgentes para melhorar a proteção e o manejo das florestas”, destaca.

A equipe de Santa Catarina foi a que forneceu o maior número de dados da América do Sul. Na publicação da Science, entraram informações de 1.074 parcelas do inventário catarinense, que tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) e vem sendo construído por uma equipe multidisciplinar há 10 anos. Para o coordenador da equipe do IFFSC, a inclusão do trabalho no artigo da revista científica é o reconhecimento da qualidade dos dados. Ele também ressalta que a Faculdade Regional de Blumenau é mantida com verbas do município. “Para uma universidade do interior, esse é um feito memorável”, comemora.

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