Ser humano tem senso olfativo tão bom quanto o cachorro, mostra estudo

Segundo um artigo norte-americano, esse mito foi construído no século 19 e baseado em evidências não científicas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/05/2017 06:00

Valdo Virgo/CB/D.A Press
Os cheiros são uma parte vital do dia a dia: os ruins alertam sobre comida estragada, enquanto os agradáveis estimulam a salivação e a digestão. Intimamente ligado ao sistema nervoso autônomo, que controla funções inconscientes do corpo, o olfato vai muito além do paladar. Ele evoca emoções e memórias e está envolvido em diversos processos biológicos, incluindo a escolha de parceiros.

 

Leia mais notícias em Ciência e Saúde

Por muito tempo, acreditou-se que, dos mamíferos, o homem era o que menos se beneficiava dessas habilidades. Contudo, agora, um pesquisador da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, diz que, na verdade, o faro humano é tão apurado quanto o de um cão. Em um artigo de revisão na revista Science, John P. McGann defende que a fragilidade atribuída ao olfato das pessoas não passa de um mito, construído no século 19 e, desde então, perpetuado. “Desde que foi descrito pela primeira vez, há 140 anos, o bulbo olfatório inspirou interpretações e conclusões incorretas sobre a função olfativa em humanos, comparado a outros mamíferos”, diz McGann.

O autor do artigo é pesquisador do Departamento de Psicologia de Rutgers e chefia, na instituição, o Laboratório de Neurobiologia de Cognição Sensorial. Quase 100% dos estudos desenvolvidos ali, ao longo dos últimos 14 anos, são focados na percepção dos odores. “Nós usamos o sistema olfativo de ratos e humanos como nossa principal área de estudo porque tecnologias poderosas nos permitem observar, diretamente, a representação neural dos odores no cérebro, e como elas mudam com a experiências. Também exploramos como as disfunções na cognição sensorial são, potencialmente, um componente de distúrbios como o estresse pós-traumático”, justifica o cientista.

Essa história, de acordo com ele, começa com Paul Broca, importante neurocirurgião, anatomista e antropólogo do século 19 que, entre outras importantes descobertas, identificou a região cerebral responsável pela linguagem. Mas, segundo McGann, em 1879, o cientista cometeu um erro. Como os bulbos olfatórios do homem são pequenos em relação ao resto do cérebro, ele assumiu que isso significava uma função também reduzida.

Os bulbos são duas estruturas que se parecem com anteninhas, localizadas próximas às fossas nasais. Eles fazem a ponte dos odores entre o mundo externo e a mente: quando se sente um cheiro, este é percebido por células especializadas, viaja pelo nervo olfatório e chega ao cérebro pelos bulbos. No córtex olfatório, a informação é decodificada, armazenada no hipocampo (é assim que os cheiros evocam memórias) e no hipotálamo (que, por organizar as funções viscerais, impede que se coma algo estragado, provocando náuseas, por exemplo).

Ao escrever sobre o bulbo olfatório, Broca afirmou, corretamente, que, comparado ao de outros animais, o do homem é menor em relação ao restante do cérebro. O erro foi dizer que o volume reduzido significava que, por ter livre arbítrio, o humano não precisa confiar no cheiro para sobreviver, como cães e demais mamíferos fazem. Portanto, sua capacidade de identificação e interpretação seria menor. Essa foi a única explicação do cientista sobre o assunto. E, estranhamente, foi — e continua sendo — aceita sem contestação.

De acordo com McGann, até mesmo Sigmund Freud comprou a ideia, a ponto de dizer que ter olfato apurado aumentava a suscetibilidade a doenças mentais. “Por muito tempo, houve uma crença cultural de que, para ser racional, uma pessoa não poderia ser dominada pelo sentido do olfato”, conta McGann. “O cheiro era associado a tendências animalescas”, explica.

Os mitos perduraram e, segundo o cientista, pouco se procurou esclarecer a respeito deles. Mas, agora, McGann fez uma grande revisão da literatura existente, incluindo a produzida em seu próprio laboratório. “Por tanto tempo as pessoas falharam no sentido de parar com essa concepção errada de que o senso de olfato humano é inferior por causa do tamanho do bulbo, mesmo gente que pesquisa a área”, critica. “O fato é que o senso olfativo é tão bom em humanos quanto em outros animais, como roedores e cães”, diz.

 

Peculiaridades

 

Segundo o pesquisador, os humanos podem diferenciar, provavelmente, 1 trilhão de odores diferentes, o que é muito mais do que os 10 mil anunciados em “livros folclóricos ou pouco embasados”, como define. Os neurônios receptores de odores que estão no nariz trabalham no sentido de fazer contato físico com as moléculas componentes dos cheiros e mandam as informações para o cérebro. “Podemos detectar e discriminar uma gama extraordinária de odores, somos mais sensíveis que roedores e cães para alguns tipos de odor. Somos capazes de rastrear um cheiro, e nossos estados comportamentais e afetivos são influenciados pelo nosso senso olfativo”, escreveu McGann, no artigo.

O pesquisador destaca que cada espécie tem suas peculiaridades em termos de detecção do odor. “O sistema olfatório humano é excelente, embora isso dependa do critério empregado. Por exemplo, os cachorros podem ser melhores que os homens para discriminar as diferentes urinas em um poste, enquanto o homem pode ser melhor que os cães para discriminar os odores de vinhos finos”, diz. Ele assinala, porém, que poucas comparações do tipo foram realizadas em estudos. “Quando apropriadamente testado, o sistema olfativo primário é altamente sensível e exerce forte influência no comportamento, na fisiologia e nas emoções”, afirma. Segundo McGann, foi documentado cientificamente que humanos podem detectar todos os químicos voláteis com mais de dois átomos.

Para ele, o debate é importante porque o olfato desempenha inúmeros papéis, como seleção de parceiros (ainda que inconscientemente) e decisões alimentares. Além disso, pelo impacto emocional. “Alguns pesquisadores também sugerem que o senso de olfato pode ser o primeiro a decair em doenças associadas à memória, como Alzheimer e Parksinson”, destaca o cientista.


Palavra do especialista

 

 

Relevância comportamental
“Humanos podem sentir cheiros tão bem quanto cães. Nosso senso olfativo é muito melhor que o imaginado tradicionalmente. Na verdade, em relação a alguns odorantes, nosso nariz é muito mais sensível do que o de um cachorro. Não podemos predizer a qualidade do senso de olfato de uma espécie levando em consideração características neuroanatômicas, como tamanho da estrutura cerebral ou genética. Em vez disso, a relevância comportamental dos odores é que parece determinar a sensibilidade desse sentido. O nariz humano é uma poderosa ferramenta que pode impactar dramaticamente as interações humanas, com um vasto campo de estudo, que vai da medicina à química, passando pela psicologia”

Andrea Buettner é químico e pesquisador do aroma na Universidade Friedrich Alexander em Nuremberg, na Alemanha

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.