Abelhas respondem a comandos após receberem treinamento

Os cientistas se inspiraram em um trabalho anterior com zangões que conseguiam puxar cordas para obter recompensas

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postado em 24/02/2017 06:00 / atualizado em 24/02/2017 08:36

 

 

Macacos, mamíferos marinhos e aves são algumas das espécies que, como o homem, conseguem aprender a manusear objetos. Um novo bicho acaba de entrar para o grupo de animais com essa habilidade: as abelhas. Pesquisadores britânicos conseguiram ensinar os insetos a mover uma pequena bola em direção a um alvo, uma ação semelhante a marcar um gol no futebol. Além de realizar a tarefa, as pequenas operárias ensinaram outras a repeti-la. Os autores do estudo, publicado na última edição da revista americana Science, avaliam que o resultado reforça as constatações em torno do alto nível de inteligência das produtoras de mel.

Os cientistas se inspiraram em um trabalho anterior com zangões que conseguiam puxar cordas para obter recompensas, como pequenas porções de alimento. “Esse estudo nos sugeriu a flexibilidade cognitiva desses animais e nos motivou a testar ainda mais os limites dessa habilidade”, conta ao Correio Olli J. Loukola, principal autor da nova pesquisa e cientista da Universidade Queen Mary, de Londres.

Ele e os colegas colocaram zangões da espécie mamangaba em uma plataforma plana e os treinaram para mover uma bola amarela da borda da superfície para um buraco localizado no centro. Quando conseguiam, os animais recebiam açúcar. Uma abelha de mentira manipulada pelos cientistas foi usada para demonstrar o exercício aos insetos. Em uma segunda etapa, abelhas treinadas passaram a mover a bola na frente de insetos que ainda não haviam participado do experimento, e eles começaram a realizar a mesma tarefa em menos tempo. Em um terceiro teste, os animais foram ensinados por um ímã que movia a bola e, mais uma vez, repetiram a tarefa de forma mais rápida que os dos outros grupos.

Tarefa melhorada

Os pesquisadores ficaram ainda mais surpresos com o fato de as abelhas terem “otimizado” a tarefa, indo diretamente às bolas que estavam mais próximas do local onde deveriam ser encaixadas. “Elas resolveram de uma maneira diferente da que foi demonstrada, sugerindo que as abelhas observadoras não copiaram simplesmente o que viram, mas melhoraram. Esse comportamento dirigido a metas mostra uma quantidade impressionante de flexibilidade cognitiva, especialmente para um inseto. Para nosso conhecimento, nenhum outro inseto mostrou esse nível de habilidade cognitiva antes”, frisa Olli J. Loukola.

Segundo a equipe de cientistas, os resultados mudam conceitos na área do comportamento animal. “Acredito que nosso estudo acaba com a ideia de que pequenos cérebros restringem os insetos a terem flexibilidade comportamental limitada e habilidades de aprendizagem simples”, ressalta o autor. Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e especialista em biologia e manejo de abelhas, Cristiano Menezes concorda com os britânicos. “É um ganho entender melhor o que as abelhas conseguem fazer, decifrar o comportamento animal. Outros experimentos que mostraram a desenvoltura delas em tarefas já haviam sido feitos, mas esse se destaca pelo alto nível de complexidade”, avalia.

O especialista, que não participou do estudo, também acredita que o trabalho possa ajudar a combater a extinção desses animais. “É interessante conhecermos a aprendizagem e o funcionamento cerebral das abelhas porque estamos observando a diminuição da espécie, que pode estar ligada ao que ocorre no cérebro delas. Ao entender como ele funciona, podemos criar estratégias para combater esse problema”, explica. Olli J. Loukola fala ainda de benefícios na área econômica. “A agricultura depende muito das abelhas e, com essa possibilidade de ensinar tarefas a elas, seria possível fazer com que esses bichos escolhessem flores específicas. Daria para selecionar quais plantas seriam manejadas”, detalha.

Os autores ressaltam que os resultados podem servir de inspiração para outras pesquisas semelhantes na área biológica. “Acho que nosso estudo incentiva outros pesquisadores a estudar os mecanismos e os fundamentos neurológicos da flexibilidade cognitiva, mas também suas implicações evolutivas e ecológicas”, detalha Olli J. Loukola. Ele não sabe se o trabalho terá continuidade. “Ainda não pensei sobre isso. Quem sabe eu comece a treinar essas abelhas para jogar futebol como uma equipe”, brinca. (VS)

Palavra de especialista

Resultado inovador

“A facilitação do aprendizado devido à observação da tarefa a ser feita, até onde eu sei, é algo novo no estudo de solução de problemas por abelhas. A capacidade dos insetos sociais de solucionar problemas não naturais, como o do estudo, tem surpreendido a comunidade científica, que num passado recente era, em grande parte, cética com relação à flexibilidade comportamental desses animais. O aprendizado através da observação é realmente algo novo e surpreendente. A comprovação de que insetos sociais podem aprender por observação a solucionar problemas não naturais ainda demanda outros estudos como esse. Portanto, a busca da comprovação de tal capacidade nesses animais pode, em si, ser uma nova área de investigação”

Pedro Ribeiro, pesquisador e pós-doutorando em fisiologia animal pela Universidade de São Paulo (USP)

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