No mais completo estudo, especialistas detalham consequências do vírus zika

A partir das autópsias em recém-nascidos que não resistiram à infecção pelo zika, os especialistas definem três tipos de danos, com distintas manifestações de destruição e calcificação do tecido cerebral, e outras malformações

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postado em 28/03/2017 10:04 / atualizado em 28/03/2017 10:53

	Carolina Cotta/EM/D.A Press
 

Desde que foi descrita pela primeira vez, em 2015, a infecção de gestantes pelo vírus zika tem sido associada à microcefalia. De fato, essa é uma das mais marcantes características da doença, que destrói o cérebro em formação. Agora, uma equipe de pesquisadores liderados pela neuropatologista Leila Chimelli mostra que, nos episódios mais graves, pode ocorrer o contrário. Devido a uma lesão no tronco cerebral, cinco pacientes examinados pela médica do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, no Rio de Janeiro, nasceram com hidrocefalia.



O trabalho, publicado na revista Acta Neuropathologica, também é pioneiro quanto ao número de casos descritos: foram 10 bebês, que morreram pouco depois do nascimento, e tiveram os órgãos e tecidos minuciosamente analisados. Segundo Leila Chimelli, integrante da Sociedade Brasileira de Patologia, até hoje, os estudos publicados concentram-se em um número menor de pacientes, ou  em fetos que não chegaram a nascer. A médica destaca que o novo artigo, além disso, é o primeiro a comprovar algo sugerido anteriormente, mas que somente agora foi demonstrado: o vírus destrói os neurônios motores da medula, provocando deformidades nas articulações, uma condição chamada atrogripose.

Em fevereiro do ano passado, quando a zika era um mistério ainda maior do que é agora, a neuropatologista começou a receber amostras post mortem de bebês cujas mães foram infectadas durante a gestação. As iniciais vieram da Paraíba, enviadas pela médica Adriana Melo, a primeira a relacionar o vírus às malformações cerebrais, por meio da análise do líquido amniótico das vítimas. A ginecologista da maternidade pública de Campina Grande (PB) conseguiu a autorização das famílias de dois bebês que morreram em decorrência da doença para que se realizassem autópsias das crianças. Parte do material foi enviado para o Rio de Janeiro, e analisado por Leila Chimelli.

Tamanho normal

“Em março do ano passado, faleceu o primeiro bebê do Rio de Janeiro. Fui contatada por médicos dos Estados Unidos e da França, e comecei a preparar o material para um artigo. Então, ao longo dos meses, foram surgindo novos casos”, relata. O último paciente avaliado tinha uma característica até agora não notificada em estudos prévios. Ele nasceu com o cérebro de tamanho normal, embora apresentasse algumas calcificações. O bebê, cuja mãe foi contaminada na 28ª semana de gestação, morreu por uma malformação pulmonar, provocada não por defeitos cerebrais, mas pela infecção do zika. O vírus tomou os rins, o baço e o fígado da criança quando ela estava no útero, e acabou prejudicando a formação dos pulmões.

“Um dos aspectos mais interessantes foi que, em cinco dos 10 casos, em vez de microcefalia, as crianças tinham hidrocefalia. A cabeça delas era enorme”, conta a pesquisadora do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer. Ao investigar os órgãos e tecidos desses bebês, Leila Chimelli descobriu que eles tinham uma lesão no tronco cerebral incompatível com a vida. Nessa parte do corpo existe um canal que deixa o líquido cérebro-espinal fluir. Contudo, por causa da lesão, provocada pelo zika, o líquido se acumulou no cérebro, dilatando a cabeça dos bebês. “Esses foram os casos mais graves. As crianças nasceram, mas morreram até o segundo dia de vida”, conta a médica.

Outro avanço do trabalho publicado na Acta Neuropathologica foi a descoberta de que o zika destrói os neurônios motores da medula espinal e, por isso, os fetos e as crianças são acometidos pela artogripose. “Eles ficam com as perninhas e os bracinhos rígidos. Chegaram a sugerir que era alguma lesão nos membros, mas estudei a medula e vi que os neurônios motores foram destruídos. Quando estavam no útero, os fetos paravam de se mexer porque essas células morreram”, destaca a neuropatologista.

Atualmente, Chimelli está descrevendo o estudo de um caso de um bebê que morreu com cinco meses de idade, em decorrência do zika. Segundo a médica, será o primeiro trabalho sobre um sobrevivente da doença, que acaba sendo vitimado por ela quando mais velho. Outra questão que ela pretende desvendar é a identificação das células prematuras e ainda indiferenciadas que são atingidas primeiramente pelo vírus nos fetos.

 

Palavra do especialista
Felipe d’Almeida Costa

Patologista do AC Camargo e secretário geral da Sociedade Brasileira de Patologia

“Desde que se começou a estudar o zika, sem dúvida este é o trabalho mais completo, em termos de descrição dos achados, tanto externos quando anatomopatológicos e microscópicos. Em qualquer doença que a gente trata, o primeiro passo para encontrar um tratamento foi entender aquela doença detalhadamente. Trabalhos anteriores fizeram descrições, mas com menos pacientes. Esse caracteriza a doença em vários pacientes e em diversos órgãos, correlacionando-a com a idade gestacional. A principal contribuição dele é, além do detalhamento da doença, evidenciar as ações diferentes do zika, dependendo do período de infecção.

Quando começou a epidemia, o consenso era que a infecção materna só trazia risco quando ocorria no primeiro trimestre. Depois, outros estudos mostraram que, mesmo mais tarde, o vírus era capaz de provocar destruição. Agora, esse estudo mostra, em um número grande de pacientes, que, na infecção precoce, o vírus infecta o cérebro muito imaturo e impede a formação cerebral. Já nas gestações mais avançadas, a ação é diferente. O que ocorre é uma inflamação nas meninges, que leva à destruição do sistema nervoso e destrói aquele cérebro que estava formado. Creio que vai demorar muitos meses, se não anos, para alguém conseguir juntar tantos casos, com um nível de detalhamento tão grande e ilustrações das alterações com tanta qualidade.”

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