Em 50 anos, espermatozoides de homens ocidentais caíram pela metade

Pesquisadores acreditam que o fenômeno esteja ligado à exposição a agentes químicos

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postado em 26/07/2017 06:00 / atualizado em 26/07/2017 07:19

Hebrew University/Divulgação
Em um mundo cada vez mais superexposto a produtos químicos, ameças invisíveis — porém reais — podem colocar em risco a fertilidade masculina. No maior estudo epidemiológico já feito sobre o tema, um grupo internacional de pesquisadores, incluindo do Brasil, constatou que, desde a década de 1970, a contagem de espermatozoides nos homens ocidentais vem diminuindo significativamente.
 
 
Em 1992, esse problema havia sido levantado por um estudo dinamarquês, que apontou uma redução expressiva na quantidade de células reprodutivas masculinas a partir de 1938. Contudo, o trabalho foi encarado com ceticismo. Agora, com dados de 7,5 mil estudos e análises de 185 pesquisas realizadas entre 1973 e 2011, os cientistas não têm dúvidas de que esse é, de fato, um fenômeno em curso. “Para mim, essa era uma importante questão científica e de saúde pública que eu tinha de responder”, destaca o líder do estudo, Hagai Levine, chefe do curso de saúde ambiental da Universidade Hebraica de Jerusalém.

No período analisado, a quantidade de espermatozoides no sêmen de homens norte-americanos, europeus, australianos e neozelandeses sofreu uma redução de 52,4%, enquanto que a contagem total (quantidade multiplicada por volume) declinou 59,3%. O mesmo não foi verificado na América do Sul, na Ásia e na África, mas os autores sugerem que isso se deu pelo fato de haver poucos estudos do tipo nesses continentes.

É o caso brasileiro, destaca um dos cientistas que assinam o artigo, publicado na edição de ontem da revista Human Reproduction Update. Segundo Anderson J. Martino Andrade, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no país os dados são insuficientes. “Talvez, esse declínio seja um fenômeno global, porém estudos adicionais são necessários, especialmente em países em desenvolvimento, que possuem poucos estudos sobre esse tema”, diz.

Ted Tollner, UC Davis/Divulgação

Razões desconhecidas

Os trabalhos que foram investigados para a meta-análise não eram observacionais, ou seja, não procuraram estabelecer uma relação de causa e efeito, mas, sim, detectar alterações estatísticas na contagem de espermatozoides, um dos parâmetros da infertilidade masculina. Contudo, estudos prévios fornecem boas pistas sobre as razões do fenômeno. “Nós não sabemos exatamente por que isso está acontecendo, mas nossas descobertas devem estimular esforços científicos massivos para identificar as causas e as formas de prevenção”, diz Levine.

“De estudos prévios — alguns feitos por nós —, sabemos que a exposição a disruptores endócrinos (químicos, incluindo tabagismo materno, e não químicos, como o estresse) no útero podem causar danos ao desenvolvimento do sistema reprodutivo e à fertilidade em potencial”, afirma o pesquisador. Esses riscos persistem em qualquer momento da vida. Por exemplo, pesticidas e cigarros, assim como a obesidade, que deflagra um processo inflamatório em nível celular, também têm potencial de interferir na contagem de espermatozoides. De acordo com Levine, é possível que homens ocidentais tenham sido mais expostos, nas últimas décadas, a novas substâncias químicas artificiais que os orientais.

A especialista em reprodução humana Luciana Potiguara, da Clínica FertilCare, em Brasília, afirma que, na prática, consegue visualizar os dados apresentados no estudo. “No dia a dia do consultório, vejo muitos homens jovens e saudáveis com uma quantidade de espermatozoides aquém da normalidade”, afirma. Segundo a médica, que não participou do estudo, para ser considerada adequada, a contagem deve ser de, pelo menos, 15 milhões de espermatozoides por mililitro de esperma. Além disso, fatores como motilidade da célula e pH são importantes para definir a qualidade do sêmen. “Não há uma resposta concreta para a diminuição da contagem de espermatozoides, mas nós sabemos que há coisas que existem hoje na alimentação e no ambiente que não tinham antigamente. As pessoas estão mais expostas a pesticidas, chumbo, radiação, solventes, fungicidas; coisas que nem conseguem ver”, observa.
 

Ambiente pode causar síndrome

Há uma forte suspeita entre especialistas de que fatores ambientais estejam por trás da síndrome de disgênese testicular (SDT), caracterizada por baixa contagem de espermatozoides, câncer de testículos e má-formação dos órgãos sexuais masculinos. No início dos anos 2000, cientistas dinamarqueses propuseram a existência da SDT por acreditar que essas condições estejam relacionadas. “Pode ser que só uma alteração se manifeste ou, nos casos mais severos, todas elas”, diz Anderson J. Martino Andrade, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Por trás do problema, que se desenvolve na fase uterina, estaria a influência de fatores ambientais.

No artigo em que descreveram a síndrome, os autores da Universidade de Copenhague lembraram que há “evidências substanciais de efeitos adversos no desenvolvimento causados por disruptores endócrinos, vindos de observações na vida selvagem depois de desastres ambientais acidentais”. Eles citam, entre outros, um caso ocorrido na Flórida, em que o derramamento do pesticida DDT no Lago Apopka provocou castração química e falhas reprodutivas em crocodilos endêmicos. Descobriu-se, a partir de um exame hormonal, que o problema estava associado à exposição pré e perinatal à venenosa substância, banida de vários países, inclusive do Brasil, devido à alta toxicidade.

Parâmetro

“O impacto do ambiente moderno na saúde das populações e indivíduos é claramente imenso, mas continua altamente desconhecido. A função reprodutiva masculina é muito sensível a impactos ambientais ao longo da vida e pode servir como ótimo modelo para estudos de impacto ambientais na saúde, especialmente porque a função reprodutiva do homem está associada à saúde geral”, observa Hagai Levine, chefe do curso de saúde ambiental da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Segundo o pesquisador, dada a importância de contagem de esperma para a fertilidade e a saúde, o estudo liderado por ele e divulgado ontem na revista Human Reproduction Update é uma chamada de despertar urgente para pesquisadores e autoridades de saúde ao redor do mundo para investigar as causas da forte queda contínua na contagem de espermatozoides. “Em paralelo, precisamos nos adereçar a causas conhecidas: regulação da exposição a químicos e controle de tabaco. Precisamos promover saúde para jovens homens: evitem fumar, mantenham um peso balanceado, sejam fisicamente ativos e reduzam o estresse”, recomenda. 

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isidoro
isidoro - 26 de Julho às 11:14
Alguns vão disser que melhorou a produtividade, fazendo mais com menos. Outros podem comentar que a reforma trabalhista já começou a fazer dispensa. Alguns dizem que se os testes foram feitos na sexta, a meta já saiu para curtir o fim de semana. E os estatístico podem projetar que a baixa quantidade poderá contribuir, também, para diminuir a população no mundo.