Cérebro valoriza respostas imediatas, sem avaliar consequências futuras

Ao analisar o cérebro de 49 prisioneiros com o distúrbio, cientistas concluem que há mecanismos no órgão que valorizam as respostas imediatas, sem avaliação de consequências futuras

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postado em 30/07/2017 06:00 / atualizado em 30/07/2017 09:57

Valdo Virgo/CB/DA Press
A psicopatia geralmente é relacionada à falta de caráter e à ausência de empatia. Pesquisadores dos Estados Unidos propõem um novo olhar sobre esse intrigante distúrbio. Eles analisaram o cérebro e o comportamento de 49 prisioneiros diagnosticados psicopatas e perceberam que alterações cerebrais podem levar esses indivíduos a valorizar respostas imediatas, sem uma preocupação com os impactos das escolhas. Divulgado recentemente na revista Neuron, o resultado, segundo os investigadores, amplia a compreensão sobre o distúrbio e pode ajudar a explicar a prática de comportamentos repugnantes, como os crimes em série.

A equipe decidiu recorrer às facilidades da tecnologia de imagem para tentar mudar a direção tomada pela maioria de estudos realizados sobre o tema. “Durante anos, seguimos concentrados na ideia de que os psicopatas são pessoas que não podem gerar emoção e, por isso, fazem todas essas coisas terríveis (…) Embora os psicopatas sejam frequentemente retratados como predadores de sangue frio, quase alienígenas, mostramos que o deficit emocional pode não ser o principal motor dessas escolhas ruins”, ressalta Joshua Buckholtz, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade de Harvard.

Buckholtz e os colegas defendem que é necessário analisar uma outra característica presente no distúrbio psiquiátrico: o imediatismo das escolhas. “O que nós nos preocupamos com os psicopatas não são os sentimentos que eles têm ou não têm, são as escolhas que eles fazem. Eles cometem uma quantidade surpreendente de crimes, e esses atos são devastadores para as vítimas e astronomicamente caros para a sociedade como um todo”, diz.

Os 49 prisioneiros participantes do estudo estavam em duas prisões de segurança média localizadas na cidade de Wiscosin. Todos foram submetidos a exames de ressonância magnética enquanto participavam de um teste de gratificação monetária. No experimento, tinham que escolher entre duas opções: a primeira faria com que recebessem uma quantia menor imediatamente; a segunda,  um montante maior, mas posteriormente.  O monitoramento de cada psicopata durou mais de duas horas.

Como resultado, os cientistas descobriram que aqueles diagnosticados com alto índice de psicopatia apresentaram maior atividade na região estriado ventral, uma área do cérebro envolvida com as escolhas mais imediatas. “Portanto, quanto mais psicopática é uma pessoa, maior a magnitude dessa resposta estriatal. Isso sugere que a maneira como elas estão calculando as recompensas de valor é desregulada”, resume Buckholtz.

Em uma segunda etapa, os pesquisadores mapearam a atividade de regiões do cérebro conectadas ao estriado ventral dos prisioneiros e constataram fenômenos que reforçaram os achados da primeira observação. “Nós mapeamos as conexões entre o estriado ventral e outras regiões envolvidas na tomada de decisões, especificamente as do córtex pré-frontal, conhecido por regular a resposta estriatal. Descobrimos que as conexões entre o corpo estriado e o córtex pré-frontal medial ventral eram muito mais fracas em pessoas com psicopatia”, detalha o investigador. “Precisamos do córtex pré-frontal funcionando estavelmente para fazer julgamentos prospectivos, sobre como uma ação nos afetará no futuro”, complementa.

Aval biológico


Segundo João Armando, psiquiatra do Instituto Castro e Santos, em Brasília, a dificuldade em controlar os impulsos, que ocorre pela falta de um mecanismo adequado de avaliação das consequências futuras e pela valorização de situações momentâneas, é uma situação observada em todos os transtornos de personalidade, incluindo a sociopatia. “Essa pesquisa corrobora de forma biológica sintomas que são características na prática clínica. Sabemos que resumir a sociopatia apenas à falta de empatia e emoções era algo muito simplista”, diz.


Guido Palomba, psiquiatra e diretor cultural da Associação Paulista de Medicina e autor do livro Insania Furens — Casos verídicos de loucura e crime, ressalta que o diferencial do estudo é o uso de tecnologias inovadoras para reforçar achados anteriores. Segundo ele, europeus e brasileiros também estudam esse tema e correlacionaram a impulsividade com a psicopatia. “Isso ocorre muito na física. Temos teorias de Einstein que foram comprovadas recentemente. Como agora há aparelhos que mostram detalhadamente o que desconfiávamos, podemos ter a confirmação do que era suspeito. O imediatismo é algo muito presente na psicopatia e faz com que esse transtorno gere consequências graves, como os crimes”, complementa.

Tratamento limitado


Tanto os especialistas quanto os pesquisadores acreditam que os resultados da pesquisa não poderão contribuir diretamente para o tratamento da psicopatia, um dos maiores desafios da área psiquiátrica. “A sociopatia é um dos transtornos de maior dificuldade de tratamento e com poucas respostas positivas. Creio que o estudo ajude a entender o funcionamento cerebral de algumas características, mas tenha pouco impacto na abordagem clínica, que continua a ser baseada em psicoterapia por longos períodos e, mesmo assim, com resultados, na maioria das vezes, discretos”, explica João Armando.

Segundo o psiquiatra, os cientistas têm se envolvido na busca por intervenções mais efetivas. “O número de pesquisas que tenta demonstrar a forma como os sintomas atuam no cérebro está crescendo bastante. Elas são bem-vindas, pois corroboram nossa prática no dia a dia, mas ainda há pouco impacto no tratamento clínico. A sociopatia tem muito que ser entendida, principalmente porque não temos um tratamento adequado. Creio que o grande desafio seja descobrir um tratamento com melhor resposta”, diz.
 
 
 
 
 
 

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