Mistério sobre leões que mataram 135 pessoas finalmente é desvendado

Mortos em 1898 por comerem 135 operários em Tsavo, os leões recorreram ao comportamento inesperado porque tinham infecções nos dentes que os impediam de se alimentar de presas maiores, revela estudo norte-americano

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postado em 22/04/2017 06:00

The Field Museum/Divulgação

“São devoradores de homens, feras que caçam e matam por prazer, não para se alimentar! Eles tomaram o gosto pela caça e pela carne dos homens e nada mais vai satisfazê-los.”
John Henry Patterson

Tsavo era só uma região da savana do Quênia, banhada pelo rio de mesmo nome, tão desconhecida do Ocidente como se poderia esperar de uma localidade remota em pleno fim de século 19. Mas dois leões a colocaram no mapa mundial quando, em março de 1898, começaram a devorar os homens que trabalhavam para erguer uma ferrovia encomendada pelo império britânico. Um a um, comeram 135 operários indianos, suspendendo a obra por nove longos meses, até serem abatidos, no fim daquele ano, pelo coronel John Henry Patterson. O caçador irlandês tornou-se uma celebridade, posou com as enormes feras já inertes e faturou milhões com o livro Os comedores de homens de Tsavo e outras aventuras da África Ocidental, lançado quase 10 anos depois.
 
 
Patterson também lucrou com os corpos dos animais. Vendeu a dupla de machos ao Museu Field, em Chicago, por US$ 5 mil, uma quantia considerável naqueles tempos. Hoje, eles repousam placidamente em um diorama, um pouco menores do que em vida, compondo o cenário perfeito para visitantes que gostam de postar selfies ao lado dos felinos legendários. Além de atração turística, as feras serviram de objeto de pesquisa ao museu norte-americano. Ao estudar os fósseis, cientistas da instituição apresentaram, na revista Scientific Reports, uma nova teoria para explicar o motivo de tamanha matança.

O zoólogo do museu Bruce Patterson, que não tem qualquer parentesco com o homem que abateu os leões, é fascinado pela história dos felinos. Já passou, inclusive, uma década estudando o comportamento dos descendentes da famosa dupla, que virou tema de três filmes hollywoodianos. De acordo com o cientista, que é coautor do artigo, a causa de tanta fúria é menos glamourosa que a sugerida pelo coronel. Na realidade, o motivo seria uma severa doença periodontal. Abcessos orais impediram que ambos caçassem suas presas à moda leonina: usar a mandíbula para segurar animais igualmente fortes e lépidos, como zebras, e sufocá-los. Sem mais conseguir fazer a manobra e famintas, as feras feridas não tiveram opção, a não ser apelar para um bicho muito mais fácil de matar e que, por ocasião da construção da ferrovia, encontrava-se aos montes na região.

Relatos exagerados

Por muito tempo, sugeriu-se que os leões de Tsavo atacaram os operários porque uma seca severa no Quênia havia exterminado boa parte das presas. Contribuiu para o mistério ao redor da dupla o fato de J. H. Patterson ter carregado nas tintas, relatando de forma exagerada a ação dos animais. Ele narrou, por exemplo, a angustiante sensação de ouvir as feras mastigarem os ossos de uma vítima, bem próximas ao abrigo do coronel. Contudo, o estudo dos pesquisadores do Museu Field descobriu que os dentes dos leões não apresentam sinais de desgaste esperado de um animal que, como as hienas, come ossos.

Essa não é, aliás, a primeira vez que o coronel britânico é pego na mentira. Em 2009, um estudo publicado na revista Pnas, que também investigou os fósseis do museu, garantiu que as vítimas humanas chegaram a, no máximo, 35. Além disso, não foram apenas os dois leões abatidos por Patterson que fizeram o banquete humano — eles comeram mais que os outros, mas havia um grupo maior de animais envolvidos.

Análise microscópica

Agora, a equipe do Museu Field matou a charada de mais de 100 anos usando a moderna tecnologia de impressão 3D. Os pesquisadores fizeram imagens tridimensionais dos dentes fossilizados dos leões e imprimiram moldes tridimensionais das peças. Então, aplicaram uma técnica chamada análise de microtextura dental, pela qual se avalia, em escala microscópica, desgastes e orifícios dos dentes, resultantes de seu uso. No lugar de marcas esperadas de um devorador de ossos, os cientistas descobriram que os padrões de mordida estavam mais compatíveis com a alimentação de um leão de zoológico, que recebe a carne já desossada, do que a de uma fera selvagem.

“Os testes também mostraram que os dentes estavam muito estragados. Não por mastigarem ossos, mas por uma doença dental muito grave. Eles tinham abcessos da raiz à ponta dos caninos, uma infecção que deveria provocar muita dor e que tornava a caça normal impossível”, conta Patterson (o zoólogo). “A doença impediu que eles fossem atrás de animais grandes e que oferecem muita resistência. O homem é muito mais fácil de se caçar porque somos mais fracos, mais vagarosos e sem meios de defesa contra feras”, observa. “Além disso, o acampamento dos trabalhadores invadiu o território dos leões. Esses animais estavam feridos, e leões feridos são muito mais perigosos, porque mudam seu comportamento e não vão se deixar morrer de fome”, revela.

Segundo o cientista, ao contrário do que se possa imaginar, é muito raro leões atacarem seres humanos, mesmo em seu hábitat natural. Para ele, grande parte do fascínio em torno dos leões de Tsavo se deve à simbologia da história. Afinal, eles interromperam as obras do poderoso império britânico, que teve de aguardar nove meses para retomar os planos da construção da ferrovia.
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