América pode ter sido povoada há 130 mil anos, diz pesquisadores

Em um polêmico artigo publicado na revista Nature, cientistas sugerem indícios da presença humana nos EUA datando dessa época

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postado em 27/04/2017 06:00

San Diego Natural History Museum/Divulgação
 

 

Há mais ou menos 100 mil anos, o homem moderno embarcou em uma jornada revolucionária. Deixando a África para trás, a espécie estava pronta para colonizar o planeta. Acredita-se que, em ondas migratórias, os humanos foram se espalhando pelas regiões próximas, até alcançarem, há cerca de 13 mil anos, as Américas, via Estreito de Bering. Essa é a história que se conhece. Mas é possível que ela tenha de ser reescrita. Na edição de hoje da revista Nature, pesquisadores da Califórnia defendem que, muito antes de o Homo sapiens deixar o continente africano, a América já estava povoada. Eles encontraram evidências indiretas da presença humana em um sítio arqueológico dos Estados Unidos, datando de 130 mil anos.

 

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O Homo sapiens é a única espécie do gênero Homo que permaneceu até os dias atuais, mas, na história evolutiva, houve diversas linhagens humanas. Cerca de 1,8 milhão de anos atrás, por exemplo, o extinto Homo erectus teria saído da África e chegado à Ásia. Pouco depois, outros hominíneos se dispersaram pela Eurásia e pela Oceania. Por centenas de milhares de anos, os diversos ancestrais estiveram presentes em todos os continentes. Exceto no Novo Mundo, povoado apenas por animais. Seria necessário muito tempo até que os primeiros humanos pisassem em solo americano.

É por isso que o achado dos cientistas californianos tem potencial de revolucionar a história do povoamento do continente. Caso confirmada — o que exigirá muitas pesquisas e, o mais importante, fósseis —, a descoberta significa que as Américas já eram habitadas por alguma espécie do gênero Homo ao menos 30 mil anos antes que o Homo sapiens deixasse a África. Essa não será uma história fácil de defender. Simplesmente porque jamais foram encontrados esqueletos humanos tão antigos no continente. Os fósseis mais velhos já escavados são o de Luzia, em Minas Gerais, e o de Naia, cujos restos foram resgatados no fundo do mar, na Península de Iucatã, na América Central. Eles datam, respectivamente, de 11 mil e 12 mil anos atrás.

“Em depósitos do Pleistoceno (e de qualquer outro período geológico), temos preservados ossos desde os grandes mamíferos até os pequenos roedores, além de aves, anfíbios e répteis”, lembra o arqueólogo brasileiro André Strauss, da Universidade de Tübingen, e um dos maiores especialistas em ocupação humana nas Américas. “Se havia hominíneos no continente americano desde 130 mil anos atrás, é mandatório que se encontrem os remanescentes ósseos”, explica o pesquisador, que já escavou o sítio arqueológico de Lagoa Santa, onde foi encontrada Luzia. “Alguns colegas dizem que a inexistência de fósseis pode decorrer de padrões de sepultamento que enfatizavam a redução do corpo, como a cremação, ou pela difícil preservação em condições tropicais. Mas isso não faz sentido”, ressalta, destacando que “no dia em que encontrarem esqueletos de 130 mil anos, acaba a discussão” (leia três perguntas para).

É pela ausência de restos mortais humanos também que as pesquisas da brasileira Niède Guidon, na Serra da Capivara, jamais foram consenso na comunidade científica. Há quatro décadas, ela defende que o homem moderno vivia nessa região do Piauí há pelo menos 34 mil anos. As evidências apresentadas pela cientista são arqueológicas: datação de pinturas rupestres e de vestígios como fogueiras. Não há, contudo, registros fósseis.

Mastodonte

Na Califórnia, os indícios da ocupação humana vieram dos ossos de um mastodonte escavados em San Diego, em 1992. Fortes marcas de corte no esqueleto do animal indicavam que ele havia sido manipulado com ferramentas. Ossos, presas e molares exibiam esses sinais e estavam enterrados próximos a pesadas pedras, que teriam sido usadas como martelos e bigornas. Na época, os paleontólogos do Museu de História Natural de San Diego, que faziam a escavação de rotina (o Departamento de Transporte da Califórnia trabalhava na expansão de uma rodovia e, nesses casos, é preciso verificar se há fósseis na localidade), desconfiaram que as marcas não eram acidentais. Mas a tecnologia de 25 anos atrás não permitia ir muito além das especulações.

“Eu visitei o sítio no mesmo dia da descoberta, fui chamado pelo paleontólogo de campo que fez a descoberta. Ele pensou que fosse um mamute. Mas, logo depois, descobrimos algumas coisas estranhas sobre o esqueleto. Primeiro de tudo, não era um mamute. Era um mastodonte”, conta Tom Deméré, curador de paleontologia do museu e autor correspondente do estudo. “E, perto do esqueleto, havia pedaços de pedra afiados que se associavam aos ossos finamente quebrados do mastodonte”, recorda. Aparentemente, alguém havia usado a ferramenta lítica para quebrar o osso do animal.

Além disso, os paleontólogos descobriram uma pedra maior, perto do fóssil, que adicionou mais um elemento ao enigma. A composição da camada geológica onde está o esqueleto e os pedregulhos é incompatível com essa rocha. “O processo geológico que formou a camada não depositaria uma pedra tão grande como essa. Então, ficamos pensando como aquela rocha teria chegado lá. O que fez sentido foi a hipótese sugerindo que os humanos levaram as pedras para lá, com o objetivo de quebrar os ossos”, diz Deméré. Apenas em 2012, a tecnologia permitiu datar com precisão o sítio arqueológico: 130 mil anos.

O paleontólogo reconhece que ossos podem ser quebrados por outros processos, incluindo naturais. “Mas, ao examinar de perto os ossos que estão no sítio arquelógico, não encontramos neles marcas consistentes com hipóteses alternativas”, diz. Os pesquisadores fizeram também experiência de campo, e simularam, com uma pedra idêntica à encontrada, a quebra de ossos de elefante. “O padrão foi consistente”, afirma o arqueólogo.

Três perguntas para


ANDRÉ STRAUSS, arqueólogo

Considerando a fauna das Américas na época e o conhecimento que se tem sobre habilidades de primatas não humanos, seria possível que outro animal, que não um ancestral humano, seja o responsável por essas marcas? 
Existem dois caminhos cognitivos para abordar essa questão. O primeiro é técnico. Ou seja, a partir de tudo que sabemos sobre marcas de corte, inferimos que essas, em especifico, são antrópicas. Nesse sentido, o artigo é impecável e conta com especialistas altamente qualificados. O segundo caminho é contextual. Se você achasse essas mesmas marcas de corte em Marte, insistiria na presença humana no Planeta Vermelho ou revisaria tudo que sabe sobre a interpretação de marcas de corte? Dependendo de qual tipo de raciocínio você privilegia, vai ter maior ou menor dificuldade em se convencer da presença humana na América há 130 mil anos.

É exagero pensar que, se comprovada essa hipótese, isso muda praticamente tudo que se sabe sobre migrações humanas? 
“Tudo que se sabe sobre migrações humanas” é um certo exagero. Talvez, se um dia mostrarem que o Homo sapiens surgiu na América, e não na África, aí, sim, poderíamos dizer isso. Seria mais apropriado dizer que muda o que se sabe sobre o povoamento da América. Afinal, se eles estiverem corretos, praticamente desconhecemos 90% da história de ocupação do continente, e as populações que costumávamos chamar de “primeiros americanos”, na verdade estão entre os últimos representantes do gênero Homo no continente. O mais impactante é a possibilidade de que os primeiros hominíneos que aqui chegaram eram pré-sapiens, algo muito semelhante com o que ocorreu na Indonésia com a descoberta do Homo floresiensis.

Como o senhor acha que esse artigo será recebido na comunidade científica? Porque até hoje as ideias de iède Guidon encontram muita resistência, e ela nem sugere uma ocupação tão antiga... 
Difícil saber. Minha impressão é que até que evidências mais contundentes sejam encontrados, por exemplo, esqueletos humanos ou múltiplos sítios dispersos pelo continente, esses contextos excepcionais ficarão sempre numa espécie de limbo do convencimento. Na prática, deve reforçar os esforços de outros grupos de pesquisas em tentar encontrar sítios semelhantes por outras partes do mundo. Em arqueologia, é assim que exercitamos um dos pilares da prática científica: a capacidade de reproduzir os resultados alheios.
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