Pimenta nativa da Amazônia é testada para combater o Aedes aegypti

Substância é testada por cientistas brasileiros como matéria-prima de repelentes; criadores também começam a trabalhar no desenvolvimento de um inseticida

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postado em 21/02/2017 06:00

Siglia Souza/Divulgação

 

Conhecida como pimenta-de-macaco, jaborandi-do-mato e aperta-ruão, a Piper aduncum, nativa da região amazônica, é mais uma promessa de combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da zika, da chikungunha e da dengue. A planta da família das pimentas tem alta quantidade de dilapiol, com poder inseticida, entre outras propriedades. Cientistas da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) procuram maneiras de aumentar a fixação dessa substância no corpo e em fórmulas. Dessa forma, segundo eles, ela poderá servir de matéria-prima para produtos que afastem ou matem o inseto.

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O dilapiol é pesquisado por diversos cientistas pelas suas propriedades fungicida e bactericida. Ele está presente em plantas da espécie piperáceas, alvo da pesquisa de Ana Cristina da Silva Pinto durante o mestrado feito, entre 2002 e 2008, no Inpa. Em um de seus experimentos, a investigadora isolou princípios ativos da Piper aduncum e modificou suas moléculas, as transformando em derivados semissintéticos. A alteração  permite a adição de novas características a elementos naturais, como a maximização dos efeitos.

O experimento resultou em 15 substâncias, que foram testadas em larvas e insetos adultos do Aedes aegypti e em larvas do transmissor da malária, o Anopheles darlingi. Ambos os insetos foram combatidos com as fórmulas, mas a atividade repelente no transmissor da dengue surtiu resultados melhores. Após a etapa de testes com os animais, Ana Cristina da Silva Pinto  selecionou cinco compostos, que considerou os mais promissores, e os usou como base para a criação de um repelente.

“Já temos vários protótipos prontos e testados em laboratório. Nos testes, conseguimos provar o seu valor de afastar o mosquito. Agora, queremos aumentar o poder de duração para saber se o repelente consegue durar pelo menos 30 dias sem evaporar. Como o princípio ativo é muito volátil, os efeitos podem ser perdidos com alterações no ambiente, como o aumento de temperatura, que facilita a evaporação”, explica a cientista ao Correio.

Segundo ela, metade das etapas para a produção do repelente foi realizada, mas o aumento da ação do produto, que tem sido buscado por meio da nanotecnologia, é essencial para que ele possa ser usado. “Ainda é um estudo de prateleira, precisamos saber se terá potencial para ser comercializado, o que seria muito interessante porque teríamos uma opção de proteção feita com uma matéria-prima que existe na região brasileira. Seria mais uma alternativa de prevenção a um mosquito que transmite várias doenças” ressalta.

A pesquisadora, porém, reconhece que um longo caminho até a comercialização do produto ainda precisa ser trilhado. “Precisamos repetir alguns dos testes em laboratórios credenciados pela Anvisa. Para finalizar como produto e levá-lo ao mercado, demorará de cinco a 10 anos. Será preciso recurso financeiro para dar continuidade às pesquisas”, diz. O próximo passo dos cientistas é criar um spray para ambiente.

Durabilidade

Segundo Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, de Brasília, a pesquisa é interessante e segue uma tendência de uso de plantas naturais na área farmacológica, mas ele ressalta que a durabilidade buscada pelos cientistas é um ponto primordial para que o repelente se torne realidade. “O grande problema desses testes feitos in vitro é que, na maioria das vezes, eles mostram efeito contra o mosquito, mas ao serem usados em sua forma natural, têm uma atividade fraca, durando por uma hora ou menos. A pessoa passaria o repelente e teria que repor diversas vezes, o que não é viável. Caso esse efeito seja prolongado, poderíamos ter essa nova proteção”, diz o especialista, que não participou do estudo.

Chebabo também acrescenta que um produto que impeça exclusivamente o contato do mosquito causador de tantas doenças, como o Aedes aegypti, é muito bem-vindo. “Temos a espécie que causa a febre amarela, outra que causa a leishmaniose e também o pernilongo comum, mas cada uma com as suas características. Nesse caso, teríamos uma opção específica para a proteção de um inseto que causa diversos problemas de saúde, como zika e dengue”, explica.

Quanto a um novo inseticida, o especialista acredita que essa opção de proteção se adequa a cenários mais específicos. “O uso desses produtos tem sido buscado quando temos grandes surtos ou em situações como na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, em que uma prevenção maior é necessária. Há que se tomar cuidado porque o exagero também pode causar resistência ao inseticida no mosquito, fazendo com que ele perca o valor”, alerta. A criação do inseticida com base no óleo da planta amazônica também foi iniciado por Ana Cristina da Silva Pinto e seus colegas, mas segue em ritmo mais lento.

Diversidade tropical


É uma família de plantas que engloba diversos tipos de pimentas, predominantemente tropicais. No Brasil, existem aproximadamente 500 espécies dentro desse grupo, muitas delas usadas na área medicinal como a caapeba ou a papariparoba (Piper umbellata), indicada para combater problemas urinários; e plantas condimentares, como a pimenta-do-reino (Piper nigrum). São encontradas geralmente em florestas brasileiras, concentradas em arbustos ou árvores.

Efeito estendido


Por meio da tecnologia que permite manipular substâncias em uma escala minúscula, em tamanhos similares ao dos átomos, os pesquisadores criaram cápsulas nanoestruturadas para fazer com que o tempo de permanência da repelência durasse mais de duas horas. O óleo em seu estado natural dura apenas 15 minutos. O avanço é animador, mas ainda baixo para os parâmetros de mercado.

 

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