Descoberto em 2015, Homem de Naledi conviveu com humanos na África

Pesquisadores anunciam novos exemplares dessa misteriosa espécie, encontrados a 50km de Joanesburgo

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 09/05/2017 06:00 / atualizado em 08/05/2017 22:13

John Hawks/Wits University
 
Há um ano e oito meses, o antropólogo Lee Berger anunciou a descoberta de uma nova espécie humana, encontrada em uma caverna na África do Sul. A criatura híbrida, com características de homem e de australopiteco, causou comoção no meio científico. Na época, Berger, pesquisador da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e da National Geographic, admitiu que havia mais dúvidas que certezas sobre essa criatura. O Homo naledi poderia ter mais de 2 milhões de anos, ou menos de 1 milhão. Agora, porém, essa parte da história foi desvendada. Ele viveu entre 335 e 236 mil anos atrás. A datação mostra que a espécie é contemporânea do homem moderno, que surgiu há 200 mil anos.

Essa é a primeira vez que se tem evidências de que outro hominíneo sobreviveu ao lado dos primeiros Homo sapiens na África. Até hoje, foram catalogadas 15 espécies do gênero Homo, do qual faz parte o homem moderno, assim como o neandertal, o habilis e o denisovano. A coabitação ocorreu na Europa e na Ásia, mas, até hoje, não havia sido registrada no berço da humanidade.

Leia mais notícias em Ciência e Saúde

A pesquisa, publicada na revista eLife em três diferentes artigos, também anuncia a descoberta de uma segunda câmara no conjunto de cavernas Rising Star, onde os primeiros fósseis foram detectados. No local, a 50km de Joanesburgo, foram encontrados novos espécimes do Homo naledi, incluindo uma criança e o esqueleto parcial de um adulto do sexo masculino com uma caveira extremamente bem conservada, segundo os cientistas. Encabeçada pela equipe de Witwatersrand, a pesquisa contou com a participação de 30 instituições internacionais.

Surpresa


A datação do naledi pegou os próprios cientistas de surpresa. Os fósseis têm características compartilhadas com alguns dos mais antigos membros do gênero Homo, como o Homo rudolfensis e Homo habilis, que viveram há dois milhões de anos, ao mesmo tempo que apresentam traços do homem moderno. Em 2015, os pesquisadores acreditavam que a espécie seria contemporânea das mais primitivas. Em vez disso, os exemplares da câmara Dinaledi têm um décimo da idade que se acreditava.

“Fazer a datação do naledi foi extremamente desafiador”, disse Paul Dirks, professor da Universidade James Cook e da Universidade de Witwatersrand. Ele é o responsável por estudar a idade dos fósseis e dos sedimentos da caverna onde foram encontrados. “No fim, seis métodos de datação independentes nos permitiram restringir essa população do Homo naledi a um período conhecido como Pleistoceno Médio”, contou. Esse período compreende entre 781 mil e 126 mil anos atrás. De acordo com Dirks, o naledi deve ter sobrevivido por 2 milhões de anos ao lado de outros hominíneos na África. Acreditava-se, até agora, que, no Pleistoceno Médio, apenas o homem moderno existiu no continente africano.

“E esse é precisamente o tempo em que vemos surgir o que se chama de comportamento humano moderno no sul da África, um comportamento atribuído à evolução do Homo sapiens e que se acreditava representar as origens de atividades humanas modernas complexas, como enterro dos mortos, auto-ornamentos e ferramentas sofisticadas”, disse o especialista.

A equipe usou uma combinação de datação por luminescência opticamente estimulada dos sedimentos com urânio e tório, com análises paleomagnéticas de pedras da caverna para estabelecer o tempo geológico dela. Além disso, o exame direto dos dentes do Homo naledi, com uma técnica que usa urânio associado a uma metodologia chamada ressonância de datação de spin eletrônico, forneceu a idade final. “Claro que nos surpreendemos de os fósseis serem tão jovens, mas, quando percebemos que as próprias formações geológicas da câmara eram novas também, os resultados dos últimos exames já não nos espantaram tanto”, conta Eric Roberts, de James Cook, que é um dos poucos geólogos que entraram na câmara Dinaledi.

Marina Elliot, cientista exploratória em Wits e uma das pesquisadoras da expedição original de 2013, diz que sempre achou que os fósseis eram jovens. “Escavei centenas de ossos do Homo naledi e, desde o primeiro que toquei, percebi que havia algo muito diferente quanto à preservação. Eles quase não pareciam fossilizados”, explica.

Impacto

Em um artigo que acompanha a publicação, Lee Berger discute a importância da descoberta de uma espécie tão primitiva nesse período de tempo e local. De acordo com o cientista, isso terá um impacto significativo na interpretação de resquícios arqueológicos e na compreensão de qual espécie os fez. “Não podemos mais assumir que sabemos quais espécies fizeram quais ferramentas, ou mesmo dizer que os humanos modernos foram os inovadores de alguns desses importantes avanços tecnológicos e comportamentais na África”, diz Berger, acrescentando: “Se há outra espécie que compartilhou o mundo com os humanos modernos na África, é muito provável que existam outras. Apenas precisamos encontrá-las.”

“Acho que alguns cientistas assumiram que eles sabiam como a evolução humana ocorreu. Mas esses novos fósseis, além do que sabemos de genética, nos mostram que a metade do sul da África foi lar de uma diversidade que não vimos em nenhum outro lugar”, afirma John Hawks, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison e coautor dos três artigos. “Recentemente, registros de fósseis de hominíneos têm nos surpreendido. Acredito que o Homo naledi não será a última surpresa que sairá dessas cavernas”, acrescenta Berger.

O último artigo publicado na eLife anuncia a descoberta da segunda câmara do complexo de cavernas Rising Star, que contém mais remanescentes do Homo naledi. “A câmara, que batizamos de Lesedi, está a mais de 100m de distância da Dinaledi. É tão difícil quanto esta para acessar, e contém fósseis espetaculares de naledi, incluindo um esqueleto parcial com uma caveira maravilhosamente completa”, descreve Hawks. O nome Lasedi significa “luz” no idioma setswana.

Chegar a essa câmara não é nada fácil, reforça Marina Elliott. “Depois de passar por um túnel de 25cm, você tem de descer por veios verticais antes de atingi-la. Embora um pouco mais fácil de alcançar do que a Dinaledi, é mais difícil de trabalhar lá devido aos espaços muito estreitos”, conta. A exploradora não entrou em nenhuma das duas câmaras. “Nem entrarei. De fato, vi Lee Berger entalado por quase uma hora, tentando sair do túnel estreito de Lesedi”, recorda. Berger teve de ser retirado por cordas, presas em seus pulsos.

Híbrido 

O que faz do naledi uma descoberta fascinante é o conjunto de características ambíguas. Algumas muito avançadas para um ser com traços rudimentares, outras muito primitivas para um hominíneo moderno:

» O formato do crânio é avançado, mas a caixa craniana tem menos da metade do tamanho da do homem moderno e o cérebro é do tamanho de uma laranja

» Mãos, pulso e polegares sugerem a habilidade de manipular objetos

» As pernas são longas e deviam dar suporte a músculos fortes, uma característica bípede

» Embora um pouco curvos, os pés são quase idênticos aos do homem moderno

» Os ombros primitivos indicam que ele trepava em árvores e escalava galhos

» Os ossos do quadril são primitivos e mais curtos que os dos humanos modernos

» Dedos das mãos estavam preparados para segurar galhos, característica de macacos
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.