Exame de sangue pode identificar início do câncer de pâncreas

Se chegar às clínicas, o procedimento criado nos Estados Unidos poderá revolucionar o combate à doença, hoje diagnosticada geralmente em estágio avançado

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postado em 13/07/2017 06:00 / atualizado em 12/07/2017 23:31

Escondido entre o estômago e o duodeno, o pâncreas, quando acometido por um tumor, dificilmente é notado. Sem terminações nervosas que possam provocar dor, o órgão não dá sinais de adoecimento, a não ser quando o câncer está avançado. Por isso, essa é uma das doenças oncológicas mais avassaladoras: apenas 7% dos pacientes sobrevivem até cinco anos após o diagnóstico. Mas isso pode mudar. Uma equipe de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (EUA) conseguiu identificar, em um exame de sangue simples, marcadores do câncer pancreático em estágio precoce. O estudo foi publicado na revista Science Translational Medicine desta semana.
 
 
“A detecção precoce do câncer teve uma influência crítica na diminuição do impacto de muitos tipos de câncer, incluindo de mama, de cólon e cervical. Uma preocupação de longa data tem sido com os pacientes de câncer pancreático, que geralmente não são diagnosticados até ser muito tarde para terem uma boa chance de tratamento efetivo”, disse, em nota, Robert Vonderheide, diretor do Centro Abramson de Câncer da Universidade da Pensilvânia. “Ter um teste biomarcador para essa doença pode alterar dramaticamente a perspectiva para esses pacientes.”

O trabalho, conduzido pelos pesquisadores da instituição, começou há quatro anos com um modelo de células programadas para se comportar como as estruturas formadoras do tumor pancreático humano em progressão. Elas foram criadas a partir de células do tumor de um paciente com câncer pancreático avançado do tipo adenocarcinoma, o mais comum, responsável por 90% dos casos da doença. Sob o comando de Jungsun Kim, os cientistas as programaram para se reverterem ao estágio de células-tronco. Dessa forma, transformaram uma linhagem de tumor avançado em células de estágio inicial do câncer, podendo observar que tipo de substância elas liberam nessa fase precoce.

“Com o modelo celular, conseguimos identificar algumas proteínas em potencial. Depois, fizemos vários testes que as estabeleceram como possíveis marcadores desse tipo de câncer no plasma”, conta Ken Zaret, diretor do Instituto de Medicina Regenerativa da universidade e principal autor do artigo. Dessas substâncias, as que mais pareciam estar associadas ao início do câncer de pâncreas era a trombospondina-2 plasmática (THBS2). A presença dela, combinada com outro biomarcador já conhecido, o CA19-9, foi um indicador da presença do tumor nos pacientes.

Depois, os cientistas refizeram os testes com amostras sanguíneas de mais de 700 pessoas, incluindo indivíduos com câncer de pâncreas em diversas fases e voluntários saudáveis. “A concentração de THBS2 ou de CA19-9 no sangue identificou consistentemente e corretamente todos os estágios do câncer”, conta Zaret. “Notavelmente, os níveis de THBS2 combinados com CA19-9 identificaram os estágios iniciais melhor que outro método conhecido”, afirma. O índice de sensibilidade — detecção correta dos doentes — foi de 87%, e o de especificidade — caracterização dos sadios — foi de 98%. Agora, serão realizados mais testes para a validação do teste.

Japão

Com um número menor de pacientes, um estudo da Universidade de Kumamoto, no Japão, também identificou biomarcadores sanguíneos presentes no tecido de pacientes de câncer pancreático que têm potencial de ajudar no diagnóstico precoce desse tipo de tumor. Diferentemente da pesquisa da universidade norte-americana, os cientistas japoneses não estimularam a regressão das células doentes avançadas a um estágio inicial. Eles analisaram o sangue de 65 pessoas saudáveis e de 38 indivíduos que conseguiram ter o tumor detectado precocemente e, usando uma tecnologia avançada de análise de proteínas, descobriram que, no começo, o câncer expressa uma quantidade diferente das proteínas IGFBP2 e IGFBP3. Essas substâncias, segundo os autores, também podem ser eficazes no rastreamento de outros tumores, como de estômago, de bexiga, colorretal, duodenal e hepático.


“Esperamos que os marcadores de diagnóstico contribuam para a melhora do prognóstico do câncer porque a detecção precoce permite uma chance melhor de cura completa por meio de cirurgia”, disse, em nota, Sumio Ohtsuki, principal investigador. “Além disso, a tecnologia usada nesse estudo deve ajudar a fazer análises em um número de espécimes muito maior em uma futura prática clínica.”

Palavra de especialista

Expectativa
“Um biomarcador traz muita expectativa de mudar o prognóstico do câncer de pâncreas. Como é um órgão que não tem muita sensibilidade, a dor só começa como sintoma quando o tumor está muito grande e já não há como operar. A sobrevida dos pacientes com câncer de pâncreas em estágio 1 e 2 é de 30% em cinco anos, e 4% no estágio 4. É uma doença grave, que evoluiu muito rápido. Além disso, com o envelhecimento populacional, está havendo um aumento da incidência porque ele é mais comum depois dos 60 anos. Por isso, há uma preocupação de investigação de novos tratamentos e diagnósticos. Mas, apesar de o artigo ser interessante, ainda há muito chão pela frente porque ainda é um estudo de fase II, e esse exame está longe de ser oferecido comercialmente.”

Márcio Almeida, médico oncologista da Aliança Instituto de Oncologia
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