Batimento cardíaco pode estimular preconceito racial, segundo pesquisa

"Os sinais que vão do coração para o cérebro parecem ser fortes o suficiente para mudar nossas percepções", disse o autor Manos Tsakiris, da Royal Holloway University of London

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postado em 17/01/2017 18:09

Um único batimento cardíaco pode fazer com que uma pessoa tome uma decisão baseada em um preconceito racial, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira sobre a influência desse órgão no julgamento humano imediato. 

Participantes do estudo brancos e asiáticos cujos ritmos cardíacos foram monitorados foram mais propensos a perceber um homem negro desarmado como uma ameaça quando observavam sua foto durante um batimento cardíaco do que entre batimentos, disseram pesquisadores do Reino Unido. 

A descoberta pode ser útil para conceber formas de combater o alto número de assassinatos de negros desarmados por policiais nos Estados Unidos, disse a equipe. 

"Podemos usar o estudo para pensar sobre maneiras de direcionar essa comunicação coração-cérebro de modo a reduzir as tragédias causadas pelo preconceito racial", disse a coautora do estudo Sarah Garfinkel, da Brighton and Sussex Medical School. 
 

Os cientistas já sabiam que cada pulsação dispara um poderoso sinal para o cérebro. Entre batimentos, os sinais são silenciosos. 

Pesquisas anteriores também revelaram que o preconceito racial muitas vezes leva a confundir objetos inofensivos com armas nas mãos de pessoas negras, inclusive pela polícia, que como resultado pode acabar atirando. 

O que não se sabia era se o coração pode influenciar o cérebro quando se trata de perceber uma ameaça. O novo estudo, publicado na revista científica Nature Communications, conclui que sim. 

Foram mostradas para os participantes imagens de homens negros ou brancos segurando uma arma ou um objeto inofensivo, como uma carteira ou telefone celular. 

Os voluntários foram convidados a "atirar" nos indivíduos que eles acreditavam estar armados, pressionando uma tecla de computador. 

Quando a imagem era exibida durante um batimento cardíaco, os participantes foram cerca de 10% mais propensos a perceber o objeto como uma arma quando segurado por uma pessoa negra, descobriu o estudo.

Corações e mentes

"Os sinais que vão do coração para o cérebro parecem ser fortes o suficiente para mudar nossas percepções", disse o autor Manos Tsakiris, da Royal Holloway University of London. 

"Em alguns casos, eles dominam nossas percepções até o ponto em que percebemos mal as coisas que vemos na nossa frente", disse o pesquisador a jornalistas antes da publicação do estudo. 

Os cientistas advertiram que o risco de falsa percepção de uma ameaça pode ser exacerbado em uma situação tensa com um batimento cardíaco mais rápido e mais forte. 

"Todos sabemos que, em grande medida, estereótipos sociais e raciais parecem estar integrados em nossa cultura", disse Tsakiris. 

"O que estamos mostrando com este estudo em particular é que eles também ficam incorporados em nossa fisiologia", acrescentou. 

Inspirada pela natureza racial de muitos tiroteios policiais nos Estados Unidos, a equipe espera que seu trabalho possa fazer uma diferença prática. 

Uma opção teórica seria fortalecer o papel relativo da chamada parte "pensante" do cérebro, o córtex pré-frontal, para substituir e suprimir a ativação automática do medo. 

"Normalmente, em nossa cultura e civilização, nós tendemos a fazer isso através da educação - este é um dos principais objetivos da educação, fazer com que tenhamos mais consideração com os outros, para nos tornarmos menos tendenciosos em relação às pessoas", disse Tsakiris. 

Mais drasticamente, algum tipo de estimulação cerebral médica poderia ser considerada. 

Segundo Garfinkel, outros estudos mostraram que as pessoas que entendem os processos automáticos do corpo humano - como o impacto de um batimento cardíaco no medo ou no pensamento - são mais capazes de controlá-los. 

"Então, se pudermos capacitar as pessoas a serem (...) mais conscientes de seus batimentos cardíacos, então eles poderão neutralizar os efeitos negativos e as influências que esses sinais podem ter", concluiu a pesquisadora.
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