Técnica de edição intensifica debate sobre intervenção em genes humanos

Procedimento inédito extirpa mutação que causa complicações cardíacas nas primeiras fases do desenvolvimento embrionário. O resultado intensifica o debate sobre as implicações éticas da intervenção em genes humanos

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postado em 03/08/2017 06:00 / atualizado em 03/08/2017 07:54

Oregon Health & Science University/Nature

 

Pela primeira vez na história, cientistas conseguiram anular as chances de o ser humano herdar uma doença genética. Eles  utilizaram uma técnica avançada de edição de genes para retirar uma mutação de DNA que causa a cardiomiopatia hipertrófica — enfermidade responsável por insuficiência cardíaca e morte súbita — em um embrião durante as primeiras fases do seu desenvolvimento. Divulgado na edição de ontem da revista britânica Nature, o trabalho, além de abrir a possibilidade de desenvolvimento de novas formas de prevenção, traz questionamentos éticos, já que, em princípio, a mesma tecnologia poderia ser usada para alterar características físicas de bebês, como a cor dos olhos e o tipo de cabelo.

 

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Mais de 10 mil transtornos hereditários são controlados por um gene. No caso da cardiomiopatia hipertrófica, a herança de uma única cópia do MYBPC3 pode causar a enfermidade. Para retirá-la, os investigadores utilizaram a técnica chamada CRISPR-Cas9, que foi desenvolvida em 2012 por cientistas norte-americanos, em parceria com chineses e sul-coreanos, e é considerada um dos procedimentos mais promissores e precisos de edição genética. O método consiste em uma enzima, chamada de CAS9, que age como uma espécie de tesoura de genes, retirando partes indesejadas do genoma de forma precisa e as substituindo por novos pedaços de DNA.

Os pesquisadores realizaram uma fecundação in vitro de ovócitos normais com espermatozoides que tinham o gene defeituoso para a cardiomiopatia hipertrófica. Simultaneamente com o esperma, introduziram a enzima responsável pela edição genética. O resultado foi bastante positivo: cerca de 72% dos embriões (42 de 58) foram corrigidos. No grupo de controle, 47,4% dos embriões gerados por técnicas tradicionais de fertilização in vitro não apresentaram a cópia mutante. 

“Essas ferramentas ainda podem ser melhoradas para chegar a uma taxa de sucesso de 90% ou até de 100%”, ressaltou, em comunicado à imprensa, Shukhrat Mitalipov, um dos autores do estudo e diretor do Centro de Terapia Celular e Genética Embrionária na Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, nos Estados Unidos.

Em estudos anteriores com a CRISPR-Cas9, na China e na Suécia, foram usados embriões já formados. Nesses casos, a ferramenta de edição de genes agiu sobre algumas moléculas. No novo trabalho, conduzido por um consórcio internacional de investigadores, ao usar ovócitos e espermatozoide, a equipe pôde alterar o DNA do doador paterno antes do início da divisão celular, fazendo com que a mutação fosse corrigida em todas as células.

Os autores acreditam que a tecnologia poderá ser usada para impedir a ocorrência de milhares de distúrbios genéticos, eliminado as chances de os pais transmitirem enfermidades aos filhos, em um ciclo sucessivo. “Ao usar essa técnica, é possível reduzir o peso dessa doença hereditária na família e eventualmente na população humana”, ressaltou Shukhrat Mitalipov. “Essa pesquisa avança significativamente a compreensão científica dos procedimentos que seriam necessários para garantir a segurança e a eficácia da correção genética da linha germinal”, frisou Daniel Dorsa, também autor do estudo e pesquisador da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, os Estados Unidos.

 

Vigilância


Há, porém, questionamentos éticos sobre esse tipo de procedimento. Uma técnica similar à CRISPR-Cas9 foi testada em 2015, na China, e registrou-se o fenômeno do mosaicismo — caracterizado pela presença simultânea de genes saudáveis e defeituosos no embrião. Esse resultado intensificou as críticas e a vigilância com relação ao procedimento de edição genética.  Segundo Jun Wu, pesquisador do Instituto Salk, na Califórnia, a forma como eles fizeram a técnica elimina o problema. “Ao usar a técnica numa fase mais precoce do desenvolvimento embrionário, conseguimos evitar o mosaicismo”, ressaltou o integrante da pesquisa.

Em um comentário sobre o trabalho, também divulgado na revista Nature, Darren Griffin, pesquisador da Universidade de Kent, no Reino Unido, levantou outro ponto a ser discutido. “A questão mais debatida é saber se o princípio de modificar os genes de um embrião in vitro é aceitável. Mas outra pergunta deve entrar em debate: é moralmente justo não agir se tivermos tecnologia para prevenir essas doenças fatais?”, provocou.

Também em 2015, um grupo de cientistas da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NAS, em inglês) considerou que seria “irresponsável” usar a tecnologia CRISPR-Cas9 para modificar embriões enquanto os problemas de segurança e de eficácia existirem. Pesquisas realizadas com embriões humanos precisam seguir regulação estrita, que não permite, por exemplo, que o material modificado seja implantado no útero de uma mulher, dando início a uma gravidez. Por isso, no procedimento divulgado ontem, os cientistas interromperam o desenvolvimento dos embriões após alguns dias e os descartaram depois do sequenciamento para análise da eficácia da técnica.

Os autores do estudo ressaltam que o uso da técnica precisa ser aprimorado e discutido até chegar aos testes com humanos.   “Podemos prevenir a transmissão de doenças genéticas às futuras gerações, mas essa perspectiva ainda está distante. Antes dos testes clínicos, serão necessárias pesquisas suplementares e um debate ético”, afirmou, em um comunicado, Paula Amato, pesquisadora da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon.

 

 

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