SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Para buscar cura, cientistas tentam entender como o HIV se esconde no corpo

Cientista escocês Mario Stevenson deve divulgar, na próxima semana, resultados promissores usando essa terapia

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/04/2017 08:00 / atualizado em 14/04/2017 23:57

Valdo Virgo/CB/D.A Press
 

 

São Paulo e Brasília — Um dos principais enigmas no desafio de encontrar a cura para a Aids é entender como o vírus se esconde no corpo humano. Hoje, já se sabe que o micro-organismo cria reservatórios virais, sobretudo na região do intestino, dificultando, assim, a ação dos medicamentos. Extinguir esses depósitos de HIV, portanto, é ação-chave para combater a doença. Uma das alternativas estudadas por cientistas foca na ativação do sistema imunológico do paciente, em um processo que funciona como os anticorpos de uma vacina. Na próxima semana, o pesquisador escocês Mario Stevenson, chefe da Divisão de Doenças Infecciosas da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, divulgará resultados promissores nesse sentido, em uma revista especializada.

 

Leia mais notícias em Ciência e Saúde

 

“As pesquisas com técnicas imunológicas estão com ótimos resultados. Temos evidências seguras de que o vírus AAV é capaz de expulsar o HIV das células de modo que o tratamento antirretroviral o mate”, disse ao Correio. Mario Stevenson, que esteve em São Paulo, no último mês, para participar do congresso promovido pela Fundação para Pesquisa da Aids (amfAR), na Escola da Medicina da Universidade de São Paulo (USP), contou que o procedimento já será testado em humanos. “Conseguimos curar um macaco utilizando uma ‘vacina’ com o vírus AAV, em uma pesquisa que está sendo conduzida na Universidade de Miami. A próxima etapa será o estudo em humanos.”

Segundo o cientista, que acompanha há mais de 25 anos as causas da Aids, para se chegar à cura da doença, será preciso identificar um meio de eliminar os reservatórios virais. Quando um soropositivo toma os medicamentos antirretrovirais, o HIV não é eliminado, chega a taxas em alguns casos indetectáveis, mas pode se esconder em algumas células. Se um tratamento conseguir fazer com que o vírus saia do esconderijo, há a possibilidade de ele ser eliminado completamente do corpo.

O caso de Timothy Ray Brown, conhecido como paciente de Berlim, é um dos pilares da pesquisa. Vítima de leucemia, ele se livrou do HIV depois de receber um transplante de medula óssea, há oito anos, como tratamento contra o câncer. O doador tinha uma rara mutação no gene CCR5, que impedia o seu corpo de produzir uma proteína usada pelo vírus da Aids para infectar humanos. Pessoas com essa característica genética são imunes ao HIV. “A técnica (usada no paciente de Berlim) é eficaz, mas não é seguro promover esse tipo de tratamento em larga escala. A taxa de mortalidade chega a 25% e os custos são muito altos. Além disso, é trabalhoso conseguir um doador compatível com o paciente que tenha também a mutação no gene CCR5”, pondera Stevenson.

Retorno perigoso

Neste momento, centenas de estudiosos estão debruçados sobre as bancadas de seus laboratórios desenvolvendo pesquisas para ceifar o HIV do corpo de quem é acometido pelo vírus. Um grupo de cientistas dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Alemanha desenvolve um medicamento que funciona como os anticorpos. A droga tem efeitos colaterais, como fadiga, diarreia, hiperglicemia e anemia. Em casos raros, pode levar à formação de coágulos no sangue.

Mas o que mais causa receio entre os estudiosos é o que pode acontecer quando se tira o vírus da latência — condição imposta pela ingestão de antirretrovirais — e o obriga a sair de seu esconderijo. Oito soropositivos receberam a medicação e tiveram a produção do micro-organismo multiplicada por quatro, resultado divulgado em 2012. Agora, é realizada uma nova experiência na qual os pacientes recebem mais doses de medicamento, durante mais tempo. O resultado deve ser apresentado nos próximos meses.

Para saber mais


Corretor genético

O adenoassociado vírus (AAV) está presente em 70% dos adultos, mas não provoca sintomas, nem agravos. O vírus do resfriado pode despertá-lo, daí a origem de seu nome. Pesquisadores suíços descobriram, em 2001, que ele pode entrar no organismo e substituir os genes defeituosos por bons. Inicialmente, foi usado para matar células cancerígenas. Desde então, é aliado em outras formas de terapia genética.

No começo deste ano, cientistas da Universidade de Harvard utilizaram o AAV em ratos que tinham disfunção auditiva genética, conhecida como síndrome de Usher, e tiveram resultados promissores — as cobaias passaram a ouvir “sussurros” depois do tratamento. Em 2014, nos Estados Unidos, mais de 20 pessoas que perderam a visão em decorrência de um defeito genético conhecido como amaurose congênita de Leber (ACL) voltaram a enxergar graças a um tratamento desenvolvido com o micro-organismo.

 

 


*O repórter viajou a convite da amfAR 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.