Cientistas descobrem que dengue potencializa o zika em ratos

O trabalho levantou a preocupação dos autores a respeito do rápido espalhamento do micro-organismo em regiões onde outros flavovírus são circulantes

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postado em 31/03/2017 06:05

Erick Loiola e Rodrigo Madeiro/IDOR
Um estudo publicado na revista Science sinalizou que infecções anteriores por dengue ou vírus do oeste do Nilo potencializam os efeitos do zika. O trabalho, feito com ratos, levantou a preocupação dos autores a respeito do rápido espalhamento do micro-organismo em regiões onde outros flavovírus são circulantes. Eles também observaram, no artigo, que, se confirmado em testes futuros, o resultado deve ser considerado por desenvolvedores de vacinas.

 

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Algumas vezes, a exposição prévia a determinado vírus pode agravar uma doença provocada por outro micro-organismo. Em julho, dois estudos publicados na revista Nature mostraram, in vitro, que as defesas que se formam contra a dengue podem aumentar os efeitos negativos do zika. Agora, os pesquisadores da Universidade de Monte Sinai, em Nova York, fizeram testes com ratos e encontraram resultados semelhantes.

A equipe, liderada por Susana V. Bardina, inoculou anticorpos de humanos infectados pela dengue em 141 ratos. Outros 146 receberam o material de pessoas que tiveram o vírus do oeste do Nilo. Depois, os animais foram infectados com zika. Um número semelhante de cobaias também foi exposto ao zika, mas não recebeu os anticorpos. Enquanto que mais de 90% das cobaias desse segundo grupo sobreviveram à infecção, nos demais, a história foi diferente. Apenas 21% dos ratos que tinham anticorpos de dengue sobreviveram. Neles, os sintomas da doença foram severos e houve emagrecimento acentuado. Quarenta por cento dos que tinham anticorpos do vírus do oeste do Nilo morreram.

Um fato curioso é que essa resposta dependeu da quantidade de anticorpos inoculada. A baixa dosagem de defesas contra a dengue provocou os efeitos deletérios. Contudo, quando a dose era alta, houve o contrário: os ratos ficaram protegidos contra o zika. Segundo os autores, os anticorpos em grande quantidade continham substâncias suficientes para neutralizar a ação do novo vírus.

Embora reconheçam a necessidade de mais estudos, os pesquisadores se mostraram preocupados. “Dada a alta prevalência dos anticorpos de dengue nas regiões geográficas mais afetadas pelo zika, nossos resultados sugerem que a imunidade preexistente à dengue pode ter contribuído para a rápida disseminação da zika nas Américas, possivelmente associada à viremia e aos sintomas clínicos aumentados, incluindo a microcefalia”, escreveram. “Nossos resultados também têm ampla implicação para os esforços de vacinas contra dengue, vírus do oeste do Nilo e outros flavovírus. A reação cruzada induzida por essas vacinas pode levar a um aumento da infecção quando os indivíduos são subsequentemente expostos ao zika vírus”, continuaram.

Anticorpos distintos
O infectologista Kleber Luz, responsável pela identificação da chegada do zika ao Brasil, contudo, não acredita que esse resultado se aplique a humanos, nem que as vacinas contra dengue possam piorar o prognóstico de pessoas infectadas posteriormente pelo zika. “O anticorpo gerado por uma vacina é diferente do produzido pela exposição natural ao vírus”, afirma. “Quando surgiu a dengue aqui no Brasil, teve essa confusão, de pessoas dizendo que a forma hemorrágica era por causa da vacina da febre amarela. O maior mal que se pode fazer pela saúde pública é falar mal de vacina.”
Segundo o médico, que também é membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, também não se pode atribuir a microcefalia à reação cruzada. “O anticorpo que a mãe produz contra a dengue não passa pela placenta, não chega ao feto. O que chega ao feto e faz o estrago no cérebro em desenvolvimento é o vírus da zika”, esclarece.

Em nota, a Sanofi Pasteur, que desenvolveu a vacina contra dengue, disse que a correlação encontrada no estudo não foi observada em humanos. Ainda de acordo com a farmacêutica, em estudos conduzidos com indivíduos imunizados em Natal, Fortaleza, Campo Grande, Vitória e Goiânia, não foram identificados casos graves de zika. “Em outros países, como Colômbia, México, Honduras e Porto Rico, com grande número de casos de dengue e zika, os resultados também não detectaram este fenômeno”, informa o texto. (PO)

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