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Pesquisa usa infravermelho para identificar degradações em pinturas

Foi analisado o dióxido de titânio, um pigmento branco que sofre com a degradação causada pela luz ultravioleta; resultado ajuda a prevenir desgastes em obras

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postado em 18/04/2017 06:00 / atualizado em 18/04/2017 07:29

Valdo Virgo/CB/DA Press
Uma grande preocupação de curadores e colecionadores de arte é conservar as obras e garantir que elas mantenham a mesma qualidade por décadas, mesmo séculos. A umidade, o calor e até a luz podem degradar os materiais presentes nas pinturas, fazendo com que percam características como cor e intensidade. Para evitar problemas do tipo, pesquisadores da Universidade Delft, na Holanda, decidiram analisar como o dióxido de titânio, um pigmento branco, sofre principalmente com a degradação causada pela luz ultravioleta. Como resultado, desenvolveram uma técnica que identifica estragos nas telas antes mesmo de eles se tornarem visíveis. Detalhes do trabalho foram divulgados na revista ACS Applied Materials and Interfaces.

O dióxido de titânio popularizou-se no começo do século 20, substituindo as tóxicas tintas à base de chumbo populares até então, e está presente em telas de grandes pintores modernos, como Picasso, Mondrian, e Pollock. Klaas Jan, um dos autores do estudo e pesquisador na Agência de Patrimônios Culturais da Holanda, conta que a qualidade da tinta foi aumentada, e a sua reação à luz, diminuída. “Logo, pinturas de 1920 a 1950 possuem um risco maior de sofrer degradação do que as mais recentes”, compara.

A longo prazo, o mais forte e brilhante pigmento branco disponível também pode acelerar o desgaste em outros elementos da pintura. Ele foi analisado por Jan e os colegas por meio de espectroscopia de infravermelho. O equipamento usado emite, na obra de arte, um feixe de luz infravermelha e, a partir da quantidade de luz absorvida pela pintura, se pode identificar a presença de substâncias que indicam degradação dos materiais usados na obra (veja infográfico).

Analisando o pigmento em escala nanométrica, os cientistas identificaram a presença de substâncias como ácidos carboxílicos, aldeídos e lactonas, formadas pela decomposição da tinta. O envelhecimento natural, ao longo de vários anos, também forma os compostos, mas a exposição à luz ultravioleta acelera o processo. “Tradicionalmente, para se aprender mais sobre a composição de uma obra e o seu estado de conservação, pequenos pedaços eram removidos. Isso já não é mais necessário”, diz Jan.

Escala nanométrica

Para comparar os efeitos da nova técnica, os cientistas utilizaram duas análises de espectroscopia de infravermelho: a ATR-FTIR e a AFM-IR. “A microspectroscopia FTIR é uma boa técnica, mas é incapaz de obter dados em escala pequena, como os que nós precisamos. Para isso, a AFM-IR foi desenvolvida”, diz Klaas. Segundo o pesquisador, no método criado por eles, uma sonda com ponta extremamente fina é utilizada para medir a luz infravermelha que não foi absorvida pela amostra. Com isso, a AFM obtém dados da pintura a partir de minúsculos pontos, com uma resolução de menos de 50 nanômetros. Isso permite que a deterioração sofrida pelos pigmentos seja detectada antes mesmo de se tornar visível a olho nu, o que não é possível com a ATR-FTIR.

Klaas explica que, quando o dióxido de titânio — em especial uma variedade do pigmento chamada anátase —, absorve a luz ultravioleta emitida pelo sol e, em menor escala, por alguns tipos de lâmpada, surgem as substâncias altamente reativas que degradam o óleo, mantendo os pigmentos da pintura unidos. “Se isso acontecer, a tinta se esfarela”, afirma. Os ácidos carboxílicos e outras substâncias também são produzidos ao longo do envelhecimento natural da tinta a óleo, o que significa que uma única análise não pode medir o desgaste causado especificamente pela luz ultravioleta.

Por isso, a equipe acredita que a metodologia precisa ser usada com regularidade. “É necessária uma abordagem sistemática e a longo termo para o monitoramento preventivo em coleções de arte, analisando locais fixos de uma pintura em intervalos específicos de três, cinco ou 10 anos”, diz o artigo. Segundo os criadores, feito de forma constante, o monitoramento poderá identificar desgaste precoce nas pinturas com antecedência suficiente para que as obras sejam protegidas ou restauradas.

O restaurador de obras de arte Raul Carvalho avalia que o estudo abre novas perspectivas para o campo e para o uso da nanotecnologia na conservação de pinturas. “Quanto maior o acesso à informação (sobre a obra), maior a qualidade da restauração”, afirma. Como o dióxido de titânio é um pigmento relativamente recente e as pinturas valiosas que o contêm são guardadas sob condições controladas, os efeitos da degradação a longo prazo são raramente observados, segundo o especialista. Mesmo assim, diz ele, é importante conhecer a fundo os danos sofridos por pinturas quando expostas aos elementos, ou mesmo ao longo do tempo, e desenvolver técnicas para mantê-las acessíveis a várias gerações.

*Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza.
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