Esferas radioativas reduzem tumor primário no fígado

Startup australiana que desenvolveu a radioembolização com resinas microsféricas, que reduziu tamanho dos tumores

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postado em 18/06/2017 07:30

Chicago — Terceiro tipo de câncer que mais mata no mundo, o tumor primário de fígado ainda é um desafio para a medicina, porque as escassas opções de tratamento são consideradas pouco eficazes. Atualmente, as principais linhas de pesquisa se concentram em terapia gênica com vírus, novas substâncias de terapia-alvo e na radioembolização.

 

Essa última é um tipo de radioterapia que, diferentemente da convencional, é aplicada internamente e seleciona as células doentes, não danificando os tecidos saudáveis do órgão. A tecnologia foi aprovada no Brasil, na Argentina, na Austrália, nos Estados Unidos, no Canadá, na União Europeia e em alguns países asiáticos para o tratamento de tumores inoperáveis.

 

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Na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), que aconteceu neste mês, a Sirtex — startup australiana que desenvolveu a radioembolização com resinas microsféricas — apresentou o resultado de um estudo que testou a tecnologia em pacientes de hepatocarcinoma, o tipo de câncer de fígado mais comum. Também foram divulgadas pesquisas que investigaram pessoas com outros cânceres primários, com evolução para metástase hepática.


O objetivo principal dos testes — aumento de sobrevida — não foi alcançado. Contudo, houve redução no tamanho dos tumores. No caso de um subgrupo de pacientes com câncer colorretal do lado direito do intestino e metástase hepática, a taxa de sobrevivência foi maior, mas o estudo completo sobre será relatado em um artigo científico ainda não publicado.

 

Também conhecida como radioterapia interna seletiva (SIRT), na radioembolização, o cirurgião insere um cateter na artéria hepática. Nessa veia, são injetados milhões de microesferas radioativas, que chegam até o câncer, sem afetar os tecidos saudáveis. 

Estágio avançado


“Quando o hepatocarcinoma é descoberto em estágio inicial, os tratamentos disponíveis costumam ser bons. Infelizmente, a maioria dos pacientes já apresenta o câncer em estágio muito avançado. O tumor é grande e não podemos considerar a cirurgia”, diz Pierce Chow, cirurgião do Centro Nacional de Câncer de Cingapura. O médico, que também atua no Hospital Geral de Cingapura, liderou o estudo SIRveNIB, que avaliou a eficácia da radioembolização em 360 pacientes de hepatocarcinoma avançado, recrutados em 11 países asiáticos. O perfil foi heterogêneo: 41,4% tinham metástases, desenvolvidas fora do fígado, enquanto que o restante apresentava doença localizada.

 

Os participantes foram divididos em dois grupos: 182 submetidos apenas à radioembolização; e 178, que receberam a quimioterapia oral sorafenibe, o tratamento padrão para a doença. No fim, a sobrevida foi semelhante — 11,3 meses, no caso dos tratados com a radiação; e 10,4 meses, entre os pacientes que usaram os quimioterápicos. Segundo Chow, a diferença estatística é insignificante. Porém, nos 58,6% dos participantes com tumor avançado localizado (sem metástases), a taxa de resposta foi melhor: 23,1% dos tratados com as microesferas tiveram redução ou desaparecimento total do tumor, contra 1,9% no outro grupo. “Uma vez que o tumor responde, a ressecção cirúrgica se torna uma opção”, lembra o médico.


Os efeitos colaterais severos também foram menores nos pacientes tratados com radioembolização: 27,7%, contra 50,6%, registrados entre aqueles que fizeram a quimioterapia. “O sucesso de um tratamento depende de como você olha para ele. Do ponto de vista do paciente, vale a pena. Quando não se tem cura, a qualidade de vida é o que importa. Por isso, considero positivo esse resultado”, avalia a escritora norte-americana Andrea J. Wilson, fundadora da organização não governamental Blue Faery, de defesa dos pacientes de câncer hepático. A irmã mais nova dela, Arienne, morreu aos 15 anos, em 2001, de hepatocarcinoma e, desde então, a escritora apoia pesquisas que têm esse tipo de tumor como alvo.


Para o oncologista brasileiro Lucas dos Santos, da BP — A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que acompanhou o congresso da Asco, o fato de o estudo SIRveNIB não ter apresentado ganho na sobrevida dos pacientes não deve ser encarado como fracasso. “Não foi um resultado decepcionante porque hoje é bem difícil demonstrar ganho de sobrevida global em tratamentos de primeira linha”, observa. Primeira linha é a terapia padrão, utilizada como opção inicial para os pacientes.


De acordo com ele, os resultados do trabalho indicam que um grupo de pessoas pode ser beneficiada: aquelas que têm a doença avançada, mas sem metástases em outros órgãos. “O controle da doença fica melhor. Me parece uma boa estratégia de tratamento para o paciente para o qual já se esgotou tudo”, observa. A BP é um dos centros brasileiros que utilizam essa terapia. Os demais são o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, e o Hospital Sírio-Libanês, também na capital paulista. O médico acredita que o desenho do estudo pode ter desfavorecido o resultado em termos de sobrevida. Isso porque quase metade dos participantes tinha o câncer metastático, com tumores, inclusive, em outros órgãos.

Metástase

Um outro estudo que comparou a radioembolização com o tratamento padrão mostrou que, nos pacientes de câncer colorretal com metástase hepática, a tecnologia pode retardar o tempo que o tumor leva para crescer. Por outro lado, assim como aconteceu com o hepatocarcinoma, não houve impacto na sobrevivência global.
Apresentado no congresso da Asco, a Análise Combinada Foxfire foi conduzida por Ricky A. Sharma, chefe de Radiação Oncológica da Universidade College London, e envolveu 1.103 pacientes. Eles foram divididos aleatoriamente em grupos que fizeram a radioterapia interna seletiva (SIRT), em combinação com a quimioterapia de primeira linha para câncer colorretal com metástase hepática, ou que receberam apenas a quimio. A análise incluiu dados de três estudos — Sirflox, Foxfire e Foxfire-Global.
O câncer de fígado metastático é diferente do primário. Nesse caso, o tumor se desenvolveu em um determinado órgão, e depois se espalhou para o tecido hepático. Por isso, as características das células doentes serão iguais às do local onde ele formou.

 

Os estudos que englobam a Análise Combinada Foxfire incluíram pessoas cujo câncer principal era o colorretal, que é tratável e curável quando detectado precocemente, mas que se agrava quando invade outras partes do corpo. Bastante prevalente e associado à alimentação, esse é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), com 34.280 novos casos ao ano, no país. “Descobrir tratamentos mais efetivos é uma questão crítica para os pacientes”, observa Sharma.

Metodologia


Os participantes da análise combinada tinham sido diagnosticados com câncer colorretal não operável, com metástase tanto no fígado apenas, quanto em outros locais, como pulmões e em linfonodos. Quase todos já apresentavam tumor secundário na época em que descobriram o câncer colorretal. A sobrevida foi semelhante entre o grupo da radioembolização com quimioterapia e o da quimioterapia sozinha, assim como no tempo livre de progressão da doença.


Contudo, considerando apenas os estudos do Foxfire e do Foxfire Global, que envolveram 516 pacientes, aqueles que fizeram o SIRT mais o tratamento padrão passaram mais tempo sem que o câncer progredisse no fígado, comparados aos que só utilizaram a quimioterapia. “A maior parte dos pacientes morre porque o fígado se torna insuficiente. Quando um tratamento consegue botar o tumor para dormir ou eventualmente até reduz as lesões, isso é positivo”, avalia Renata D’Alpino, oncologista especializada no trato gastrointestinal do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, que acompanhou o encontro da Asco.


Para a especialista, que utilizou a técnica no Canadá e no Brasil, a metodologia do estudo pode ter prejudicado os resultados e, se a análise tivesse incluído apenas pessoas com metástase no fígado, é possível que houvesse algum ganho de sobrevida. “A minha interpretação pessoal é que o fato de a análise incluir 35% de pacientes que tinham doenças fora do fígado, como pulmão e peritônio, além de que metade dos participantes ainda tinha tumor primário no intestino, podem ter mascarado o tempo de ganho de vida”, diz.


O oncologista do Hospital Albert Einstein Rene Claudio Gansl, que também esteve no encontro da Asco, destaca que a radioembolização deve ser indicada para um grupo específico de pessoas que têm melhores chances de se beneficiar. “Na minha opinião, para o paciente com metástase hepática que terá uma sobrevida curta por causa dela, a radioembolização tem indicação de retardar a progressão da doença no fígado, e a morte do paciente. É um grupo selecionado; não pode ser usado para todo mundo”, diz.
Os custos do procedimento ultrapassam R$ 100 mil e, como ele não consta no rol de procedimentos obrigatórios da Agência Nacional de Saúde (ANS), os planos se negam a pagá-lo. Contudo, pacientes têm conseguido na Justiça a cobertura pelos convênios.

 

Mais chances e cirurgia

 

A combinação dos três estudos também mostrou que, no caso de pacientes cujo câncer colorretal com metástase hepática localiza-se no lado direito do intestino, há um ganho de sobrevida de 4,9 meses, com redução do risco de morte de 36%, no regime do SIRT combinado com quimioterapia. O detalhamento desse resultado será apresentado no Congresso Mundial da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, que acontece entre 28 de junho e 1º de julho, na Espanha.


O oncologista do Hospital Albert Einstein Rene Claudio Gansl, que também esteve no encontro da Asco, explica que o câncer de intestino não é uma única doença. “Há dois anos, a gente descobriu que o câncer de intestino do lado direito é muito diferente do que o que atinge o lado esquerdo. Quando se espalha, é uma doença muito ruim, a pessoa vive muito menos tempo”, diz.


De acordo com Gansl, a explicação está em diferenças genômicas e moleculares dessas duas partes do órgão, que, inclusive, têm funções diversas. Para Renata D’Alpino, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o ganho de sobrevida observado no estudo pode ser pelo fato de a doença instalada no lado direito não ter, por enquanto, muitas alternativas de intervenções. “O lado direito tem pouca opção; por isso, a pessoa vai melhorar. Mas os dados ainda são preliminares”, diz.


No congresso da Asco, também foi apresentado um pôster sobre a radioembolização, mostrando que, nos pacientes com metástase hepática e câncer colorretal primário, a combinação da técnica com a quimioterapia padrão aumenta as chances de se operar os tumores no fígado que, até então, não eram ressecáveis, devido ao tamanho. O trabalho, que incluiu 472 pessoas, mostrou que, entre as submetidas ao SIRT e ao medicamento, 38,1% puderam operar o câncer hepático metastático, contra 28,9% dos pacientes que fizeram apenas quimioterapia. (PO)

A repórter viajou à convite da Sirtex

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