Cientistas desvendam mecanismo que faz sono gerar memória

Descoberta feita por cientistas dos EUA pode ajudar na criação de terapias contra a insônia e outros distúrbios

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postado em 03/02/2017 06:00



Um dos processos que mais intrigam neurocientistas é a formação da memória. O sono há muito tempo é atrelado a esse fenômeno, mas existem poucos indícios que comprovam a tese. Agora, em uma pesquisa publicada na última edição da revista Science, investigadores dos Estados Unidos observaram, em ratos, um mecanismo de atividade neural que pode ajudar a explicar como o cérebro guarda informações relevantes durante a noite. Os achados, segundo eles, têm potencial para ajudar na criação de medicamentos mais eficazes contra distúrbios do sono, como insônia e sonambolismo.


Durante a sinapse, as células neurais se conectam e liberam neurotransmissores, que ajudam na excitação de neurônios, responsáveis por manter o cérebro em funcionamento. Experiências anteriores mostraram que as sinapses podem sofrer baixa, quando há a redução da atividade de células que produzem os neurotransmissores. Os pesquisadores suspeitaram que esse estado de força reduzida poderia ajudar a criar as lembranças e começaram a investigá-lo.

No experimento, utilizaram a técnica de microscopia eletrônica — em que fotos de tecidos do organismo são reconstruídas em imagens tridimensionais — para analisar a atividade neural dos roedores em duas regiões responsáveis pelo aprendizado e pela memória: o hipocampo e o córtex, respectivamente. Detectaram queda de 20% no nível de proteína receptora no cérebro das cobaias enquanto dormiam, indicando enfraquecimento das sinapses, quando comparadas às  dos roedores acordados.

Para a equipe, essa diferenciação mostra como as sinapses desaceleradas podem estar ligadas à criação da memória durante o estado de repouso do corpo. “O sono é a condição em que menos respondemos a estímulos externos, e o cérebro pode alterar todas as nossas sinapses e renormalizá-las de uma maneira inteligente, abrangente e equilibrada”, explica ao Correio Chiara Cirelli, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Universidade de Wiscosin-Madison (EUA). “Acreditamos que esse processo também faz com que muitos detalhes irrelevantes sejam esquecidos e um espaço novo seja criado para que memórias novas sejam formadas nos dias seguintes”, complementa.

Para Vanessa Müller, neurologista e diretora médica da clínica VTM Neurodiagnóstico, no Rio de Janeiro, a pesquisa norte-americana traz novas informações sobre um mecanismo cerebral conhecido pelos médicos. “Ela fala da homeostase neural, que é o equilíbrio do cérebro, algo necessário para o seu funcionamento. Se a atividade excessiva das sinapses fosse constante, impediria a aquisição de novas informações, e o órgão não poderia também filtrar o que é importante, algo necessário para manter a capacidade de guardar informações durante os dias seguintes”, explica a médica, que não participou do estudo.

Agente regulador

Em um segundo estudo, parceiro, também publicado na revista Science, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins resolveram repetir o experimento com ratos para descobrir quais moléculas estariam envolvidas no desaceleramento das sinapses durante o sono. Dessa vez, deram atenção a uma proteína chamada homer 1a, que está ligada à regulação do sono, e observaram níveis 250% maiores dela enquanto as cobaias dormiam.

A aposta é que a homer 1a atua como um agente regulador, ajudando na consolidação da memória e na retomada das sinapses durante o despertar. Os cientistas destacam que uma análise ampla ainda é necessária, mas que os achados podem ajudar a entender melhor como o sono age em relação às memórias. “Nesse estudo, nós só examinamos o que se passa em duas áreas do cérebro. Há provavelmente processos igualmente importantes acontecendo em outras regiões e em todo o corpo”, ressalta, em comunicado, Richard Huganir, um dos autores.

Chiara acredita que, se conseguirem identificar mais moléculas essenciais durante o sono e como elas são regulamentadas, ela e seus colegas poderão abrir as portas para novas intervenções terapêuticas. “Podemos, eventualmente, encontrar uma maneira de realizar o trabalho do sono de forma mais eficaz e corrigir distúrbios”, cogita. Müller tem a mesma expectativa. “A partir do momento em que você conhece as moléculas que estão envolvidas nesses processos sinápticos, abre-se espaço para mais pesquisas que permitam a criação de drogas indutoras do sono ou o aperfeiçoamento dos remédios existentes”, diz.

O próximo passo dos autores é realizar experimentos mais detalhados com ratos, que mostrem o que ocorre quando eles passam longos períodos sem dormir. “Estamos também estudando cobaias jovens, dando foco ao desenvolvimento precoce e a outras regiões do cérebro, para ver se os resultados que temos detectado no córtex cerebral se aplicam em outras áreas”, adianta Cirelli.
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