Ricos em nutrientes, alimentos que vão para o lixo poderiam salvar vidas

Estudo norte-americano calcula a perda de fibras, vitaminas e outros componentes nutricionais durante a venda e o consumo de alimentos. O resultado mostra que o que é desperdiçado poderia beneficiar milhões de indivíduos

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postado em 21/05/2017 06:00

Ed Alves/CB/D.A Press
 

Todos os anos, 30% da produção anual de alimentos vai pelo ralo. Enquanto cerca de 800 milhões de pessoas passam fome, o consumidor final joga fora até 115kg de comida, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Em termos energéticos, somente nos Estados Unidos, tudo que é dispensado equivale a 1.217 kcal por pessoa, ao dia. No Brasil, na fase de venda, o desperdício corresponde a 22 bilhões de calorias anualmente.

 

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Falar em energia, porém, pode não ser a melhor maneira de dimensionar esse problema. Foi o que pensou uma dupla de pesquisadoras do Centro por um Futuro Habitável da Universidade de Johns Hopkins, em Baltimore (EUA). Para combater o desperdício, elas decidiram pintar esse quadro com outras tintas.

 

No lugar das perdas calóricas, calcularam o que se deixa de consumir do ponto de vista nutricional. Em um estudo publicado no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, Marie L. Spiker e Roni A. Neff se debruçaram sobre diversas tabelas e calcularam o quanto de fibras, calorias, proteínas e minerais são dispensados apenas no fim da cadeia de produção alimentar, que envolve a parte de venda e do consumo.


“Quisemos olhar para os nutrientes porque o que estamos jogando fora é comida boa e saudável”, explica Roni A. Neff, professora da Faculdade Bloomberg de Saúde Ambiental e Engenharia, que coordenou o estudo. “Quando você olha para calorias, as pessoas não necessariamente têm essa dimensão, porque os alimentos mais importantes em termos nutricionais são relativamente pouco calóricos. Justamente os alimentos que mais precisamos consumir são aqueles indo para o lixo”, lamenta.

No estudo, as pesquisadoras calcularam o valor nutricional do desperdício alimentar no fim da cadeia de 2.143 commodities em 2012, usando dados do Departamento de Agricultura dos EUA. Elas se concentraram em 27 nutrientes e descobriram que o total de comida jogada no lixo pelos norte-americanos naquele ano continha 1.217 calorias, 33g de proteína, 5,9g de fibra dietética, 1,7 microgramas de vitamina D, 286mg de cálcio e 800mg de potássio — os dados são por pessoa, por dia.

“O que descobrimos foi que os alimentos jogados fora contêm os nutrientes que, particularmente, ingerimos pouco. Por exemplo, por dia, o desperdício de fibra alimentar é de 6g. A ingestão recomendada para uma mulher adulta é 25g. Por ano, estamos perdendo 1,8 bilhão de gramas de fibras, o que é comparável ao total recomendado para 73,6 milhões de mulheres”, diz a pesquisadora Marie L. Spiker, principal autora do artigo. Nos Estados Unidos, esse é um dos nutrientes consumidos em quantidade menor do que o necessário para manter a saúde digestiva. “As americanas ingeriram 8,9g de fibra por dia em 2012. Naquele ano, o que foi para o lixo preencheria o gap nutricional de 206,6 milhões de mulheres.”

“Olho grande”


De acordo com as autoras, muitos fatores contribuem para que a comida vá para o lixo, tanto no nível das vendas quanto do consumidor final, incluindo a dispensa de alimentos devido aos padrões estéticos e às porções muito grandes e a forma de armazenamento de perecíveis. A microempresária Rosângela Paulino abriu um pequeno restaurante em Ceilândia, que serve pratos feitos e marmitas, principalmente para trabalhadores das oficinas próximas e do condomínio onde mora. Ela conta que, há até três meses, jogava fora, todos os dias, três sacolas de alimentos largados no prato pelos clientes. Não que a comida seja ruim. Pelo contrário, o tempero de Rosângela é muito apreciado pelos consumidores. O problema era o “olho grande”, maior do que a fome, da clientela.

“Como já conheço quase todos que almoçam aqui, eu sei mais ou menos quanto cada um come e preparo os pratos feitos com mais ou menos comida. Se a pessoa come e ainda fica com fome, coloco mais”, diz. Outra forma de evitar que a comida vá para o lixo foi a criação de um grupo no WhatsApp. Rosângela pergunta, todas as noites, quem vai querer marmita, pois as vendas variam muito — alguns dias saem apenas 14; em outros, passam de 60. Com os pedidos na mão, ela cozinha apenas o suficiente, sem margem para desperdício. “De uns 90 dias para cá, notei que o desperdício diminuiu bastante”, diz. Ainda assim, sempre há alguma sobra. Mas o que resta não vai para a lixeira. Ela separa carnes, cascas de verdura, arroz e envia tudo para o primo, que tem uma criação de porcos e frangos.

Porções dimensionadas


A professora de ioga Deborah Rosa aprendeu na prática a lidar com o desperdício. Antes de se casar e de se mudar de João Pessoa para Brasília, quando cozinhava, preparava comida para a família de quatro pessoas. Por isso, estava acostumada a lidar com quantidades maiores. “Depois que vim para cá, comecei a cozinhar só para mim, porque meu marido almoça fora de casa”, diz. No início, ela jogou muita coisa fora. Porém, com o tempo, aprendeu a dimensionar as porções. “Além disso, eu congelo as coisas, até sopa”, conta. Agora, nada mais vai para o lixo.

“Esse estudo nos oferece novas maneiras de apreciar o valor da comida jogada fora”, acredita Roni Neff. “Enquanto nem toda comida dispensada poderia ser recuperada, o trabalho nos lembra que estamos jogando pelo ralo uma grande quantidade de alimento de alta qualidade, os quais poderíamos estar desfrutando. Temos de ter em mente que, enquanto os esforços para reciclar o alimento desperdiçado são valorosos, eles, todavia, não se adereçam ao coração nem do problema da insegurança alimentar nem do desperdício. Precisamos de estratégias focadas nesses desafios em múltiplos níveis”, acredita.

Duas perguntas para Glaucia Rodrigues Medeiros

Nutricionista da clínica Funcional e vice-presidente da Associação de Nutrição do DF (ANDF)

De forma geral, por que as pessoas desperdiçam tanta comida?
O desperdício de alimentos tornou-se um hábito, um triste hábito, considerando as milhares de pessoas que passam fome no mundo. Falta ensinamento de base e conscientização da população. Rotinas simples, como colocar no prato somente aquilo que efetivamente vai consumir, já traria uma redução enorme no desperdício de alimentos. Muitos movimentos maravilhosos estão sendo realizados em prol da redução do desperdício, mas ainda é preciso muito trabalho para que sejam mais efetivas as ações. Em nossa sociedade, existe uma importância muito grande em tornar a redução do desperdício de alimentos uma rotina. Podemos ensinar desde cedo a criança a não desperdiçar alimentos, seja no preparo, seja no momento do consumo. É um caminho de conscientização.

Muita gente acha que legumes, verduras e frutas “machucados” devem ir para o lixo. Esses 
alimentos têm valor nutricional preservado? É possível aproveitá-los? 

O alimento só está efetivamente impróprio para consumo se estiver estragado. Não feio. Aproveitamos, inclusive, a parte “feinha”! Podemos picar, retirar o que está amassadinho e aproveitar a parte do alimento própria para consumo. O valor nutricional do alimento feio é o mesmo do bonito. Basta saber separar as partes que efetivamente não estão estragadas. Imagina deixar de comer uma banana porque a parte da casca está mais madura... Detalhe, a parte estragada ainda pode servir como adubo (fazer compostagem) para nutrir a terra e as plantações. Um adubo, por sinal, muito eficaz.
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