Cientistas listam 208 minerais que surgiram da atividade humana

O catálogo inédito reforça a ideia de que a Terra chegou à era do Antropoceno, marcada pela presença dominadora das pessoas

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postado em 04/03/2017 08:00

RRUFF/Divulgação


Oficialmente, a Terra se encontra na época do Holoceno. Contudo, desde o século 20, alguns especialistas defendem que esse capítulo se encerrou, dando lugar ao Antropoceno, uma era caracterizada essencialmente pela presença dominadora do homem no planeta. Nem todos aceitam a proposta, levantada, pela primeira vez, pelo químico holandês Paul Crutzen em 2001. Agora, um catálogo de minerais publicado pelo Instituto Carnegie de Ciência, nos Estados Unidos, pode dar mais peso à ideia de que se passou da hora de virar a página. O trabalho, divulgado na revista American Mineralogist, identifica, pela primeira vez, um grupo de 208 espécies minerais que não ocorrem espontaneamente na natureza, mas são produtos de atividades humanas.

De acordo com os autores, liderados pelo mineralogista Robert Hazen, a industrialização originou mais minerais na Terra do que qualquer outro evento desde a oxigenação do planeta, há 2,2 bilhões de anos. As espécies apresentadas no catálogo representam quase 4% de todas as 5,2 mil reconhecidas oficialmente pela Associação Mineralógica Internacional (AMI). A maioria teve origem na mineração e pode ser detectada em depósitos de minério, na escória, nas paredes de túneis, em minas de água e tubulações, entre outros. Três tipos foram descobertos em artefatos de chumbo corroídos de um navio naufragado na Tunísia, dois estavam em peças de bronze egípcias e quatro, em uma região onde os homens pré-históricos que viveram na Áustria faziam fogueiras para sacrifício humano.

Hazen explica que o primeiro grande evento que marca a explosão da diversidade de minérios na história da Terra foi o aumento de oxigênio na atmosfera. A chamada grande oxidação deu origem a pelo menos dois terços das espécies já identificadas. “A evolução mineral continuou pela história da Terra. Levou 4,5 bilhões de anos para elementos que encontramos naturalmente no planeta se combinassem em localizações, profundidades e temperaturas específicas para que se formassem os mais de 5,2 mil minerais que oficialmente reconhecemos hoje. A maioria apareceu depois da grande oxidação”, afirma.

Segundo o mineralogista, dentro dessa coleção, estão 208 minerais produzidos direta ou indiretamente das atividades humanas, a maioria desde meados dos anos 1700. “E acreditamos que outros continuam a se formar nesse ritmo relativamente rápido. Imaginar 250 anos em relação a 2 bilhões é a diferença entre o piscar de olhos (um terço de um segundo) e um mês”, compara. “De forma simples, vivemos em uma era de diversificação de compostos inorgânicos sem paralelo. De fato, se a grande oxidação foi o ‘evento de pontuação’ da história da Terra, o rápido e extensivo impacto geológico do antropoceno é um ponto de exclamação.”

Produção segue
Uma espécie mineral é definida como compostos cristalinos que ocorrem naturalmente e têm uma combinação única de compostos químicos. Os autores do artigo argumentam que, com tantos minerais e compostos semelhantes devendo sua origem à atividade humana, “uma compreensão e uma análise da natureza mineralógica do antropoceno estão garantidas”. Segundo os cientistas, a humanidade impactou na diversidade e na distribuição dos minerais, principalmente, de três formas: manufatura de compostos semelhantes/formação de minerais como bioproduto da atividade humana; movendo de lugar, em grande escala, rochas, sedimentos e minerais; e redistribuindo globalmente minerais de grande valor, como diamantes, rubis, esmeraldas e safiras.

“Dada a influência pervasiva da humanidade no ambiente, deve haver centenas de minerais ainda não reconhecidos em antigas minas, prédios abandonados, fundições e outros locais. Enquanto isso, novas formas de compostos devem estar se formando, por exemplo, em locais de descarte de resíduos sólidos, onde pilhas, eletrônicos e outros lixos hight tech expostos ao tempo e a alterações”, acredita Robert Downs, pesquisador da Universidade do Arizona (EUA) e coautor do artigo. “Em camadas sedimentares deixadas por nossa época, mineralogistas do futuro vão encontrar muitos materiais de construção, como tijolos, cimento, titânio, ferro e alumínio, ao lado de bioprodutos radioativos letais da era nuclear. Eles também podem ficar maravilhados com algumas gemas manufaturadas, como zircônio cúbico, rubis sintético e muitos outros”, acrescenta Marcus Origlieri, também da Universidade do Arizona.

Muitos dos minerais derivados de atividade humana podem não ser reconhecidos oficialmente. A calclacita, descrita por um cientista na Bélgica, em 1959, e originada de um gabinete de armazenamento de espécies minerais feito de carvalho, por exemplo, chegou a ser classificada, mas perdeu o status em 1998. Muitos outros minerais antropogênicos saíram da lista. Para Edward Grew, pesquisador da Universidade do Maine, eles não deveriam ser excluídos, mas poderiam ter entrado em outras categorias.

Organização geológica
Épocas são divisões do tempo geológico. De acordo com a União Internacional de Ciências Geológicas, a organização que define a escala de tempo da Terra, atualmente vivemos no Holoceno, iniciado há 11,5 mil anos, após a última era do gelo. O Antropoceno, época proposta por Paul Crutzen e endossada por muitos especialistas, vem de antropo, palavra grega que significa “homem”.

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