Alterações no DNA podem ajudar tibetanos a sobreviver na altitude

O Tibete é um dos territórios mais altos do mundo, com elevação que chega a 4.900 metros de altitude

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postado em 28/04/2017 06:00 / atualizado em 28/04/2017 00:15

Jacky Chen/Reuters - 24/3/14

Habitado por diversos grupos étnicos, o Tibete é um dos territórios mais altos do mundo — sua elevação chega a 4.900 metros de altitude. E isso sempre intrigou cientistas, interessados em entender como a população que habita o local conhecido como “teto do mundo” enfrentava dificuldades ambientais como o baixo nível de oxigênio, frio extremo, pouca exposição à luz ultravioleta e fontes alimentares muito limitadas. Pesquisadores americanos resolveram analisar o DNA dos tibetanos para desvendar esses mistérios. Em uma análise detalhada do genoma do grupo, eles descobriram alterações que podem ter auxiliado a vivência nessa região. Os autores do estudo publicado na última edição da revista PLOS Genetics acreditam que os achados também podem ajudar a compreender melhor outras sociedades que vivem em situações semelhantes.
 
 
Para desvendar como o povo do Tibete sobreviveu em um platô extremamente alto e árido por milhares de anos, os cientistas analisaram o genoma de 27 tibetanos e procuraram especificamente os genes considerados como vantajosos na adaptação. A análise mostrou dois genes já conhecidos por estarem envolvidos na adaptação à alta altitude (EPAS1 e EGLN1) e outros dois também relacionados à sobrevivência a baixos níveis de oxigênio (PTGIS e KCTD12).

A variante tibetana do gene EPAS1 já havia sido vista por outros cientistas, que também mostraram sua origem: ela foi herdada pelos denosivanos. Esse gene é responsável pela produção da hemoglobina, molécula que transporta o oxigênio. Ele é ativado quando os níveis de oxigênio no sangue caem, evitando assim os efeitos da hipóxia — quando os tecidos não são bem oxigenados, causando mal-estar, taquicardia e tontura —, um problema sofrido por muitas pessoas que visitam locais acima dos 4 mil metros de altitude.

Os pesquisadores, porém, se decepcionaram por não ter encontrado outros genes relacionados ao povo antigo. “Acreditávamos que seria algo mais comum, porém constatamos que a quantidade de mistura dos denisovanos é apenas de 0,4%”, justificou ao Correio Chad Huff, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Migração

Na análise aprofundada, os cientistas também comprovaram uma suspeita que já existia na arqueologia, a de que a adaptação genética dos tibetanos ocorreu após a migração de parte da população chinesa para o Tibete. Por meio do levantamento genético, os pesquisadores confirmaram que a população chinesa e a tibetana se separaram entre 44 mil e 58 mil anos atrás, mas que o fluxo de genes, ou seja, o cruzamento do genoma entre os grupos, permaneceu até aproximadamente 9 mil anos atrás.

Rodrigo Elias Oliveira, pesquisador associado do Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos, da Universidade de São Paulo (LEEEH/USP), explicou que o trabalho americano valida hipóteses antigas. “O mais bacana é que os dados genéticos vistos nesse estudo corroboram suspeitas de arqueólogos. Eles já desconfiavam que o fato dos tibetanos terem se afastado da população chinesa seria o fator responsável por essa adaptação. E, agora, também mostram que ainda existiram trocas genéticas há 9 mil anos, mas de forma menor e mais rara”, destacou o especialista que não participou do estudo. “Imagine que todo o pessoal que vive no litoral brasileiro não saia mais de lá para frequentar as metrópoles, eles começam a se reproduzir entre si e não passam as características de outros grupos distantes do local para seus descendentes. É essa a mudança vista por esses cientistas nos tibetanos que explicaria essa adaptação genética”, complementou Oliveira.

Os cientistas acreditam que o estudo terá continuidade e deverá explorar o DNA de outros povos com hábitos semelhantes ao dos tibetanos. Oliveira também ressalta a necessidade de dar continuidade à pesquisa. “O próximo passo seria procurar populações que vivem no Himalaia, na Cordilheira dos Andes, e tentar entender essa adaptação genética nesses outros grupos”, sugeriu o especialista.
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