Europa registrou aumento preocupante no número de enchentes em 50 anos

As mudanças climáticas e o excesso de desmatamento e urbanização estão entre os fatores que influenciam o fenômeno

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postado em 11/08/2017 06:00 / atualizado em 10/08/2017 23:46

As inundações vêm ameaçando o Velho Continente, com impactos nas mais diversas áreas: da infraestrutura das cidades à perda de vidas. Preocupados com esse fenômeno, pesquisadores internacionais analisaram, durante cinco décadas, como fatores climáticos e atividades econômicas, a agricultura, por exemplo, o influenciam. O resultado do trabalho foi divulgado na edição desta semana da revista americana Science.
 
 
Para o estudo, os pesquisadores utilizaram dados de mais de 4.200 estações hidrométricas (seções de rios) de 38 países europeus, coletados entre 1960 e 2010. Além disso, compararam informações sobre precipitação (queda da água do céu), umidade e temperatura do solo. “Estudos anteriores ficaram confusos ao não abordarem esses dados. As inundações não são apenas impulsionadas pelas chuvas, mas também pela umidade do solo e pelo derretimento da neve. Então, precisávamos considerar todos esses fatores”, explica ao Correio Günter Blöschl, líder do estudo e pesquisador da Universidade Técnica de Viena, na Áustria.

A avaliação revelou o quanto as estações do ano e as características regionais influenciam na ocorrência de enchentes. “Por exemplo, em grande parte do noroeste da Europa e do Mediterrâneo, as inundações ocorrem mais frequentemente no inverno, quando a evaporação é baixa e a precipitação, intensa. Na Áustria, por outro lado, elas estão associadas às chuvas de verão. Na região nordeste, o risco de inundações é mais alto na primavera por causa da queda de neve”, detalha o autor do estudo.

O calendário da cheia dos rios também tem características regionais. Mas o que mais preocupa, nesse caso, é que o problema tem surgido antes do esperado.  “No nordeste da Europa, da Suécia, da Finlândia e dos países bálticos, as enchentes, agora, tendem a acontecer um mês antes do que ocorriam nas décadas de 1960 e 1970. Naquela época, era tipicamente em abril. Hoje, em março. Isso ocorre porque a neve tem derretido antes, como resultado do aquecimento”, conta  Günter Blöschl. “Em partes do norte da Grã-Bretanha, da Irlanda Ocidental, da Escandinávia costeira e do norte da Alemanha, as enchentes tendem a ocorrer cerca de duas semanas depois do que aconteciam algumas décadas atrás, o que também reflete mudanças causadas pelas alterações climáticas.”

Trabalho humano

A equipe ressalta que a ação do homem no solo também é um fator determinante. Esse é, inclusive, um dos fatores a serem explorados na próxima etapa da pesquisa. “Vamos aproveitar o conjunto de dados de inundações únicos que compilamos e analisamos tendo em mente que não é apenas o clima que afeta as inundações, mas também a mudança de uso da terra e dos rios em atividades que envolvem o trabalho. A mudança do uso da terra pela urbanização, a intensificação da agricultura e o desmatamento são outros fatores que afetam os eventos de inundação”, ressalta Günter Blöschl.

Segundo os autores, a análise dos dados sinaliza claramente a necessidade de adoção de políticas que impeçam o avanço do fenômeno. “Uma evidente relação entre as alterações climáticas e as diferenças regionais foi percebida na ocorrência de inundações nos últimos 50 anos. Se essas tendências continuarem, consequências econômicas e ambientais significativas poderão ocorrer e agravar esse cenário”, alerta o investigador. “As inundações têm um grande impacto na agricultura, infraestrutura, economia, ecologia e vida humana. Portanto, criar estratégias que possam evitar prejuízos, como o monitoramento apurado do clima, é essencial”, sugere.

Também no Brasil

Paulo Cesar Rosman, professor do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que a pesquisa se destaca porque mostra detalhadamente os danos causados por um fenômeno preocupante em uma região específica. “A análise na Europa mostra o quanto esses riscos podem afetar essa área e alerta para os cuidados que devem ser tomados. Sabemos dos prejuízos que atingem a sociedade por causa das inundações, principalmente as pessoas com baixa renda, pois são elas que, na maioria das vezes, estão ocupando locais inadequados, em áreas mais instáveis, e são as primeiras a sofrer com os alagamentos. É preciso ter meios para impedir isso”, defende.

O especialista chama a atenção para o fato que esse também é um problema brasileiro. “Regiões costeiras são as mais prejudicadas. Aqui, sabemos que a área com maior risco de inundação é a região metropolitana do Rio de Janeiro. Quando temos a chuva vindo pela terra, gera o que chamamos de empilhamento da água, devido também à ocorrência de ventos, e não temos locais para escoá-la. Isso mostra o quanto o clima e a intensidade das mudanças climáticas podem agravar uma situação que já é complicada”, ilustra.

2016 alarmante

Uma série de indicadores climáticos mostra que 2016 foi de recordes negativos para a Terra. Registramos o ano mais quente dos tempos modernos, o nível mais alto do mar e a maior quantidade de emissão de gases do efeito estufa, segundo o Relatório Anual do Estado do Clima. Segundo os autores, o calor histórico resultou da influência do aquecimento global de longo prazo combinada com um forte El Niño. Eles também chamaram a atenção para a adoção de medidas que estanquem o fenômeno. “As mudanças climáticas são uma das questões mais urgentes que a humanidade e a vida enfrentam na Terra”, escreveram. Feito por quase 500 cientistas, o relatório é divulgado anualmente pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos e pela Sociedade Meteorológica Americana.

Palavra de especialista

Investigação sensível

"Em vez de aplicar uma análise convencional com apenas o tamanho e a frequência de inundação, os autores utilizam dados mais sensíveis. Obviamente, pesquisas adicionais são necessárias para desenvolver dados ainda mais precisos, mas podemos destacar que, sem adaptações, tais mudanças na sazonalidade das inundações podem afetar profundamente os rendimentos agrícolas, a segurança e operações de infraestrutura: produção hidrelétrica, abastecimento e gestão da água. O estudo levanta questões importantes sobre a previsibilidade das inundações. Esse trabalho é um passo na direção certa"

Louise J. Slater, especialista em clima e professora da Universidade de Loughborough, no Reino Unido
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