Jejum intermitente: saiba mais sobre a dieta do momento

Bastante restritivo, regime alimentar está na crista da onda por ajudar a reduzir medidas em pouco tempo

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postado em 24/12/2016 08:00 / atualizado em 24/12/2016 09:50

Cristina Horta/EM/D.A Press
 
Belo Horizonte — Perder peso rápido comendo o que se gosta. Essa é a pegada da nova dieta da moda, o jejum intermitente. Apesar de o conceito não ser novo — porque as pessoas sempre jejuaram pelos mais diversos motivos —, o modelo foi testado pelo nutricionista sueco Martin Berkhan, que provou que a técnica ajuda a reduzir medidas em um curto espaço de tempo. No Brasil, o assunto tem ocupado as revistas e sites de beleza e saúde desde que a atriz Deborah Secco afirmou ter sido essa a forma que a ajudou perder peso depois do parto de Maria Flor, que completou 1 ano no início do mês. Após a revelação, a celebridade, que representa um padrão de beleza valorizado culturalmente, acabou incentivando as pessoas a testar o método, muitas vezes sem nenhum acompanhamento especializado, o que pode ser perigoso.

Com a chegada do verão, o desejo de emagrecer e o jejum intermitente em pauta, a nutricionista Carine Ribeiro da Mata, 30 anos, imaginou que seria procurada por pacientes e decidiu testar nela mesma os impactos desse tipo de restrição alimentar no corpo e no organismo. O fato é que, em um mês de dieta, Carine conseguiu reduzir em 3% seu percentual de gordura. “Apesar de não ser nova, a dieta do jejum intermitente começou a ser muito falada recentemente e queria saber como uma pessoa se sentiria ao passar muitas horas sem se alimentar”, conta.

Quando iniciou o padrão de alimentação, que alterna períodos de jejum e não jejum, o percentual de gordura de Carine estava em 26%. Um mês depois, caiu para 23% e, hoje, ela alcançou a marca dos 20%. A nutricionista, que se afirma como “falsa magra”, diz que, além de ter conseguido eliminar gordura corporal, viu um resultado muito bom no abdômen, com redução de medidas, além de se sentir mais bem disposta. Pelo relato, parece que o jejum intermitente é, de fato, uma boa alternativa para quem quer perder peso rápido.

Equilíbrio
No entanto, Carine associou a dieta com atividade física e montou um cardápio bem equilibrado, que não deixou faltar nenhum nutriente para o organismo. E é aí que reside o cerne da questão. “Eu só indicaria essa dieta a pacientes que já fizeram uma reeducação alimentar e nunca em uma primeira consulta”, revela. Isso porque passar muitas horas sem comer aumenta a vontade de ingerir carboidrato e comidas calóricas. Ela assinala lque, sem orientação e acompanhamento nutricional, a pessoa pode, em alguns casos, ganhar peso e, em outros, prejudicar o equilíbrio do organismo.        

Nutricionista do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia (Imoc), em Belo Horizonte, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica e especialista em transtornos alimentares e obesidade, Ana Paula Meireles reforça que esse tipo de dieta não é para todo mundo. “O jejum prolongado altera os níveis de hormônio do organismo e, por isso, precisa de um aporte de cuidados para não ser prejudicial à saúde. É preciso considerar o perfil metabólico, o uso de medicação e o uso de suplementos. É contraindicado para pessoas com alguns tipos de doença de base, como hipertensão, diabetes, câncer ou para quem passou pela cirurgia bariátrica”, alerta. Além disso, ficar horas sem se alimentar pode provocar sudorese, enjoo, vista turva, pernas bambas, dor de cabeça e até desmaios. “A questão da hidratação deve ser levada muito a sério nos jejuns prolongados e é muito comum as pessoas se desidratarem na prática do jejum intermitente”, diz.     

Coordenadora de nutrição clínica do Hospital do Coração (Hcor), em São Paulo, Lilian Sant’Anna concorda que o que é bom para um pode não ser para outro e reforça ainda que a ausência de nutrientes, a longo prazo, pode acarretar alterações importantes no organismo, como queda ou enfraquecimento do cabelo, constipação intestinal, osteoporose, anemia, dificuldade de concentração, ansiedade e irritação.

Conceito

Dieta queridinha do momento, a proposta do jejum intermitente consiste em ficar sem comer nada, apenas tomar água ou chás, durante longos períodos. Esse jejum pode variar entre oito, 10, 12, 16 ou mais horas. A atriz Deborah Secco chegou a ficar 23 horas sem comer nada — há quem fique mais de um dia sem ingerir alimentos. “Existem vários protocolos e períodos de jejuns. No intermitente, há o que chamamos de ‘janela de alimentação’, que é o período que a pessoa tem, ao longo de todo o dia, para fazer suas refeições. O mais comum é  esse tempo ser de oito horas (16 horas sem comer nada). Nesse intervalo, o paciente ou a paciente pode fracionar as suas refeições, que podem ser duas ou três ao dia”, explica Ana Paula Meireles.

Considerando a janela de alimentação de oito horas, o período que a pessoa teria para se alimentar é das 12h às 20h, por exemplo. O mais praticado, segundo a especialista, é jejuar entre o jantar (última refeição do dia) até o almoço (primeira refeição do dia). “É importante ressaltar que as refeições devem ser balanceadas, devendo ser, inclusive, low carb (baixa ingestão de carboidratos) para que os resultados sejam melhores, e sem esquecer a hidratação”, observa. A nutricionista diz que o tempo do jejum depende da necessidade e adaptação de cada pessoa.      

A nutricionista Carine Ribeiro da Mata não quis adotar o jejum intermitente todos os dias da semana. Ela jejuava por períodos de 14 horas. As refeições tinham pouco carboidrato e a saciedade vinha, segundo ela, de uma dieta que incluía proteínas de alta qualidade. Como associou com atividade física, fracionou mais as refeições, incluindo pequenos lanches antes da academia. “O jejum intermitente é bom ainda para desintoxicar o organismo e diminuir os níveis de glicose do organismo”, diz.


Rotina

Na primeira semana, a nutricionista jejuou apenas um dia. Na segunda semana, adotou a dieta por dois dias. E assim, foi alternando. Na terceira semana, um dia novamente; e na quarta, dois dias. “Em todos os outros dias, dieta balanceada”, explica. A nutricionista enfatiza ser possível, sim, se manter bem nutrido fazendo jejum, mesmo considerando as alterações hormonais.

Para Ana Paula Meireles, no entanto, é preciso ter um olhar crítico para as dietas da moda, considerando a conduta individual, que cada um tem a sua necessidade nutricional e carrega sua carga genética, que as características físicas são diversas e que as atividades ao longo do dia variam de pessoa para pessoa. E lembrar que não existe milagre: qualquer pessoa que quer ou precisa emagrecer tem que aumentar o gasto calórico. 
 
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