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Estudo: na antiguidade, vítima de morte violenta era enterrada com descaso

Segundo cientistas dos EUA, o costume pode sinalizar a busca pelo poder em comunidades que começavam a se agrupar

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postado em 30/10/2016 08:00

Vilhena Soares

O ritual fúnebre é um tema muito estudado por historiadores e antropólogos, pois a prática está repleta de detalhes sobre os costumes, as crenças e o comportamento de um povo. Uma investigação recente sobre o tema mostra que enterros realizados entre 2.100 antes de Cristo e 50 depois de Cristo — início do período agrícola — eram realizados de forma distinta em caso de morte violenta. Os cientistas analisaram ossadas enterradas durante essa época em um deserto norte-americano e observaram que as peças que tinham características de brutalidade foram deixadas na terra com menos cuidado. Para os autores do trabalho, publicado na revista Current Anthropology, a prática, além de distinguir os mortos, reflete um mecanismo de dominação social.

O estudo é um desdobramento do trabalho feito por James Watson, pesquisador da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. O bioarqueólogo saiu em busca de artefatos de povos agrícolas que viveram na região do deserto de Sonora, região que engloba o sudoeste americano e o norte do México. “Ele investigou extensivamente as práticas mortuárias e seus fatores biológicos e sociais no início do período agrícola. Durante suas escavações, encontrou várias práticas funerárias atípicas”, disse ao Correio Danielle Phelps, parceira de pesquisa de Watson e antropóloga da Universidade da Califórnia.

Ao analisar o material, Watson e Phelps perceberam que as ossadas com marcas de violência, como ossos quebrados e pontas de projéteis (flechas), eram enterradas sem nenhum cuidado, diferentemente do padrão da época. Às vezes, sofriam lesões post-mortem devido ao descaso com que eram sepultadas. “Práticas mortuárias normais do início do período agrícola são geralmente representadas com o sepultamento do indivíduo falecido em uma posição flexionada, de lado, com um pigmento cobrindo o esqueleto. Os enterros atípicos mostram sinais óbvios de trauma grave e estão enterrados de ponta cabeça ou jogados em poços”, detalha Phelps.

Os cientistas acreditam que as diferenças mostram uma forma de desrespeito a mortos em decorrência da brutalidade. “Argumentamos que esses enterros atípicos representam indivíduos que foram vítimas de mortes violentas e, em seguida, sepultados pelos autores da violência. Esses enterros não foram supervisionados por familiares ou membros da comunidade, interpretamos isso como uma espécie de profanação”, conta autora.

A prática identificada está em concordância com o período histórico. “Essas foram as primeiras aldeias. Por isso, acreditamos  que a violência tenha sido fruto de conflitos causados pelo crescimento populacional, com grupos se estabelecendo e com as pessoas reivindicando território”, explica Watson. “As tensões sociais se desenvolveram entre as comunidades, ou mesmo no seio delas, e a violência acabou fervendo.”

André Strauss, pesquisador do Instituto de Antropologia Evolutiva Max-Planck, na Alemanha, faz a mesma leitura. “A interpretação que esses pesquisadores propõem pode ser considerada como clássica, ou seja, essas características de agressividade no momento da morte contribuíam para garantir a coesão do grupo, que extravasava impulsos violentos maiores no momento em que começava a se tornar agrícola”, diz o especialista, que não participou do estudo.

Status

Os autores do trabalho acreditam que a mensagem transmitida pelos enterros atípicos também carrega um mecanismo de dominação. “Ao fazer esses enterros atípicos — em que profana o morto —, a pessoa sinaliza destreza para ganhar status. Mas isso tem um custo com potencial muito significativo porque põe a vida dela em risco, já que esse ato poderia ser retaliado  pela  família da vítima”, explica Watson.

O pesquisador fala, inclusive, de uma busca de prestígio inconsciente entre os membros dessa comunidade que os tornava violentos. “O prestígio tem um potencial para conferir benefícios biológicos, no sentido de que você pode ter acesso ao poder e à riqueza, incluindo mulheres e a possibilidade de ter mais filhos”, diz.

Strauss acredita que a hipótese de dominação é plausível. No entanto, frisa que ela não pode ser considerada definitiva. “Se essa interpretação remete à realidade ou não, jamais saberemos. Claramente, existem sepultamentos típicos e atípicos. Agora, não temos como saber se essa violência beneficiava a coesão social, como interpretam os pesquisadores.”

 

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