Estudo revela benefícios da reposição de testosterona no combate a doenças'

Pesquisadores norte-americanos esmiuçam os efeitos da reposição de testosterona e, nas avaliações inciais, constatam que a terapia corrige a anemia e aumenta a densidade óssea dos homens. A principal novidade é a redução de risco cardiovascular dos pacientes

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postado em 22/02/2017 06:00 / atualizado em 22/02/2017 08:17

Valdo Virgo/CB/DA Press
A partir dos 30 anos, o principal hormônio sexual masculino, a testosterona, começa a declinar. É um processo natural e gradativo e, diferentemente da menopausa, afeta muito pouco a fertilidade. Contudo, em alguns casos, os níveis podem cair excessivamente, o que costuma ocorrer na meia idade. As consequências da chamada deficiência androgênica incluem disfunção erétil, redução da energia, depressão, perda de desejo sexual, ondas de calor e irritabilidade, entre outros (veja quadro). Quando esses sintomas passam a afetar a qualidade de vida, os médicos recomendam a terapia de reposição de testosterona. Até agora, porém, havia dúvidas sobre o risco que esse tratamento poderia representar ao coração.
 
 

A terapia hormonal para homens melhora a fadiga, a força muscular e o humor. O problema é que alguns estudos sugeriam uma associação entre a reposição e a incidência maior de doenças cardiovasculares. Além disso, há especialistas que defendem que a substância pode favorecer o surgimento de câncer de próstata e de mama. Por causa dessas controvérsias, pesquisadores americanos conduziram uma série de testes para verificar os benefícios e malefícios em potencial da reposição da testosterona à base de gel.

Os resultados, publicados na revista da Associação Médica Americana (Jama), mostram que, comparado a placebo, a substância corrige anemia e aumenta a densidade óssea. Por outro lado, não houve melhora — nem piora — na memória e em outras funções cognitivas. Já para o coração, embora um dos estudos tenha encontrado elevação da quantidade de placas não calcificadas nas artérias, outro, feito com número maior de participantes, detectou redução de risco cardiovascular.

Calcificações

O endocrinologista Peter J. Snyder, da Universidade da Pensilvânia, coordenou os trabalhos de quatro dos cinco artigos divulgados, e contou com uma equipe de pesquisadores de nove instituições norte-americanas. Um desses estudos teve como foco a saúde coronariana. Foram incluídos 170 homens, sendo que, desses, 50,7% tinham calcificações severas no início do estudo. Ao fim de 12 meses e comparado ao grupo do placebo, os que receberam testosterona tiveram um aumento no volume das placas não calcificadas, o que foi visualizado por meio de tomografia computadorizada e angiografia.

Contudo, as formações não foram associadas à ocorrência de infartos e derrames. “Esses estudos ainda têm limitações. O número de participantes não é suficiente para determinar os riscos do tratamento, sejam os eventos cardiovasculares maiores ou o câncer de próstata. Encontramos muitos benefícios, mas ainda não sabemos os riscos. Nosso próximo passo é um teste maior e mais longo, para determinar se a reposição pode aumentar a incidência de ataque cardíaco e de tumores de próstata, além de reduzir o risco de fraturas”, conta Snyder.

Com um número bem maior de participantes — 44 mil homens acima de 40 anos —, outro trabalho publicado no Jama encontrou menor risco de problemas cardiovasculares entre aqueles que faziam reposição de testosterona. No universo de voluntários — acompanhados, em média, por três anos e quatro meses —, 8.808 tinham baixos níveis da substância e precisavam repô-la, seja por meio de gel, comprimido ou injeção intramuscular. Comparado aos demais, eles sofreram menos episódios de infarto e derrame no período avaliado. No fim do estudo, a taxa de ocorrências cardiovasculares entre o grupo da reposição foi 16,9 por 1 mil pessoas ao ano, contra 23,9.

O endocrinologista Flavio Cadegiani, especialista da Associação Americana de Endocrinologistas Clínicos e membro da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade, explica que um dos mecanismos pelos quais a testosterona pode reduzir os riscos cardiovasculares é que, do ponto de vista celular, a substância atua em diversas frentes metabólicas, diminuindo a absorção de gordura e aumentando a sensibilidade à insulina, por exemplo. Esses fatores protegem o organismo de infarto e acidente vascular. “A grande novidade desse estudo é mostrar que a reposição do hormônio reduz esse risco”, observa.

O médico esclarece que, atualmente, só se prescreve a terapia de testosterona quando o paciente, além de baixos níveis da substância, apresenta sintomas que afetam a qualidade de vida. Contudo, ele não descarta que, no futuro, com o resultado de mais estudos de grande porte, a reposição hormonal possa entrar no rol de procedimentos indicados para a redução de risco coronariano em homens com taxas de testosterona insuficientes, ainda que não existam incômodos associados.

Ossos

Além da saúde cardiovascular, os estudos coordenados por Peter J. Snyder verificaram a ação da reposição de testosterona sobre a densidade óssea e a força, a memória e a cognição, e a contagens de células sanguíneas, como hemácias e leucócitos. Os voluntários foram divididos em dois grupos: metade recebeu placebo, e a outra metade foi tratada com a testosterona em gel.

No primeiro caso, os cientistas verificaram um aumento na densidade óssea e na força muscular de idosos que fizeram uso da testosterona em gel. “Quando homens de qualquer idade desenvolvem níveis severamente baixos de testosterona devido a doenças desconhecidas, seu índice de massa corporal cai, enquanto as fraturas aumentam”, destaca o artigo. No fim, descobriu-se que a substância, de fato, melhora a densidade óssea, principalmente na espinha e no osso trabecular, responsável por 20% do esqueleto humano.

Palavra de especialista

Risco para os jovens
“De forma geral, os estudos mostraram efeitos benéficos, mas é preciso destacar que são pacientes mais velhos, com baixos níveis do hormônio. Esse resultado não é para o jovenzinho que quer tomar hormônio na academia. Tomar testosterona sem necessidade causa alterações hepáticas irreversíveis, aumenta o colesterol e os triglicerídeos, eleva a pressão, reduz a fertilidade, causa acne e altera o comportamento. Em mulheres, dá alterações na voz, na distribuição de cabelo, e causa hipertrofia de clitóris. Para os homens mais velhos com deficiência hormonal, a reposição de testosterona melhora a anemia e a densidade óssea. O estudo com 8.808 homens também mostrou um efeito cardiovascular benéfico. Isso não quer dizer que a testosterona deve ser um tratamento para doença cardiovascular; para isso existem estatinas e aspirina. Significa que, para os que precisam fazer a reposição, não existem riscos. Embora um dos estudos tenha encontrado aumento de placas coronarianas não calcificadas, isso não aumentou o risco, então pode ser que o aumento do volume dessas placas não seja maléfico para o corpo.”

João Lindolfo Borges, professor de endocrinologia da Universidade Católica de Brasília e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologista e Metabologia (Sbem)

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