Interesse pela aula e empatia por colegas sincronizam cérebro de estudantes

Além de reforçar a importância dos vínculos sociais, o estudo poderá ajudar a compreender melhor o comportamento das redes neuronais

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postado em 29/04/2017 08:00



Quando a aula é interessante e os estudantes gostam uns dos outros, o cérebro da turma entra em sintonia. É o que diz um estudo norte-americano, publicado na revista Current Biology. Na pesquisa, os cientistas analisaram, com aparelhos, um grupo de adolescentes durante suas lições diárias. Eles descobriram que, quando os alunos se mostravam estimulados pelo conteúdo, as ondas cerebrais entravam em sintonia. O mesmo foi observado no caso de os jovens sentirem empatia pelo professor e por seus colegas. De acordo com os autores do trabalho, o experimento poderá ajudar a entender melhor o comportamento cerebral humano, além de reforçar a importância do vínculo social.


“Tem bastante tempo que estamos interessados em saber como nossos cérebros e, em particular, as oscilações neurais (ondas cerebrais), se comportam durante uma comunicação bem-sucedida”, destaca ao Correio Suzanne Dikker, pesquisadora no Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York e uma das autoras do trabalho. A especialista também explica a escolha da sala de aula como ambiente utilizado para o monitoramento: “O benefício de uma classe estudantil como um laboratório de neurociência do mundo real não é apenas por este ser um espaço altamente social, mas por ser um local onde você pode impor um certo controle experimental enquanto preserva o ambiente natural”, justifica.

No experimento, os cientistas monitoraram um grupo de 12 estudantes do ensino médio, além do professor da classe, por um semestre inteiro. Eles gravaram a atividade cerebral durante as aulas regulares, por meio do equipamento electroencefalograma. Os pesquisadores, então, compararam as leituras feitas pelo aparelho com autorrelatos sobre o envolvimento dos alunos na sala de aula. Os estudantes foram questionados sobre seu nível de interesse, se gostavam do professor e das atividades realizadas, por exemplo.

Coerência

Os resultados mostraram uma correlação positiva entre as classificações dos alunos com o curso e a sincronia cerebral com seus colegas. Em outras palavras, quanto mais as ondas cerebrais de um aluno estavam sincronizadas com as da sala de aula como um todo, mais favoráveis eram as suas avaliações sobre o curso. “Sincronismo pode significar coisas diferentes em pesquisas, dependendo do cientista e das técnicas utilizadas. No nosso caso, utilizamos fones de ouvido eletroencefalográficos portáteis (EEG) e observamos uma coerência entre os cérebros. Ao captar as ondas cerebrais de vários alunos, mostramos padrões semelhantes, embora não necessariamente ao mesmo tempo, sempre. Alguns de nós somos um pouco mais lentos do que outros no processamento do nosso ambiente”, destaca Dikker.

Os pesquisadores também examinaram se a sincronia entre os cérebros dos alunos refletiu o quanto eles gostavam uns dos outros. Para fazer isso, os jovens foram perguntados como se sentiam quando estavam sentados próximos de determinados colegas de classe. Especificamente, eles descobriram que pares de estudantes que se sentiam mais próximos uns dos outros estavam mais sincronizados durante a aula, mas somente se eles tivessem interagido face a face.

Fernanda Ramalho, psiquiatra do Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, acredita que os resultados vistos na pesquisa americana são importantes, apesar de a análise ter sido feita em um grupo pequeno. “Mesmo com um número baixo de analisados, só 12 participantes, o que atrapalha um pouco a credibilidade, essa pesquisa tem um propósito muito interessante. O trabalho esmiúça o interesse do aluno pela aula, e mostra como ele pode ser influenciado pelas pessoas ao seu redor e pelo professor da classe. Esse tipo de informação pode ser importante para o futuro, pois, com ela, seria possível avaliar o rendimento dos estudantes com mais cuidado, já que agora sabemos que outros fatores estão envolvidos nessa atenção”, ressalta a especialista, que não participou do estudo.

Interação

Os cientistas explicam que a sincronização cerebral vista no experimento com os alunos ocorre por causa de um fenômeno chamado de arrastamento neural. “O ‘passeio’ das ondas cerebrais é regido por ondas sonoras ou padrões de luz do mundo exterior, ou seja, sua atividade cerebral está relacionada com o que está acontecendo no ambiente e, quanto mais você prestar atenção a determinados padrões temporais (nesse caso, nas aulas), mais o seu cérebro entra em um ritmo e bloqueia outras informações”, detalha a pesquisadora Suzanne Dikker. “Então, se você e a pessoa ao seu lado estiverem mais envolvidos, suas ondas cerebrais serão mais parecidas, porque estão bloqueando as mesmas informações. Esse tipo de sincronia é muito importante para a interação humana”, diz.

A psiquiatra Fernanda Ramalho explica que a sincronia vista no cérebro dos alunos é um comportamento recorrente do corpo humano. “Quem é mulher sabe que na época da escola era bem comum, ao andarmos com um grupo de amigas, todas elas menstruarem na mesma época. É esperado que nosso cérebro possa se sincronizar ao ser influenciado pelo convívio”, ressalta.

Os autores do estudo acreditam que os dados observados na pesquisa podem ajudar estudos futuros. “Nossa investigação acrescenta uma linha de evidência que sugere como a interação social é importante para a forma como vivenciamos o mundo. Vamos continuar a pesquisa em sala de aula. Estamos elaborando projetos em grande escala, em que gravaremos dados cerebrais e outros dados biométricos de até 45 pessoas simultaneamente em um auditório”, adiantou a autora.
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