Pulverização estratégica de inseticida reduz dengue em até 96%

Para os cientistas, a técnica pode ser usada contra outros males transmitidos pelo Aedes

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 18/02/2017 09:40 / atualizado em 18/02/2017 09:40

AFP / ROSLAN RAHMAN


A dengue deixou de ser uma preocupação apenas de países tropicais, como o Brasil. Há aumento de casos da doença transmitida pelo Aedes aegypti em nações diversas. Temerosos com o problema, cientistas da Austrália e dos Estados Unidos resolveram investigar se o uso mais estratégico do inseticida pode ajudar a diminuir os casos de infecção. Em um experimento conduzido na cidade australiana de Cairns, observaram que pulverizações regulares nos locais que registram ocorrências expressivas de dengue reduzem em até 96% o número de casos, levando em conta áreas sem a aplicação do veneno. Os autores do estudo, publicado na última edição da revista Science Advances, acreditam que os resultados podem ajudar também no combate a outras doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, como zika e chikungunha.

O trabalho começou bem antes do surgimento dessas novas ameaças à saúde humana. “Em minha investigação, estive interessado em quantificar o impacto de ferramentas de controle do Aedes aegypti. Em 2010, publiquei um trabalho mostrando que a aplicação de inseticidas residuais teve impacto positivo na prevenção da dengue, mas esse estudo não foi capaz de quantificar o quanto ela foi reduzida”, conta ao Correio Gonzalo Vazquez-Prokopec, um dos autores do artigo e pesquisador da Universidade de Emory, nos Estados Unidos.

Leia mais notícias em Ciência e Saúde

Na análise, que também contou com o trabalho de cientistas da Universidade James Cook, na Austrália, o grupo utilizou dados sobre 902 casos ocorridos durante um surto entre 2008 e 2009 e que se espalhou por toda a área metropolitana de Cairns. Como parte do programa de saúde local, enfermeiros pediram às pessoas infectadas que identificassem os locais onde acreditavam ter sido contaminadas. “Chamamos de hotspots as áreas que mostraram um elevado número de ocorrências da doença. Residentes de regiões próximas a Cairns, em grande maioria, foram infectados no centro da cidade e não em seus arredores”, explica o autor.

Foi aplicado inseticida em domicílios que estavam a menos de 500 metros de hotspots. À medida que a epidemia progredia, as pulverizações aumentaram e atingiram 5.428 locais ao longo de 31 semanas. Nem todos os hotspots receberam as doses regulares do produto químico, para permitir aos pesquisadores realizar comparações com as taxas de transmissão de dengue em  instalações pulverizadas e não pulverizadas. Como resultado, constataram que o lançamento regular do inseticida reduziu a probabilidade de transmissão do vírus da dengue entre 86% e 96%, em comparação a áreas não atendidas.

Helena Brígido, integrante do comitê de arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia, avalia que os resultados são interessantes, mas ressalta que, sozinha, a técnica não é suficiente para combater a dengue. “Essa prática, conhecida como fumacê, é utilizada no Brasil há muitos anos, mas não tem mostrado muita redução nos casos de dengue e no número de insetos. Nessa observação, eles realizaram uma aplicação mais ordenada, observaram os locais onde mais casos ocorreram e aplicaram quantidades maiores. Essa diminuição é algo importante, mas que não pode ser levada como medida principal. Ela deve ser usada como uma forma auxiliar de combate à dengue”, ressalta a especialista, que não participou do estudo.

A especialista acredita que o uso mais estratégico do fumacê poderia funcionar no Brasil, mas de forma adaptada. “Utilizamos esse sistema há muitos anos, mas não da forma como nesse estudo internacional. Essa técnica de pulverização sistemática poderia ser usada aqui, mas a análise teria que ser regional, já que fatores como vento, temperatura e umidade podem interferir nos resultados”, explica.

Obstáculo
Helena Brígido alerta, porém, que a pulverização não consegue exterminar o mosquito causador de tantas enfermidades, pois não atinge os ovos do mosquito, que são mais resistentes. “O combate aos criadouros é sempre prioridade porque, neles, os insetos vão se produzir e proliferar. Esses inseticidas matam apenas os insetos adultos”, explica. “Vale ressaltar também que o horário das aplicações é algo importante, apesar de não ter sido informado no estudo. Os produtos precisam ser aplicados quando os mosquitos saem pra se alimentar, no início da manhã e no fim da tarde.”

Para a infectologista,  o melhor instrumento de combate à dengue continua sendo o empoderamento da população. “É preciso que as pessoas saibam o que devem fazer para evitar o surgimento dos focos do mosquito. Assim, elas poderão aplicar as medidas em casa, no seu bairro. Por isso, as campanhas educativas são uma das medidas mais importantes. O que não quer dizer que a população substituta o Estado, de forma alguma, mas, juntos, as chances de sucesso aumentam”, frisa.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.