Maioria das brasileiras ignora falta de umidificação da vagina

Estudo mostra que 88% das brasileiras conhecem pouco sobre a falta de umidificação da vagina e 40% das que enfrentam o problema o consideram natural. Impactos na vida amorosa e social também são relatados na sondagem feita com 1.007 mulheres

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postado em 07/12/2016 07:18 / atualizado em 07/12/2016 07:27

Arte/CB/DA Press

Belo Horizonte — O desconhecimento da mulher em relação a sua anatomia e como essa falta de intimidade com o próprio corpo interfere na vivência plena da sexualidade e no cuidado com a saúde é um assunto que, impulsionado pelo debate sobre igualdade de gênero, vem sendo objeto de pesquisas e se popularizando com as redes sociais. O tema foi, inclusive, abordado na série norte-americana de sucesso Orange is the new black, exibida no Brasil pela Netflix. No episódio A whole other hole (que foi traduzido no Brasil por O buraco é mais em cima), da segunda temporada, as detentas se surpreendem com a informação de que a menstruação e o xixi não saem pelo mesmo lugar e vão todas ao banheiro para constatar a existência da uretra.

A ficção se sustenta na realidade. Pesquisa feita pelo Ibope mostrou que 88% das brasileiras entrevistadas tinham algum grau de desconhecimento sobre o ressecamento vaginal: 20% não sabiam o que é e 68% conheciam pouco. Entre as que tiveram a complicação (29%), 40% disseram não ter procurado o médico por achar que era normal e, portanto, sem necessidade de tratamento, 86% afirmaram que o ginecologista nunca havia tocado no assunto de forma espontânea nas consultas de rotina e 64% buscaram informações sobre ressecamento vaginal na internet.

Presidente da Comissão de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e coordenadora do Ambulatório de Estudos em Sexualidade Humana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), Lucia Alves Silva Lara afirma que os resultados são consequência de falta de políticas públicas direcionadas para a educação sexual feminina. “No contexto da mulher adulta, a ausência de programas de educação sexual a priva do conhecimento sobre a função sexual adequada e a relega às experiências sexuais fantasiosas, baseadas em mitos e em informações leigas. É conhecido que as disfunções sexuais aumentam com o progredir da idade, sendo a redução do desejo sexual um dos principais motivos de procura por consultas com o ginecologista”, justifica a médica.

A pesquisa do Ibope mostra como o ressecamento vaginal impacta a qualidade de vida das mulheres: 76% das que tiveram o problema relataram impacto na vida amorosa, 27%,  na vida social, 24%, no trabalho, e 22%, na prática de atividade física. Entre as mesmas entrevistadas, os sintomas mais citados da complicação foram: região da vagina ressecada (69%), dor durante o sexo (69%) e ardência na região (44%). Participaram da sondagem 1.007 brasileiras com mais de 16 anos, acesso à internet, das classes A, B e C e de todas as regiões do país.

Todas as idades
Mais da metade das entrevistadas (57%) disse acreditar que qualquer mulher pode ter ressecamento vaginal. Entre as brasileiras com mais de 55 anos, no entanto, 56% consideraram que o problema atinge apenas as mulheres mais velhas. Lucia Alves explica que o ressecamento vaginal é frequente no pós-parto e pode ocorrer também em razão do uso de medicamentos. “Por exemplo, em algumas situações clínicas que cursam com a redução do hormônio feminino chamado estrogênio. Mas é muito mais comum no climatério e, em especial, na peri e pós-menopausa”, explica.

A especialista em sexualidade humana ressalta, porém, que jovens podem enfrentar o problema. “Um exemplo são as puérperas que amamentam e apresentam quatro vezes mais risco de sentir dor nas relações sexuais devido ao ressecamento da vagina. A falência ovariana prematura (menopausa precoce), a quimioterapia, a radioterapia, a redução do desejo sexual e a dificuldade de excitação durante a relação sexual também são condições que levam ao ressecamento vaginal”, diz.
 
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