Amazônia foi povoada por populações indígenas pré-colombianas, diz estudo

Segundo os cientistas, as civilizações passadas ajudaram a espalhar pela região plantas como o cupuaçu e o açaí

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/03/2017 06:00



É fácil pensar na floresta que cobre quase metade do território nacional como selvagem e dona de um passado praticamente intocado por humanos. Existem evidências, porém, que a Amazônia foi densamente povoada por populações indígenas pré-colombianas. Mais de 3 mil sítios arqueológicos foram encontrados na região, indicando que diversos povos, de culturas diferentes, habitaram, cultivaram e deixaram sua marca na paisagem. Mais do que isso: segundo um estudo publicado hoje na revista Science, as práticas de domesticação de plantas realizadas por essas pessoas afetaram a biodiversidade da floresta de uma forma que pode ser observada até hoje.

Estima-se que o número de espécies de árvores na Amazônia chegue a 16 mil. Das 85 conhecidamente domesticadas pelos pré-colombianos, 20 são consideradas hiperdominantes, ou seja, estão no grupo das poucas espécies que englobam metade das árvores amazônicas. O número é cinco vezes maior que o esperado naturalmente. Além disso, o estudo mostra que quanto mais perto de um sítio arqueológico — local habitado por humanos no passado —, maior o número de árvores de espécies domesticadas.

Resultado de uma colaboração entre biólogos e arqueólogos, a pesquisa renova a discussão sobre o impacto que os povos indígenas antigos tiveram sobre a Amazônia e sugere que as práticas de domesticação de plantas ajudaram a selecionar espécies com maior utilidade para esses povos e até a espalhá-las por diversas regiões da Amazônia. “Foi o primeiro estudo que mostrou alguma correlação entre espécies e sítios arqueológicos na escala da bacia amazônica”, diz Carolina Levi, líder da pesquisa e doutoranda em ecologia no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Levi e sua equipe de 152 cientistas — entre eles, 53 brasileiros — juntaram dados de mais de mil análises florestais realizadas pela rede de pesquisadores Amazon Tree Diversity Network com a localização de 3 mil sítios arqueológicos conhecidos. Ao estudar a composição da floresta a diferentes distâncias dos sítios, os pesquisadores descobriram que a quantidade de espécies domesticadas e a de indivíduos dessas espécies aumentam nas imediações dos antigos agrupamentos humanos. A cada hectare, o número de espécies chega a 19, cerca de 19% de todas as encontradas na área, enquanto o número de indivíduos chega a 292, o equivalente a 61% das árvores do local.

A correlação foi maior em duas áreas da Amazônia: as regiões leste e sudoeste da floresta. “O sudoeste é uma região muito importante para se entender o impacto dos povos na floresta”, afirma Carolina Levi. “É uma área muito extensa, com uma paisagem muito trabalhada. Foi onde também começaram várias domesticações de plantas, além de ser o berço de duas famílias linguísticas importantes: o tupi e o arawak.”


Manejo

Vale lembrar que as atividades realizadas pelos povos pré-colombianos são muito diferentes das de hoje, com outros impactos sobre a biodiversidade. “Eles faziam roças, plantações, mas também selecionavam espécies de árvores e estimulavam o seu crescimento usando fogo, as transportando e abrindo espaço para as plantas” diz Eduardo Neves, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) e participante no estudo. “Era outro tipo de relação com a natureza, que estimulava a biodiversidade.”

O pesquisador afirma que essas atividades não devem ser confundidas com o começo da agricultura. Elas são chamadas de manejo e nada têm de primitivas. “Pegue, por exemplo, o pequi, uma fruta superimportante, que é uma planta selvagem. Não existe uma plantação de pequi da forma como existe uma plantação de soja. A fruta é coletada, manejada”, diferencia. “Os povos manejavam a floresta como floresta. Enriquecendo, criando maior diversidade nessas espécies”, completa Levi.

Essas árvores são chamadas de incipientemente domesticadas, capazes de se desenvolver e se reproduzir sem um cuidado constante, em contraste com as completamente domesticadas, que não sobrevivem fora de um ambiente criado por humanos. São plantas que não foram profundamente modificadas. Estudá-las, acredita Neves, pode trazer informações valiosas. “A pesquisa mostra um caminho possível de parceria entre biólogos e arqueólogos, e acho que ainda vai render muito”, aposta.

Ameaça moderna

Os dois pesquisadores ressaltam ainda que o desmatamento da Amazônia ameaça áreas com muita biodiversidade e regiões que poderiam indicar a presença de sítios arqueológicos ainda não descobertos. “Ele voltou com toda a força há cerca de dois anos, destruindo repositórios de biodiversidade para plantar monoculturas”, afirma Neves. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a derrubada de árvores cresceu 29% no ano passado.

Levi enfatiza a perda histórica que pode ser gerada pela prática moderna. Uma região com grandes números de espécies domesticadas poderia indicar, por exemplo, a presença de um sítio arqueológico escondido ou mesmo a presença de um povo que não deixou outros vestígios físicos. “As plantas de hoje em dia podem indicar os locais ocupados por humanos antigamente. É possível explorar muitas outras coisas”, diz a cientista.

* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.