Aparição de marcas de bebidas em filmes populares aumentou 92%

Estudo mostra que, nas duas últimas décadas, a aparição de marcas de bebidas em filmes populares aumentou 92%. O mais grave, afirmam os pesquisadores, é o fato de o merchandising do álcool ser maciço em produções voltadas ao público infantojuvenil

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postado em 06/05/2017 08:00 / atualizado em 06/05/2017 12:48

Valdo Virgo/CB/DA Press


Na história do cinema, o álcool sempre esteve entre os protagonistas. Ainda na era dos mudos, ele era retratado, seja nos filmes ou nos comerciais que os antecediam. A primeira propaganda filmada e veiculada em uma sala de exibição, aliás, foi do uísque Dewar. Isso em 1897. Mas nunca se mostrou tanta marca de bebida quanto agora. Um estudo apresentado no encontro anual das Sociedades Acadêmicas de Pediatria, nos Estados Unidos, constatou que, de 1996 a 2015, houve um aumento de 92% na aparição de rótulos famosos nas cenas. A preocupação dos autores é que essas são, justamente, as marcas mais consumidas por jovens. E elas aparecem, maciçamente, em produções voltadas ao público infantojuvenil.


Para realizar o trabalho, os pesquisadores da Universidade de Dartmouth (EUA) pediram que dois investigadores independentes examinassem as 100 maiores bilheterias de cada ano, entre 1996 e 2015. No total, foram avaliadas 1.998 produções. Além do número de marcas de bebidas, era preciso anotar a duração (em horas) do uso de álcool em cada filme. Os resultados mostraram que a exibição de rótulos em obras populares praticamente dobrou nas duas últimas décadas, particularmente, naquelas com classificação etária livre.

“Crianças e jovens enxergam os artistas de cinema como modelos”, alerta James D. Sargent, professor do departamento de Pediatria e Medicina Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade de Dartmouth e um dos autores do estudo. “Para as companhias de álcool, quando um astro favorito usa certa marca de bebida, esta é associada a todas as características que os jovens admiradores veem em seus ídolos. Por isso, não nos surpreende que as marcas que mais comumente aparecem nos filmes são as mais anunciadas em propagandas e as mesmas citadas por adolescentes que não têm idade para beber  costumam ingerir”, observa.

O estudo também mostrou que em 1.741 filmes (87% dos avaliados) havia cenas com bebida. Marcas específicas apareciam em 44% delas. Em 85% das produções indicadas para crianças, os personagens tomavam algum drinque, sendo que, nessas obras, as marcas de produtos alcoólicos eram exibidas. Três rótulos — Budweiser, Miller e Heineken — respondem por 33% dessas aparições, sendo que o primeiro é o mais frequente nos filmes livres para crianças. “O álcool continua a ser a droga de escolha dos jovens”, afirma Samantha Cukier, coautora do estudo. De acordo com ela, 4,3 mil mortes anuais entre jovens com menos de 21 anos nos EUA têm associação com álcool.

“Essa pesquisa sugere que a exposição ao merchandising de bebida aumenta a cada ano, o que é preocupante porque já se demonstrou repetidamente que a exposição ao álcool em filmes prediz o uso futuro da substância e está associada a um aumento dos problemas com bebida”, observa Cukier. “A alta frequência das marcas nesses filmes que seriam para crianças e adolescentes aumenta a questão sobre a adequação sobre a autorregulamentação do marketing da indústria de bebidas alcoólicas, observa. No Brasil, o merchandising também é autorregulamentado: essa tarefa cabe ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

Influência


A psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química e preceptora da residência em psiquiatria do Hospital de Base, diz que o marketing do cigarro no cinema e na televisão deixa importantes lições sobre a influência da propaganda de drogas lícitas sobre os jovens. “Aprendemos muito com o cigarro. Desde a infância e a adolescência, os espectadores já eram expostos, inclusive com propagandas bonitinhas, mostrando o camelo de uma das marcas”, diz. “Com a bebida é a mesma coisa. Podem achar que não, mas as propagandas chamam a atenção das crianças e pesquisas mostram que, a cada geração, elas começam a beber mais cedo”, observa.

Um estudo citado pela psiquiatra e publicado, em 2008, por Ilana Pinsky, pesquisadora do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentou fortes evidências da influência das propagandas de bebida sobre os adolescentes. A especialista analisou 85 artigos originais internacionais e 20 de revisão, além de três livros sobre esse assunto.

“Seja pela intensidade e frequência com que bombardeia o potencial ou atual consumidor, tornando-se quase onipresente, seja pelos efeitos neurocomportamentais consequentes à sua interferência nos circuitos emocionais, o certo é que a publicidade de bebidas alcoólicas é um dos importantes fatores influenciadores dos hábitos de consumo de álcool da população, em particular entre os mais jovens”, concluiu Pinsky. “Características como quão atraentes as propagandas são para esse segmento e sua exposição a elas relacionam-se com uma maior expectativa de consumo futuro e com um consumo maior e mais precoce por adolescentes.”


Desagrado


Nem sempre as marcas pagam para aparecer em filmes. Já aconteceu, inclusive, de uma cervejaria pedir para retirarem seu produto de um blockbuster hollywoodiano. Em 2012, o filme O voo (Flight), com Daniel Washington no papel do piloto William Whip Whitake, desagradou a Buddweiser. Isso porque a história é sobre um comandante afundado em álcool e drogas, que aparece tomando essa cerveja em algumas cenas. O estúdio Paramount, que produziu o filme, porém, não tirou as imagens do ar.


Legislação evita mortes


O endurecimento de políticas públicas sobre álcool protege jovens de morrer em acidentes causados pela combinação de bebida e direção, segundo um estudo publicado na revista Pediatrics. O trabalho, de pesquisadores do Centro Médico de Boston, mostra a importância de ações de controle para reduzir uma das principais causas de óbito entre pessoas com menos de 21 anos, em todo o mundo. “Nos Estados Unidos, metade dos jovens que morrem no trânsito estavam no carro de alguém que bebeu”, diz Schott Hadland, pediatra e autor correspondente do artigo.

No trabalho, os pesquisadores avaliaram 29 políticas públicas estaduais em todos os EUA, implementadas para reduzir o consumo de álcool ou prevenir a direção por motoristas alcoolizados, e as cruzaram com o número de pessoas com menos de 21 anos que morreram em acidentes envolvendo bebida. Foram utilizados dados de 85 mil óbitos ocorridos ao longo de 13 anos. Os estados foram classificados no ranking tendo como critério o quão restritiva eram suas leis em relação ao álcool, incluindo políticas de tolerância zero para jovens que bebem e dirigem e taxação alta das bebidas.

Os pesquisadores descobriram que, quanto mais restritivas as leis estaduais, menor a probabilidade de um jovem morrer durante um acidente de carro envolvendo o consumo de álcool. Além disso, quase metade das pessoas com menos de 18 anos mortas em situações do tipo eram passageiras, e não motoristas, e 80% dessas estavam sendo conduzidas por adultos maiores de 21 que haviam bebido. O impacto das políticas estaduais foi igual para ambos os sexos. “Quando se trata de prevenir mortes de jovens, as políticas de controle de álcool importam muito”, diz Holland, defendendo o endurecimento da legislação para evitar que mais tragédias do tipo aconteçam.
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