Vacinas: especialistas alertam para os perigos do movimento anti-imunização

Não se vacinar pode causar o retorno de doenças erradicadas e aumento da ação de vírus

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/06/2017 08:00 / atualizado em 03/06/2017 09:54

Arte/CB/DA Press


São Paulo e Brasília — A intenção era, em seis semanas, vacinar 48,7 milhões de pessoas em todo o país contra a gripe. Mas no fim da campanha, no último dia 26, apenas 35,1 milhões haviam sido imunizadas, o que levou o Ministério da Saúde a prorrogar o atendimento. A baixa adesão em ações do tipo tem, além de alterado cronogramas vacinais, preocupado especialistas. A estratégia preventiva, dizem, é essencial para a saúde coletiva, já que a proteção em grande escala é um dos instrumentos mais eficazes contra surtos e epidemias.



As barreiras à imunização não são exclusivas dos brasileiros. Movimentos antivacina ganham força pelo mundo. A Europa, por exemplo, vive um surto de sarampo — com 1.500 casos registrados em 14 países nos dois primeiros meses do ano — devido “a um acúmulo de indivíduos não vacinados”, segundo autoridades do Centro Europeu para a Prevenção e o Controle de Doenças. A preocupação norteou um workshop para jornalistas da América Latina, realizado pela Sanofi Pasteur, na semana passada, em São Paulo, com especialistas na área. Os impactos do problema e formas de combatê-lo estiveram entre os temas debatidos.

“Imagine o tamanho do arrependimento diante da morte provocada por uma doença que poderia ser evitada”, ressaltou Edimilson Migowski, infectologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  “Quando você protege a população com vacinas, há menos chances de outros vírus ocorrerem, mesmo em quem não foi imunizado. Chamamos isso de proteção de rebanho. As pessoas se protegem indiretamente, diminuindo as chances de os vírus chegarem à população”, explicou João Bosco Siqueira, epidemiologista da Universidade Federal do Goiás (UFG).

Segundo Migowski, há dois principais obstáculos à vacinação no Brasil. “O principal problema é a falta de educação. Somente com uma população mais bem informada, teremos pessoas mais conscientes. Outra dificuldade é que as pessoas não querem gastar com proteção. Acham que é menos importante. Porém, o custo para tratar uma doença grave é muito superior ao que se gasta em doses de proteção”, detalha.

No encontro, especialistas também ressaltaram os avanços em saúde pública alcançados no país por meio das imunizações. “Graças às vacinas, nós eliminamos a poliomelite. Também por causa delas, o Brasil se viu livre do sarampo. Agora, vemos esse problema com a febre amarela, que fez com que milhares de pessoas corressem aos postos médicos em busca de proteção”, diz Michele Caputo Neto, secretário de Estado da Saúde do Paraná, primeira unidade da Federação a realizar uma campanha pública de vacinação contra a dengue, no ano passado.

Comparando 2016 a 2015, os casos registrados de dengue no país caíram 11,1%. João Bosco Siqueira, porém, alerta que essa queda nos casos de arboviroses (doenças causadas pelos arbovírus, como o da zika, dengue e febre amarela) não significa que elas estejam sendo eliminadas. “A última vez que tivemos uma queda como essa, vimos um aumento constante nos anos seguintes. Isso pode ocorrer porque, quando as epidemias acabam, as pessoas não têm contato com novos vírus, e isso faz com que elas se tornem mais suscetíveis a eles”, explica.

O epidemiologista ressalta que, assim como ocorreu com o zika vírus, outros arbovírus podem surgir de repente, o que reforça a necessidade de vacinas que possam proteger a população. “É impossível saber o que pode vir”, reforça. “A vacina é uma maneira de conseguir mudar esse cenário, e ela pode não render os resultados esperados por causa de boatos espalhados por esses grupos antivacinação. É preciso deixar claro a importância dessa medida protetiva”, complementou Michele Caputo Neto.

Apoio científico

Pesquisas na área também são muito bem-vindas, apontaram os especialistas. Tanto para o desenvolvimento de fórmulas mais eficazes, quanto para derrubar mitos relacionados à vacinação. Em dezembro, por exemplo, um estudo conduzido pela associação Kaiser Permanente Northern California, nos Estados Unidos, com 196 mil crianças reforçou a tese de que não há ligação entre a gripe durante a gravidez e o desenvolvimento de autismo nos filhos — um dos argumentos usados por grupos antivacinação.

“Houve uma sugestão de aumento do risco de transtorno do espectro autista com a vacinação materna no primeiro trimestre, mas não foi estatisticamente significativo depois de considerados outros fatores de risco”, escreveram, à época, os investigadores do estudo, divulgado no Journal of the American Medical Association Pediatrics. Grávidas e mulheres que deram à luz nos últimos 45 dias fazem parte do grupo-alvo da campanha nacional de vacinação. Quando a ação foi prorrogada, apenas 53,4% das gestantes tinham sido imunizadas no país. A porcentagem de puérperas protegidas era maior: 71,2%


Meta não atingida

O Paraná realizou a campanha entre agosto e setembro de 2016, logo depois de ter começado a comercialização da primeira vacina de dengue no país, em julho. A ação contou com a adesão de 200 mil pessoas — uma taxa de cobertura de 40%, considerando a meta do governo de vacinar 500 mil pessoas. Desenvolvida pela Sanofi Pasteur, a fórmula tem, segundo a fabricante, eficácia de 60,8% contra os quatro sorotipos da enfermidade, redução de 95,5% de casos graves da dengue e uma taxa de diminuição de hospitalização de 80,3%.


* A repórter viajou a convite Sanofi Pasteur

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.