Prevenção em duas etapas ajuda no controle da disseminação da hanseníase

A ideia é imunizar os familiares com a vacina BCG e tratar os pacientes para evitar a disseminação da hanseníase

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postado em 14/06/2017 06:00

A hanseníase é uma doença contagiosa, transmitida pela saliva ou pelas secreções do nariz, o que acende o alerta para quem convive com os infectados. Pesquisadores têm se preocupado com essa condição e buscado maneiras de evitar que ela contribua para a disseminação da doença. Nessa linha, cientistas do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, descobriram que combinar a imunização dos familiares pela vacina BCG e o tratamento do paciente pode evitar que o problema de saúde tome proporções maiores. Detalhes do trabalho foram publicados na revista Plos Neglected Tropical Diseases.
 

Em comparação com pessoas que vivem em áreas com alta transmissão de hanseníase, mas sem exposição em casa ao bacilo causador da doença, aqueles que têm o contato domiciliar com o patógeno apresentam entre oito e 10 vezes mais chance de adoecer. “Já era de conhecimento científico que, sem tratamento, o Mycobacterium leprae é constantemente expelido pelas vias aéreas do infectado, podendo infectar outras pessoas que tenham contato constante com ele, em especial os que moram na mesma casa”, explica ao Correio Geraldo Pereira, pesquisador do Laboratório de Microbiologia Celular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenador do trabalho junto com Maria Cristina Pessolani, chefe do laboratório, e Fernanda de Carvalho, estudante de doutorado do IOC e primeira autora do estudo.

A equipe coletou amostras de sangue de 16 pessoas próximas a pacientes com hanseníase multibacilar atendidos no Ambulatório Souza Araújo, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que os infectados iniciaram o tratamento, 13 dos 16 participantes do estudo receberam o reforço da vacina BCG. “Conforme preconizado pelo Ministério da Saúde, é indicada a aplicação dessa vacina em contatos domiciliares do paciente com hanseníase que não apresentam sinais da doença. Dos três que não foram imunizados, dois já tinham recebido duas doses da vacina e um apresentava possíveis sinais de adoecimento, o que foi descartado durante o acompanhamento”, detalha o autor do estudo.

Seis meses depois — a duração do tratamento de hanseníase —, novas amostras de sangue foram coletadas dos voluntários. Em quase todos os casos, os testes revelaram maior frequência de linfócitos T, células de defesa ativas contra o Mycobacterium leprae. “Ou seja, a resposta imune dos participantes tinha sido fortalecida”, resume Pereira. “Como também foi observada melhora na imunidade até mesmo dos três indivíduos que não foram imunizados, consideramos que, pelo menos parcialmente, a melhora da imunidade foi associada ao fim da exposição cotidiana ao M. leprae, uma vez que os pacientes diagnosticados com hanseníase iniciaram o tratamento de imediato.”

Pereira ressalta que os resultados do experimento são de extrema importância para o combate à hanseníase. “O esclarecimento dos mecanismos de adoecimento facilitará uma melhor prevenção e o desenvolvimento de novos métodos para diagnóstico precoce da doença. Melhoria em prevenção e diagnóstico são etapas críticas para a eliminação da hanseníase, um problema de saúde pública no Brasil”, diz

Leandro Machado, infectologista com mestrado em medicina tropical da Rede D’Or São Luiz, em Brasília, explica que a estratégia usada pelos pesquisadores do IOC pode trazer ganhos duplos. “É uma pesquisa bastante interessante, apesar de ter sido feita com um número pequeno de analisados. O uso da vacina também evita que a pessoa desenvolva uma forma ainda mais grave da hanseníase, que é mais contagiosa. Dessa forma, é possível evitar dois problemas”, explica.

Ajuste preventivo

Não existe uma vacina específica para a hanseníase, mas a BCG (Bacilo Calmette-Guérin), usada contra a tuberculose, é indicada também para auxiliar na prevenção dessa enfermidade, pois os agentes causadores de ambas são semelhantes. Crianças recém-nascidas recebem a BCG no primeiro mês de vida, mas ela pode ser aplicada até os 4 anos de idade.

Nosso país ainda apresenta alto índice de novos casos, com cerca de 25 a 30 mil infecções (…) Acreditamos que, com essa pesquisa, damos mais um passo no enfrentamento da doença”

Geraldo Pereira, pesquisador do Laboratório de Microbiologia Celular do  Instituto Oswaldo Cruz e um dos coordenadores do estudo

Doença é um desafio para o Brasil

Em 2015, foram diagnosticados no Brasil 28.761 casos de hanseníase, sendo 217 no Distrito Federal. Especialistas ressaltam que alternativas como a proposta pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) podem frear o avanço da doença no país. “Hoje o Brasil só perde para a Índia em número de casos. Estudos como esse serão essenciais para saber a melhor forma de lidar com essa enfermidade e combatê-la”, diz o infectologista Leandro Machado.

Segundo os autores do estudo, os resultados também servem de reforço para a necessidade de procurar ajuda médica assim que surgirem os primeiros sinais da doença, além de seguir as orientações de especialistas da área médica. “Dessa forma, o paciente trará benefícios para si, seus familiares e demais pessoas que convivem com ele”, ressalta Geraldo Pereira, pesquisador do Laboratório de Microbiologia Celular do IOC.

Pereira também ressalta que o Brasil é um dos países que mais precisa se preocupar com a hanseníase. “Nosso país ainda apresenta alto índice de novos casos, com cerca de 25 a 30 mil infecções. Há inúmeras frentes de atuação para tentar reduzir esse quadro. Acreditamos que, com essa pesquisa, damos mais um passo no enfrentamento da doença. Quanto mais conseguirmos entender os mecanismos de ação desse micro-organismo, mais eficazmente poderemos combatê-lo.”

Os pesquisadores têm como plano esmiuçar ainda mais o funcionamento do sistema imune e sua relação com a hanseníase. “A próxima etapa do estudo pretende avaliar a função das células responsáveis pela regulação do sistema imune, chamadas  linfócitos T reguladores, nos contatos domiciliares de pacientes com hanseníase multibacilar. A identificação de alterações poderá abrir portas para o desenvolvimento de novas terapias ou estratégias de prevenção da doença”, adianta Pereira. (VS)
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