Risco de obesidade na infância tem a ver com genética e ambiente familiar

Segundo especialistas, as atitudes do dia a dia são as principais responsáveis pelo ganho de peso

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postado em 26/02/2017 08:30 / atualizado em 26/02/2017 22:55



Em um mundo cada vez mais pesado, as crianças estão herdando dos pais um triste legado: a obesidade. Estudos recentes evidenciam o papel crucial da família nesse fenômeno crescente, estimado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 42 milhões de casos — e isso considerando apenas a faixa etária até 5 anos. No início da semana, uma nova pesquisa da Universidade de Sussex, na Inglaterra, mostrou que, no geral, 20% da composição do índice de massa corporal (IMC) de meninas e meninos vêm do pai e da mãe. Entre os pequenos que estão muito acima do peso, contudo, essa proporção aumenta para 55% a 60%. Isso significa que mais da metade do risco de ser obeso é determinado pela combinação de genética e ambiente familiar.

O estudo foi realizado com 100 mil crianças e seus pais no Reino Unido, nos Estados Unidos, na China, na Indonésia, na Espanha e no México. “Nossas evidências vieram de dados coletados por diversos locais do mundo, com diferentes padrões de nutrição e obesidade — de uma das populações mais obesas do mundo, os Estados Unidos, aos dois países mais magros, a China e a Indonésia”, diz Peter Dolton, professor da Universidade de Sussex e principal autor do trabalho. “Descobrimos que o processo de transmissão intergeracional (da obesidade) é o mesmo em todos esses países”, observa.

Embora quando se fale em herança e transmissão de características seja irresistível associá-las à genética, o problema é muito menos dos genes e bem mais dos hábitos ruins. “A obesidade é multifatorial. Mães obesas tendem a gerar filhos que serão obesos, e há doenças genéticas que podem alterar o apetite”, reconhece a endocrinologista pediatra Fabiana de Luccas, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Mas isso é exceção. Os hábitos têm um peso muito grande. A sociedade moderna trouxe muitas vantagens, mas também trouxe comida de caixinha, falta de tempo para cozinhar em casa, sedentarismo...”, enumera.

A culpa não é só do hambúrguer com batata frita ingerido eventualmente, depois do cinema. O problema, de acordo com um estudo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, está nos hábitos familiares, repetidos no dia a dia. Para investigar a influência dos lanches rápidos e altamente calóricos na incidência da obesidade infantil, cientistas da instituição examinaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (Nhanes), realizada nos Estados Unidos entre 2007 e 2010. Os dados revelavam a ingestão dietética diária e a origem do alimento e da bebida consumidos (fast food, restaurante, casa etc).

No total, houve informações de 4.466 crianças e adolescentes de 2 a 18 anos, categorizados como não consumidores de fast food, consumidores pouco frequentes (menos de 30% das calorias vinham desse tipo de lanche) ou consumidores excessivos (mais de 30% das calorias provenientes).  Em seguida, os pesquisadores determinaram quais fatores estavam mais associados ao risco de obesidade. As análises estatísticas mostraram que o consumo exagerado de lanches gordurosos é apenas parte de um padrão alimentar muito maior, adquirido pelas crianças obesas ainda muito pequenas, na família. Essa receita inclui poucas frutas e vegetais, muito alimento processado e abundância de bebidas açucaradas.

Mudança coletiva


“É isso que está levando à obesidade infantil. Comer fast food é apenas um comportamento a mais que resulta desses maus hábitos. Só porque as crianças que comem mais fast food são as mais propensas a se tornarem obesas, isso não prova que as calorias desses lanches sejam as culpadas”, disse, em nota, Barry Popkin, professor de nutrição da universidade e principal autor do estudo. “O trabalho apresenta fortes evidências de que a dieta infantil está mais fortemente associada à má nutrição e à obesidade. Enquanto que reduzir esse tipo de alimento (fast food)  é importante, o resto da dieta da criança não deve ser subestimado”, completou Jennifer Poti, coautora do artigo.

Autora do livro Por que não posso comer besteiras todos os dias?, voltado a alunos do ensino fundamental,  a nutricionista Joana Lucyk chama a atenção para o envolvimento de toda a família na mudança de hábitos. “Crianças seguem exemplos, e os pais devem mudar de atitude com elas, para que a reeducação seja eficaz. Ter um comportamento alimentar e cobrar outro diferente é incoerente e ineficaz”, observa. A especialista, que não participou do estudo, também ressalta a importância de políticas públicas nesse sentido (Leia Três perguntas para). “Deve-se sempre trabalhar o conhecimento, tanto em campanhas governamentais quanto em casa e no privilegiado ambiente escolar.”

Mãe de um menino de 10 anos que é obeso, Eloá Batista, 39, reconhece a influência do ambiente familiar no ganho de peso do filho. “Eu sou obesa mórbida. A última vez que me pesei, estava com mais de 120kg, e a vida diária é uma luta para mim. Meu filho sempre me ajudou bastante porque meu peso faz tudo ser mais difícil, mas, infelizmente, ele também adotou meus maus hábitos alimentares”, reconhece. O menino, segundo ela, tem 88kg, dores nas costas e no joelho frequentemente, além de dificuldades para respirar. “Na idade dele, eu não pesava nem 50kg. Me dói muito ver meu filho tão obeso e não conseguir controlar nem o que eu como”, diz a servidora pública, que pretende levar o garoto a uma nutricionista depois do carnaval.

"A dieta infantil está mais fortemente associada à má nutrição e à obesidade. Enquanto que reduzir esse tipo de alimento (fast food)  é importante, o resto da dieta da criança não deve ser subestimado"

Jennifer Poti, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

 

 

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