Epidemiologista brasileiro ganha um dos mais importantes prêmios do mundo

Graças às pesquisas desenvolvidas por ele na década de 1980, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reviram as recomendações sobre aleitamento exclusivo até os seis meses de vida.

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postado em 28/03/2017 11:13

Divulgação

O professor emérito da Universidade Federal de Pelotas Cesar Victora, 65 anos, se tornou hoje o primeiro brasileiro a receber o prêmio Gairdner de Saúde Pública, um dos mais importantes do mundo. O epidemiologista teve o trabalho reconhecido pelo impacto na saúde materno-infantil e na nutrição de nações pobres e em desenvolvimento. Graças às pesquisas desenvolvidas por ele na década de 1980, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reviram as recomendações sobre aleitamento exclusivo até os seis meses de vida.


“Havia uma tradição de se oferecer água e chá, além do leite materno. Os meus filhos mesmo tomaram”, conta Victora. Ao investigar dados de mortalidade infantil e relacioná-los ao tipo de alimento ofertado às crianças de até 180 dias, porém, ele descobriu que esse hábito impactava diretamente no número de óbitos de bebês. “Possivelmente, a maior contribuição do Dr. Victora à saúde pública foi seu trabalho nos anos 1980, com o primeiro estudo mostrando a importância da amamentação exclusiva para prevenir a mortalidade infantil”, destacaram os organizadores do prêmio.

Segundo o médico brasileiro, existem algumas hipóteses que explicam a associação entre a oferta de água e chá aos bebês e o aumento nos casos de morte. “Em primeiro lugar, a mortalidade maior era nas famílias mais pobres, que não tinham acesso a saneamento. A má higienização da água poderia introduzir bactérias e contaminar os bebês. Além disso, o estômago do recém-nascido é muito pequeno, do tamanho de uma colher de sopa. Ao ingerir mais líquido, ele mama menos e deixa de receber todas as substâncias do leite materno que evitam infecções”, diz.

A premiação também reconhece o estudo de coorte de Pelotas, que Victora desenvolve desde 1982. Nesse trabalho, o médico acompanha, desde o nascimento, 6 mil pessoas. Com os resultados da pesquisa, que ainda está em curso, o brasileiro ajudou a estabelecer a influência dos primeiros mil dias de vida (da concepção aos 2 anos de idade) para o desenvolvimento e a saúde do indivíduo ao longo de toda a vida. Entre as descobertas, está a de que a amamentação prolongada na infância aumenta os níveis de inteligência (QI), escolaridade e renda aos 30 anos.

Modesto, o médico se disse surpreso com a premiação. “Fiquei muito satisfeito e surpreso. É um prêmio muito importante na área de saúde global, inclui pessoas que descobriram o ebola, a Aids...”, enumera. Na edição de 2017, também foram premiados Akira Endo, presidente dos Laboratórios Biopharm, pela descoberta e o desenvolvimento das estatinas; o fisiologista da Universidade de San Francisco David Julios, por determinar as bases moleculares da somatosensação (como o corpo percebe calor, frio e dor); Lewis E. Kay, geneticista da Universidade de Toronto pelo desenvolvimento do espectroscópio moderno; Rino Rappuoli, cientista da GSK Vacinas, pela abordagem pioneira usada no desenvolvimento da vacina contra a meningite B; a neurologista do Hospital Infantil do Texas Huda Y. Zoghbi, pela descoberta da base genética da síndrome de Rett, e o neurologista da Universidade de Ottawa Antoine M. Hakim, pela pesquisa de prevenção de derrames.

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